quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Lidos: Deuses Americanos e Monstress

Deuses Americanos, de Neil Gaiman, P. Craig Russel e Scott Hampton

Monstress, de Marjorie Liu e Sana Takeda

Estes foram os senhores que se seguiram. Desengane-se quem pensa que "ler quadradinhos" é para descomprimir ou porque anda com demasiado tempo livre. Na atualidade, a Banda Desenhada é muito mais do que histórias levezinhas para a garotada ou os super-heróis desta vida.

A densidade das narrativas e das histórias apresentadas vão muito para além disso. Mas, também estou em crer que, qualquer leitor que se preze, já se terá apercebido disso.

Sobre estas leituras:
O primeiro, Deuses Americanos, é uma adaptação para novela gráfica do livro de Neil Gaiman (American Gods, 2001). Neste livro, o autor britânico (n. 1960) conta-nos que está na eminência de acontecer uma batalha entre os deuses: antigos e modernos.

Os imigrantes que chegaram aos Estados Unidos levaram consigo os seus deuses. Porém, o seu poder foi esmorecendo à medida que as crenças das pessoas foram desaparecendo. No entanto surgiram novos deuses que refletem as obsessões modernas: a televisão, as redes sociais, as celebridades, a tecnologia, entre outros.

O nosso protagonista, Shadow, está preso, mas prestes a sair. Pouco antes da data marcada, é-lhe comunicado que sairá mais cedo, dado que a esposa faleceu. Na viagem para casa, conhece Wednesday, uma figura misteriosa que lhe oferece um emprego.
Ao perceber que a morte da esposa não é tão linear quanto pensava, Shadow aceita a oferta de Wednesday, e juntos embarcam numa "road trip", pelos Estados Unidos, para convocar os deuses para a tal batalha.

Em julho, li o primeiro volume (aqui), e agora terminei o segundo. Nesta parte, Shadow continua a trabalhar com Wednesday, mas, ao mesmo tempo, está escondido de um grupo de homens, que a mando dos Novos Deuses, o quer capturar. O final ficou pendente à espera da terceira, e última parte, que está previsto que saia para o próximo ano.


Terminei Monstress na 3.ª feira à noite. Tenho andado esgotada, e só mesmo à noite (e ao fim-de-semana) é que tenho conseguido ler. Gostei imenso da história - o suficiente para querer saber o que se passará a seguir - mas não foi fácil entrar nela. Não sei se foi devido ao cansaço, ao meu estado de espírito ou à complexidade do enredo.

A nossa protagonista é Maika Meiolobo - é uma adolescente, sobrevivente de uma guerra entre espécies. Contudo, a sua vida é atingida por estranhos fenómenos, e a jovem apercebe-se da sua relação com uma criatura do outro mundo, que desperta.

A arte - com uma inspiração oriental - é qualquer coisa de tirar o fôlego. Neste momento, a série já tem três números publicados, em Portugal.


Ambos são editados pela Saída de Emergência

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Lido: O Império Final, de Brandon Sanderson

Quem me segue no Instagram, sabe que tenho estado a passar por uma fase mais complicada: perdi o meu pai, dois anos depois da partida da minha mãe. Não tenho estado na minha melhor forma, como seria expectável.

E, se quando foi da minha mãe, li imenso, para não me deixar absorver pela tristeza, agora tem sido o contrário: não me apetece ler, e tenho visto muito mais televisão. Os nossos mecanismos biológicos de defesa são uma coisa incrível, não haja dúvidas...

Contudo, e apesar de não me apetecer muito ler, tenho lido algumas coisinhas. Terminei O Império Final (trilogia Mistborn) do Brandon Sanderson, e li duas graphic novels que trouxemos da Amadora BD, ainda em outubro, e comecei, ainda, a ler Vozes de Chernobyl da Svetlana Alexievich. Mas, vamos às primeiras leituras.

Comecei a ler O Império Final a 28 de outubro. O meu pai faleceu no dia 3 de novembro. Estive dias sem lhe pegar, apesar de começar a interessar-me. Demorei um bocadinho a perceber a parte dos metais, e da dinâmica entre eles, mas depois que "engrenei" estava, genuinamente, a gostar. Mas depois, estive quase duas semanas sem ler uma linha sequer.

Gostei muito. A relação entre o Kelsier e a Vin - os protagonistas - é fabulosa! E ainda mais fabuloso é assistir ao desabrochar da Vin, quer como "nascida das brumas", quer como pessoa. é uma saga de fantasia, sem dúvida, a seguir.

Vou tentar explicar um pouco: o Império Final é dominado há séculos pelo Senhor Soberano, uma personagem quase mística, que fundou aquele território. O seu poder é divino, e domina pelo medo e pelo terror. Os skaa são o povo menor, inferior a tudo e todos. Escravos do Império Final, e dos nobre que ali habitam, os skaa nem ousam levantar a cabeça.
De entre eles, uma vez por século, junta-se um grupo rebelde cuja missão é derrubar o Senhor Soberano.
Kelsier, o nosso protagonista, é o Sobrevivente. Há anos, rebelou-se e foi enviado para os Poços de Hathsin, de onde nunca ninguém havia escapado. Graças à "alomância" que desenvolveu durante a sua prisão, Kelsier é uma figura respeitada.
Junta, portanto, um grupo de ladrões e vigaristas, com o objetivo de tomar as rédeas do Império Final. Neste grupo, é incluída, Vin, uma miúda de 16 anos, que fazia parte de um bando de ladrões comum, e que demonstra grandes capacidades alomânticas.

O livro está bem escrito, se bem, que, inicialmente, possa ser um pouco complicado entrar no esquema. Por se tratar de uma narrativa diferente do habitual, perceber a dinâmica dos metais alomânticos e a sua função, pode ser um desafio. E nas cenas de batalha, quando todos os alomantes estão ativos (por assim dizer), pode ser complicado seguir as descrições. Mas, fora isso, adorei o enredo, e quero muito ler o resto.

(amanhã, publico, num texto único, a minha opinião sobre as duas graphic novels. 
E fico com os textos todos atualizados )

A saga Mistborn está editada, em Portugal, pela Saída de Emergência

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A Filha da Madrasta, de Jennifer Donnelly - divulgação

Há algum tempo que não publicava um texto de divulgação de um livro. Mas, a história deste que se segue chamou-me a atenção.

Toda a gente conhece a história da Cinderela, certo? A menina, órfã de mãe, que, um dia, vê o pai casar com outra mulher, com duas filhas. O pai morre, a menina sofre pavores às mãos da madrasta e das suas filhas, vai ao baile, conhece o príncipe, apaixonam-se, sapatinho de cristal e bummm... princesa instantânea e felicidade eterna.

Mas... e se a história tivesse outros contornos? E se as filhas da madrasta tivessem motivações e sonhos, como quaisquer raparigas da sua idade? Porque é que, afinal de contas, elas eram tão más (nas palavras da Cinderela, e a fazer fé que a rapariga era honesta...)?

É esta a ideia por trás do livro "A Filha da Madrasta", de Jennifer Donnelly, agora publicado em Portugal, pela Chá das Cinco (chancela Saída de Emergência).

Eu, que cresci a ouvir as histórias encantadas de princesas, fiquei mesmo muito curiosa. "Porquê, Cristina Maria?", perguntam vocês. Simples: uma pessoa cresce e amadurece e percebe que as coisas da vida não são sempre negras, nem são sempre brancas... há ali aquele meio, cinzento farrusco e maroto, que nos ensina que... a vida nos molda... para o bem, e para o mal.

(e esta capa absurdamente deliciosa, senhores...?!)


Sinopse: 
Isabelle deveria estar feliz – afinal, está prestes a ficar com o príncipe. Mas Isabelle não é a bela rapariga que perdeu o sapato de cristal e ganhou o coração do príncipe. 

Ela é a meia-irmã feia que cortou os dedos para que o sapato da Cinderela lhe servisse. Quando o príncipe descobre o engodo, Isabelle fica devastada pela vergonha. Afinal, ela é apenas uma rapariga comum num mundo que só valoriza a beleza; uma jovem forte num mundo que a quer submissa.

Isabelle tentou mudar, cumprir as expectativas da mãe. Ser como a sua meia-irmã. Doce. Bonita. Um a um, desfez-se de pedaços de si para sobreviver num mundo que não valoriza uma rapariga como ela. E isso tornou-a má, ciumenta e vazia. Até que Isabelle tem a oportunidade de alterar o seu destino e provar que é preciso mais do que um coração partido para vergar uma rapariga.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Lido: Uma Praça em Antuérpia, de Luize Valente

No Verão do ano passado, li Sonata em Auschwitz desta autora, literatura bastante "levezinha" para se ter durante as férias, pois então.

Agora li, Uma Praça em Antuérpia, onde voltamos a "misturar" a História de Portugal com a História contemporânea europeia.

Anos 2000.  No Brasil, uma mulher, na casa dos oitenta anos, assinala a passagem de ano com a família, relembrando o filho Luiz Felipe que havia falecido há pouco tempo. À medida que os convivas se vão recolhendo, Olívia revela a Tita, sua neta, que não é Olívia, mas sim, a sua gémea, Clarisse.

E aqui começa a história. Clarisse começa a contar à neta, o segredo que guardou por mais de 60 anos, e que poderá mexer com toda a estrutura familiar.

A mãe das gémeas, Clarisse e Olívia, morre ao dar à luz, e as crianças são criadas por uma avó, já que o pai, com o desgosto, não quer saber delas. Em adultas, mudam-se da zona de Guimarães para Lisboa. Uma delas - Olívia - casa com o filho da empregada delas de infância, e a outra - Clarisse - apaixona-se por um judeu polaco que conhece num dia em que se perde pelas ruas lisboetas. Theodor - que já havia fugido da sua pátria, devido aos avanços da extrema-direita de um homem chamado Hitler - em Portugal, é perseguido, por ser comunista.

Até que decide, de novo, fugir. Clarisse fica em Portugal, grávida, sem que Theodor o saiba. Um dia, cansado de fugir, ele regressa e descobre que a mulher que ama está grávida, e volta a procurá-la. Casam e mudam-se para Antuérpia, na Bélgica, convencidos que o movimento militar alemão não irá chegar até ali. O bebé, Bernardo, nasce em clima de relativa tranquilidade.

Em Portugal, por sua vez, o regime salazarista faz com que Olívia e António vendam a casa e o seu negócio e planeiem ir para o Brasil. Aliás, António parte para ir adiantando as coisas.

Na Europa, o avanço nazi é estrangulador. António garante estadia e trabalho para os cunhados, acreditando que conseguem os vistos para o Brasil, mas nem tudo corre consoante o planeado. E como já sabemos, a determinada altura desta saga, as gémeas trocam de lugar...

No geral, gostei deste livro. A determinada altura, passei páginas meio da diagonal, porque a autora estava, claramente, a enrolar o enredo principal, e a repetir fórmulas que já tinha usado antes. Eram partes que não adiantavam minimamente a ação, e só serviam para encher chouriços. E achei o final, um tudo-nada metido ao pontapé: pareceu-me ligeiramente forçado, e não adorei por aí além.

Mas, como disse, globalmente, gostei. Os livros que se passam durante o período do nazismo, e que retratam, mesmo ficcionadamente, esta época da História Contemporânea, por norma, agradam-me bastante. Mais não seja por pretenderem relembrar as atrocidades cometidas por um grupo que se julgava superior a outros - não que tenha adiantado de muito, como se vê nos dias de hoje, mas pelos menos, tentam...

Mas não adorei. Agora já não é tanto o caso de ser picuinhas, mas houve um conjunto de situações descritas, e algumas soluções de narrativa que me deixaram algo incomodada, por parecer que não "batia a bota com a perdigota". Não sei se me faço entender?

Dei 3 estrelas. É um livro com o seu interesse, mas não essencial. Com esta temática, existem outros superiores qualitativamente.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Lido: Saga - volume 3, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Li Saga, pela 1.ª vez, em agosto. Já tinha ouvido falar maravilhas desta série, e juntei o útil ao agradável, e comprei o 1.º volume para participar no #agostoaoquadrado da Silvéria e do Fernando.

Em setembro, só porque sim, comprei o 2.º volume, na FNAC.

Em outubro, começou o Amadora BD e apesar daquilo que é praticado não serem, nem de longe, preços de feira, trouxe o 3.º volume. E não consigo parar...

Seguimos Alana e Marko, dois soldados de facções adversárias numa guerra intergalática. Os dois acabam por se apaixonar, e Alana engravida e tem uma criança mestiça, e vista como uma aberração, por ambos os lados.
Tal animosidade não podia trazer nada de bom, como é óbvio, e Alana e Marko (e a criança) são perseguidos por todos os lados, e forçados a esconder-se. Este é apenas o plot da história. Só lido! Porque contado não tem metade da graça.

Neste volume, por instantes, esta família quase consegue ter um pouco de sossego, na casa de um aliado, mas acabam por encontrados.

Volume 1

Volume 2

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Lido: A Noiva do Tradutor, de João Reis

Há uns meses, o João Reis cedeu-me o seu último livro, A Avó e a Neve Russa, por coincidência,
pouco antes do meu aniversário... um livrinho maravilhoso que trazia nele todo um conjunto de sentimentos. Ri-me com ele, chorei com ele e emocionei-me. Na altura, disse que queria ler mais de João Reis, e, no dia em que encontrei A Noiva do Tradutor, não mais o larguei.

É um livro pequenino - 128 páginas - que se lê num sopro, no momento em que entramos dentro da mente do nosso protagonista, cujo nome não conhecemos.

Vamos encontrá-lo num elétrico, após ter deixado a noiva embarcar para outro continente. Durante a viagem que faz, o tradutor vai observando tudo o que se passa à sua volta, e ao mesmo tempo, temos acesso aos seus pensamentos mordazes, pois naquele trajeto encontra várias situações que o deixam ainda mais deprimido.

Todas as pessoas com que se cruza são a personificação do egoísmo, da crueldade, e das injustiças que, essas sim, caracterizam a sociedade. Com pouco dinheiro nos bolsos, o nosso tradutor vive numa residencial, com outras pobres criaturas.

Todo o livro, é o relato deste homem, num estado puro de desalento, que, tenta, por todas as vias, vir à tona respirar e encontrar uma solução. Mas o abandono que acaba de sofrer é o grande motor para os revezes.

Se em A Avó e a Neve Russa, temos um protagonista sem nome, aqui passa-se o mesmo, mas com a diferença abismal que, se no 1.º, tínhamos uma criança como narrador, aqui temos um homem, com cerca de 30 anos, com pensamentos mais concretos e menos ingénuos. A crueza dos pensamentos dele (do protagonista), muitas vezes, entram em confronto com o que realmente diz - fazendo dele, também, parte do problema.

A escrita é, substancialmente, diferente do A Avó e a Neve Russa, como é óbvio, e detetei, no estilo, uns laivozinhos de José Saramago: o humor sarcástico e algo subtil, a análise à sociedade, a escrita seguida, sem grandes pausas e parágrafos...

A A Noiva do Tradutor foi, de resto, o seu 1.º livro, em nome próprio. Gostei bastante, e pretendo, sem dúvida, continuar a ler mais João Reis, que merece ser muito mais conhecido e que lançou agora mais um livro: Quando Servi Gil Vicente.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Lido: O Tempo Entre Costuras, de Maria Dueñas

Cheguei, finalmente, ao livro que comprei na Feira de Lisboa: O Tempo Entre Costuras, da espanhola Maria Dueñas.

Não fazia ideia do que se tratava - até porque não vi a série - mas os elogios sucediam-se. Fazia uma vaga ideia que envolveria costureiras e guerra, mas nada em particular. Comecei a ler, e a gostar da leitura. A escrita fluída, simples, sem floreados complicados... uma história que cativava de início.

Temos Sira a contar-nos sobre a sua vida como filha de uma costureira, em Madrid. A mãe trabalhava para uma modista de reputação, e até Sira começou ali o seu aprendizado. O dinheiro não era abundante, mas o suficiente para as duas. Vimos a saber que a mãe havia sido deixada pelo pai de Sira, e a rapariga nunca o conheceu.

Ecos de uma rebelião começam a chegar a Madrid. E o atelier de D. Manuela começa a perder a pujança de outros tempos, até que acaba por fechar. Sira, e o noivo, vão comprar uma máquina de escrever, para que a rapariga aprenda a datilografar e possa encontrar outro trabalho. Sira conhece Ramiro, o dono da loja, e o seu mundo fica virado do avesso, acabando mesmo por terminar o noivado e ir viver com este homem.

Um dia, embarcam - com alguma urgência - para Marrocos, acabando por se fixar em Tânger. E é aí que as coisas começam a descambar.

Não vou adiantar muito mais da ação do livro, porque este merece, realmente, ser lido. Não só pelo ambiente em que decorre - Sira vem a Lisboa, só para vossa informação - mas pela própria história, e pela História. Há tanto que desconhecemos sobre a Guerra Civil Espanhola, ou sobre o envolvimento espanhol na II Guerra Mundial e que estão aqui, "mascarados" de ficção. Esta "maquilhagem" está feita de tal forma que aprendemos coisas sem nos apercebermos.

É um livro muito interessante, e com uma escrita tão atraente que nem percebemos que temos um calhamaço nas mãos (624 páginas). Só não dei 5 estrelas, porque houve uns pormenores que deixaram "encanitada", mas isto sou eu que sou picuinhas. 

sábado, 19 de outubro de 2019

Lido: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

Li este livro, aos bocadinhos, em três noites. O Henrique vai para a cama às 21h30, e ainda me sobram duas (boas) horas de leitura, todos os dias, antes de cair de cansaço. E foi nestes bocados que li O Retorno.

Já o tinha visto - várias vezes - nos escaparates (esta palavra ainda se usa?), achava a capa bonita, um livro com um tamanho e forma interessantes, mas ainda não tinha dado o passo em frente. 

Há meses, ouvi a Silvéria "The Fond Reader" a falar tão, mas tão bem que "fiquei com a pulga atrás da orelha". Aproveitei há umas semanas, um saldo engraçado no cartão da Bertrand, e trouxe-o comigo. 

Começo pelo formato: mais pequeno do que o habitual e de cantos arredondados, O Retorno é um livro ergonómico e maneirinho de se pegar. Um ponto a seu favor. 

A história é impressionante: estamos em Angola em 1975, mesmo à beira da independência daquele território, em relação a Portugal. Os portugueses já estão todos a regressar à metrópole. Uma família está prestes a embarcar numa das últimas pontes aéreas seguras para Lisboa: pai, mãe e dois filhos adolescentes - rapaz e rapariga. 

No dia, o pai é levado por um grupo armado, e a mãe e os filhos conseguem embarcar. A chegada a Lisboa é tormentosa, confusa, triste, desesperante... vidas embaladas e enfiadas em malas num país que, em alguns casos, nem sequer conhecem. Por exemplo, o nosso narrador, Rui, um adolescente com cerca de 15 anos, nasceu em Angola, tal como a irmã (um ano mais velha).
O carimbo que recebem é o de "retornados". Se, por um lado, são recebidos e alguns alojados em hotéis - a família que seguimos é alojada numa unidade hoteleira de 5 estrelas no Estoril - de forma a minimizar os transtornos, o apoio burocrático do Estado é praticamente nulo. 

Eram pessoas que ficaram bastante ressentidas com o Estado português, por terem sido forçadas a abandonar tudo. Esse ressentimento é muito bem focado nos diálogos que as personagens têm no decorrer da ação. Assistimos a conversas em que estas pessoas se revoltam contra aqueles que culpam pela situação: Mário Soares e Almeida Santos, por exemplo. 

Tenho a impressão que, mesmo hoje em dia, esta questão não é muitas vezes abordada. Pessoalmente, não conheço ninguém que tivesse passado por esta situação terrível: ter de deixar uma casa, os seus pertences, negócios.. e nem sequer me consigo imaginar nesta posição: ter de selecionar, de entre as minhas coisas, o essencial para levar numa única mala e embarcar, para sempre, para um país que apenas conheço de ouvir falar. 

E Portugal não estava minimamente preparado para receber estas pessoas. Pelo que li, posteriormente, foram cerca de 600 mil pessoas que entraram no País, em ano e meio / dois anos. O 25 de abril tinha sido um ano antes, e ainda estava tudo muito confuso, para toda a gente.

É um livro essencial. Não ficaria surpreendida que, daqui a uns anos, se torne de leitura obrigatória nas escolas.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Lido: O Conde de Monte Cristo - volume II, de Alexandre Dumas


Terminei a saga de Edmond Dantès. E com imensa pena. A história é sobejamente conhecida: Dantès é, injustamente detido, e passa 14 anos da sua vida no Castelo de If, onde acaba por conhecer o Abade Faria que lhe deixa uma enorme fortuna, caso consiga evadir-se daquela fortaleza.

Edmond consegue fugir e passa os 10 anos seguintes a planear a sua vingança contra todos aqueles que o prejudicaram. Vai também ajudar os que foram bons com ele.

Nem tenho palavras. É uma obra magnífica, das mais prazerosas deste ano, sem sombra de dúvida.

domingo, 13 de outubro de 2019

Lido: O Regresso do Desejado - volume I - A Ascensão, de Ricardo Correia

Este livro que terminei, na véspera do Encontro, já me era conhecido. O Ricardo Correia apresentou-o, em outubro do ano passado, em Sintra, e apesar de não ter podido assistir à sessão, ficou-me na retina, pela ideia inerente à sua escrita: e se Dom Sebastião tivesse regressado de Alcácer-Quibir? Quais teriam sido as consequências? Qual teria sido o rumo dos acontecimentos?

A História conta-nos que, após o desaparecimento do Rei português, Dom Sebastião, com apenas 24 anos, em 1578, instalou-se uma crise sucessória, acabando Portugal por se tornar território de Espanha, entre 1580 até 1640, com a ascensão de João IV, o Restaurador (dando início à última dinastia real, a Dinastia de Bragança).

O que Ricardo Correia fez com este livro foi um verdadeiro exercício de ficção histórica. Colocou várias personagens - umas ficcionadas, outras não - no centro de uma União Ibérica com Portugal à cabeça. Um Portugal que é o centro governativo dos dois territórios.

O resultado é uma trilogia muito interessante - sendo este o 1.º livro. O segundo volume - A Inquisição - foi apresentado ontem, dia 12 de outubro.

No Encontro de Booktubers, tive a oportunidade de trocar algumas ideias com o Ricardo sobre este livro. Especialmente sobre uma das minhas personagens favoritas, D. Leonor, que é fortíssima. O Ricardo garantiu-me que esta personagem - ficcionada - vai crescer ainda mais no 2.º volume.
De resto, mais do que a importância do papel de D. Sebastião, este livro tem três personagens femininas muito interessantes, tendo em conta o contexto em que a ação se passa.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

II Encontro de Booktubers

Vamos lá ver, não sou booktuber. Não tenho grande disponibilidade para tal, essa é a verdade. Para fazer vídeos, teria de abdicar de alguma coisa e... a família e os livros não são uma opção, senão... what's the point?!

Até podia fazer vídeos, mas não percebo puto de edição. Iria publicar vídeos, gravados com telemóvel, e com qualidade de 1960. Portanto, para já, cada macaco no seu galho... vou continuar a ler, a escrever aqui umas coisinhas e... um dia destes... pode ser que haja disposição para algo mais. Posto isto... não sou booktuber, mas fui ao Encontro em Leiria, no passado dia 5, que era aberto a book-bloggers e a instagramers.

E foi muito giro. Ao chegar lá, eu parecia uma groupie. Estavam lá a Silvéria, o Hugo, a Dora, a Elisa, a Isa, as Anas Lopes, a Roberta, a Dora Silva, a Cristina, as Marias João (Covas e Diogo), a Mafalda, a Sofia, o José... enfim, toda aquela gente que "bota faladura" sobre livros no Youtube, e cujos canais eu sigo. Havia ali aquela relação de "eu conheço-te, mas tu não me conheces".
O meu entusiasmo era comparável ao de uma adolescente a ir ao concerto do seu ídolo - mas daquelas adolescentes que passam duas noites ao relento, para conseguir lugar na fila da frente.

Tudo começou com a Rota Miguel Torga, onde pudemos conhecer os passos deste autor, durante a sua passagem pela cidade em finais dos anos 30, inícios dos anos 40. A registar: mais um livro na minha lista de obras a ler - A Criação do Mundo, de Torga.

Depois, houve um momento de troca de ideias com os autores Márcia Balsas e Ricardo Correia - o post sobre "O Regresso do Desejado" está atrasado, mas não esquecido. A parte da tarde abriu com mais uma conversa com Joana Afonso e André Oliveira, sobre BD.

O convívio com estas pessoas foi, sem sombra de dúvida, a melhor parte do dia. Encontrar alguém que fale a "mesma língua", que entende que ler é muito mais do que abrir um livro e seguir, ordenadamente, o que lá se encontra escrito... - fez o meu dia.







quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Lido: O Rinoceronte do Rei, de Sérgio Luís de Carvalho

Este é o segundo livro de Sérgio Luís de Carvalho que leio em pouquíssimo tempo. Li O Destino do Capitão Blanc durante o mês de julho e fiquei muito entusiasmada com a forma de escrever deste autor que é um "vizinho".

Depois desta primeira experiência com Sérgio Luís de Carvalho - e tendo confirmado as minhas suspeitas que ele reside na minha área - fiquei muito contente por ver que várias pessoas já tinham lido o novo livro e que a opinião era praticamente unânime: trata-se de um livro muito bom. 

A editora Clube do Autor - a quem tenho de agradecer - cedeu-me um exemplar de O Rinoceronte do Rei que li em apenas quatro dias.


Em 1514, o sultão de Cambaia recebe uma comitiva portuguesa que pretende solicitar autorização para construir uma fortaleza em Diu. Como forma de agradar ao sultão, os portugueses oferecem-lhe, em nome do Rei D. Manuel I, vários presentes. Apesar da resposta negativa, o sultão oferece à coroa portuguesa um rinoceronte. 
E é assim que, no início de 1515, chega um rinoceronte a Lisboa. Um animal, de tal forma exótico, que a novidade chega a vários cantos da Europa e suscita interesse de várias pessoas, nomeadamente do artista alemão, Albrecht Dürer.

Mas, esta não é só a história do rinoceronte que, ainda hoje, está imortalizado na Torre de Belém. É também a história de Océm, o tratador do animal e que o acompanha desde a Índia. Océm cai de amores por Esperança, uma escrava moura, e tudo faz para conseguir a sua liberdade.

Este livro é baseado em factos reais, o que me deixou ainda mais interessada na sua leitura. Já aqui tenho dito que se um livro me ensinar qualquer coisa, a sua missão no mundo está completa - e aprendi muito com este. Não fazia ideia que um rinoceronte havia sido oferecido ao rei. Não fazia ideia do burburinho.

Fui procurar mais informações, e no site da Torre de Belém pode-se ler o seguinte: "Em Portugal o rinoceronte foi imortalizado, encontrando-se representado numa das guaritas da Torre de Belém e também no Mosteiro de Alcobaça, onde existe uma representação naturalista do animal de corpo inteiro, com função de gárgula, no Claustro do Silêncio".

A História de Portugal é, realmente, uma coisa fascinante. E esta história não o é menos. O final não é totalmente feliz, mas é interessante ver que um episódio que, entretanto, se perdeu nos séculos seja tão complexo e simples, ao mesmo tempo. Recomendo vivamente.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Lido: Saga - volume 2, de Fiona Staples e Brian K. Vaughan

Em Agosto, no âmbito do projeto #agostoaoquadrado e do Book Bingo, li o primeiro volume de Saga, a história de Alana e Marko, dois soldados de frações opostas numa guerra intergalática. 

Os dois protagonistas apaixonam-se e envolvem-se. O resultado? Uma gravidez e o nascimento de uma criança que é metade de cada, vista como uma abominação, uma aberração...

Alana e Marko são perseguidos e têm de fugir, evitando a captura e, possivelmente, a sua morte. Neste segundo capítulo, se me é permitido assim descrever, são ajudados pelos pais de Marko que, apesar de não concordarem com a escolha do filho, aceitam. E é nos dado a conhecer o passado da relação de Alana e Marko, antes do nascimento de Hazel e dos eventos que levaram a que se deixassem envolver.

Estou profundamente apaixonada por esta história. Mas, de pouco valeria a narrativa, se o desenho não acompanhasse a qualidade da escrita. Vale cada cêntimo que se gaste na sua compra.


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Lido: Crime, disse o livro, de Anthony Horowitz

Dia 21. Foi no dia 21 que terminei de ler "Crime, disse o livro". Foi uma leitura absurda de tão boa. Trata-se literalmente de um livro... dentro de um livro.

Contexto:
Há muito tempo que conheço o trabalho deste autor. Basta dizer que foi um dos autores de vários episódios de Poirot, e que foi o responsável pela adaptação televisiva de Midsomer Murders, uma das minhas séries preferidas, e que está no ar desde 1997 (!!!). E que foi também o escolhido para dar continuidade aos livros de Sherlock Holmes - A Casa da Seda, diz-vos alguma coisa?

Adiante...
E é fantástico encontrar a homenagem a Agatha Christie nestas páginas. Não é subtil, não é algo que passe despercebido... está ali escarrapachado à vista de toda a gente. E é uma delícia. Susan Ryeland é editora e, um dia, senta-se a ler o manuscrito de mais um livro do autor bestseller da editora para onde trabalha.
Numa vila rural em Inglaterra, em 1955, uma mulher - Mary Blakiston - é encontrada morta dentro da casa do patrão. Todas as portas e janelas estão fechadas por dentro. O filho, que dias antes havia discutido com a mãe à vista de todos, é apontado como responsável pela morte da senhora.

A noiva, na tentativa de o ilibar, contacta Atticus Pünd, um detective particular que acaba de receber péssimas notícias, relativas ao seu estado de saúde. Apesar de registar as queixas da rapariga, Pünd não aceita o caso, por considerar que não existe caso. Mas, volta atrás, quando apenas duas semanas depois, o patrão de Mary é encontrado decapitado na sua própria casa.

Atticus desloca-se a Saxby-on-Avon para resolver este mistério e ligar os pontos que, até àquele momento, parecem desconexos.

Tal como nos livros de Poirot, no final, quando Atticus já sabe quem é o culpado, e chama todos os suspeitos para a revelação final... o livro acaba. Faltam os últimos capítulos do manuscrito.

Susan procura o chefe, Charles Clover, para saber onde está o resto do manuscrito. Nesse momento, é informada que Alan Conway, o autor, fora encontrado morto. Charles mostra a Susan uma carta enviada por Alan, onde este revela as suas intenções de se suicidar.

Susan, apesar de não simpatizar particularmente com Alan, fica intrigada com toda a história, e tenta desesperadamente encontrar as últimas páginas do último grande livro de Conway.

Este livro tem tudo o que os fãs de Poirot e Miss Marple adoram. É uma ode à grande senhora do crime. Adorei adorei adorei... fiz questão de não saber as opiniões de mais ninguém, para não me sentir influenciada, mas, agora, sinto que isso não iria acontecer.

Como fã assumida de Agatha Christie, estou genuinamente feliz com este livro. Uma curiosidade: a determinada altura, Susan conversa com o neto de Agatha Christie, pois este encontrou Alan Conway pouco antes de morrer. É só (mais) um pormenor que me deixou feliz durante esta leitura.

E o trocadilho com o título?! Não é uma delícia?

Resta-me apenas dizer que este livro foi-me gentilmente cedido pela editora Clube do Autor, a quem agradeço de coração ter-me proporcionado esta leitura 5 estrelas. 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Lido: A Companhia Negra, de Glen Cook

Terminei este livro durante o fim-de-semana, mas com o início das aulas, as rotinas, cá por casa, ainda estão a ser ajustadas, e o tempo não estica.

Desde há alguns meses que estava entusiasmada com esta publicação, mesmo antes do livro estar disponível nas livrarias, sequer. Tinha lido na revista Bang, um texto publicado pelo editor da Saída de Emergência, sobre este livro... e... como explicar?! Sabem aquela sensação que cresce em nós quando lemos algo que francamente nos entusiasma?! Pois, foi isso que senti... 

Houve qualquer coisa naquele texto que me levou a * salve o exagero * precisar - genuinamente - de ler A Companhia Negra. As minhas expetativas não foram defraudadas. 

A Companhia Negra é um livro de fantasia negra. Neste primeiro volume, acompanhamos a Companhia de Negra, um grupo de mercenários que, no momento em que começamos a história, está ao serviço de Síndico, na cidade de Beryl. Mas, o cenário na cidade é, de tal forma tenso, que rebenta uma guerra civil. Durante os confrontos, e sob proteção da Companhia Negra, Síndico, que funciona como uma espécie de governante de Beryl, refugia-se numa torre. Contudo, uma criatura negra ataca o local e há uma matança. A missão da Companhia Negra fica, desta forma, concluída, dado que o seu contratante é uma das vítimas da forvalaka, a tal besta.   

A Companhia Negra é contratada para servir a Senhora, nas terras do Norte. Em tempos que há muito passaram, a Senhora e o marido, Dominador, dois feiticeiros poderosíssimos, governaram com mão de ferro e crueldade, esse território. Mas, a Rosa Branca, líder mítica dos Rebeldes, havia conseguido pô-los num sono sem fim, acompanhados dos Tomados, um grupo de 10 inimigos que foi amaldiçoado a segui-los até ao fim dos tempos. Porém, após mais de 300 anos, a Senhora e os Tomados foram despertados, e a guerra recomeçou. 

É este o "plot" de uma saga que me entusiasmou muitíssimo. O livro está escrito da perspetiva do Físico, o médico da Companhia Negra, que serve também na condição de escriba que regista nos Anais, os momentos mais importantes e significativos do grupo. E aquilo que lemos são Crónicas escritas por Físico, logo existem alguns saltos temporais que, os mais distraídos, poderão achar estranhos. 

É um livro super-entusiasmante. E estava mesmo muito ansiosa para falar dele, mas estava difícil chegar ao fim, devido ao facto do Henrique ter começado as aulas, andarmos todos ainda um pouco "a apanhar papéis" e a criar uma nova rotina para estes primeiros dias do 1.º ano do 1.º Ciclo. 

Em A Companhia de Negra podemos encontrar um pouco de tudo: estratégia militar, fantasia e magia, humor, uma pitadinha de romance, intrigas, violência... e este 1.º volume é um início de uma saga, na minha simples opinião, memorável. Recomendo vivamente a quem gostou, por exemplo da Trilogia dos Senhores da Guerra, de Bernard Cornwell (também da Saída de Emergência), e gosta deste género de livro mais robusto.

Para não falar da capa, que é BRU-TAL! 

domingo, 8 de setembro de 2019

Lido: Malena é um nome de Tango, de Almudena Grandes

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Há uma semana, trouxe da biblioteca o livro "Malena é nome de tango", da escritora madrilena Almudena Grandes.

De tanto ouvir a Ana Lopes (do blogue e canal O Sabor dos Meus Livros) falar sobre esta autora, quando a encontrei nas estantes da biblioteca, não hesitei.

Malena, irmã gémea da perfeita Reina, é uma criança que, todos os dias, reza para se tornar um rapazinho. As diferenças entre ela e a irmã são abismais e Malena sente-se quase aprisionada numa espiral de convenções a cumprir, sem conseguir escapar-se às omnipresentes comparações com a irmã.

Um dia, quando já tem 12 anos, o avô oferece-lhe uma esmeralda, uma pedra valiosíssima que um dia a salvará. Mas a condição é que nunca fale dela a ninguém, e que, um dia, quando precisar, deverá procurar o tio Tomás que ele saberá o que fazer. Na mesma altura, falam sobre um dos seus antepassados, Rodrigo, que, dizem ter sido vítima de uma maldição.

Apesar de pertencer a uma família de posses, e, aparentemente serem perfeitos, existem muitos segredos que atormentam os elementos dos Fernández de Alcántara. Como a 2.ª família do patriarca, que apesar de não ser secreta, é um assunto que nunca é discutido.

Há medida que vai crescendo - e nós, vamos assistindo a esse crescimento - Malena assume que também ela é uma vítima da maldição de Rodrigo, tal como o avô e a tia Magda: por alguma razão, sentem que o seu lugar naquele mundo é confuso e não muito definido.

Todo o livro é um reflexo dos pensamentos e das ações de Malena - que é a nossa narradora. E não podemos esquecer que cada ação gera uma reação. E essas consequências, nem sempre são aquelas que Malena almejava.

Malena é uma personagem maravilhosa. Não é perfeita, longe disso, e os seus medos e anseios são nos transmitidos em cada linha, em cada parágrafo... é, no fundo, uma mulher à frente do seu tempo. Uma sobrevivente, se assim lhe quiserem chamar.

O livro narra um período temporal de cerca de três décadas. Desde meados dos anos 60 até aos anos 90, com uma Malena adulta. Apanhamos aqui muito da História de Espanha: alguns períodos da guerra civil e da 2.ª Guerra Mundial foram falados, bem como o período franquista que conhece o seu fim nos anos 70... assistimos a um grande período de transição e de adaptação, e muitas reviravoltas.

Não é um livro fácil, confesso. Custou-me a entrar na história, que é pesada, e o próprio estilo da autora não é simples, especialmente, no início... (apenas por isso, lhe dei 4 estrelas). Depois de conseguirmos ultrapassar o meio do livro, e de já estarmos habituados a que Almudena se disperse um bocado antes de retomar o fio à meada, lê-se tremendamente. A história, essa, é irrepreensível.

Gostava muito de saber o que lhe aconteceu, depois do último ponto final. Apesar de ser uma história belíssima, gostava de saber como é que a vida de Malena continuou. Como continuou a sua estória?

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Lido: O Terceiro Desejo, de Andrzej Sapkowski

As expetativas eram gigantes. Todo o hype à volta dos livros, do jogo, da série que se avizinha... é impossível escapar a esta explosão de opiniões entusiasmantes.

Já conhecia - pela rama - do tema. O meu excelso companheiro jogou o Witcher 3 para a Playstation, e de quando em quando, chamava-me a atenção para partes de diálogos, ou para os gráficos do ambiente do jogo.

E achei bastante bom. Tal como o livro. Há umas poucas semanas, comprámo-lo e ele terminou-o durante as férias. Depois trocámos, comecei a lê-lo e passei-lhe os comandos do Kindle. E, no primeiro dia, cheguei praticamente a meio do livro.

Geralt de Rívia é fantástico. Tem nele o melhor (e o pior) dos dois mundo. E é isso que o torna tão interessante. Não é apenas um protagonista heróico, é também alguém que comete erros e sofre as consequências.

Para quem não conhece - o que acho difícil, nesta altura do campeonato - estou a falar da saga The Witcher que segue a história de Geralt, um bruxo, caçador de criaturas. Um livro de fantasia, como é óbvio. Aqui, além do percurso deste profissional, somos dados a conhecer algumas versões menos divulgadas de histórias que conhecemos, tal como a Branca de Neve, que é uma princesa que se tornou salteadora, com os sete gnomos fazendo parte da sua quadrilha. Ou a história da Bela e do Monstro. A Bela Adormecida também aparece, mas apenas como uma história que alguém ouviu falar... e também é um pouco distorcida.

E depois é todo este mundo criado... enfim, e por outras palavras, é mais uma saga para me fazer perder a noção das horas. Lançados nesta fúria literária, já comprámos o 2.º livro da saga, publicada pela Saída de Emergência, há pouquinhos dias, porque o que mais falta cá nesta casa são livros.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Lido: O Porto das Almas, de Lars Kepler

Esta leitura foi um pouco diferente daquilo a que estamos habituados vindo de Lars Kepler. Li, em O Homem da Areia, e tinha ficado totalmente petrificada com aquela história.
julho,

O Porto das Almas é radicalmente diferente. Temos uma protagonista, Jasmin, tenente do exército sueco que, numa missão, perde dois dos seus homens. Também ela fica muito ferida, e quando acorda no hospital, conta que esteve num local semelhante a um porto, algures na China, onde se encontram várias pessoas a embarcar em diversos barcos.

Um pouco mais adiante, não muito, sabemos que esse local, é uma espécie de entreposto de almas. Como que um local de espera, até à recuperação da pessoa, ou à sua morte efetiva.

Jasmin, a determinado momento, tem de pôr em risco a sua própria vida, numa tentativa de salvar daquele local aquele que ela mais ama no mundo: o filho, Dante, de cinco anos.

Como mãe de uma criança com uma idade aproximada, arrepiei-me profundamente com a garra de Jasmin. Uma verdadeira mãe leoa que ultrapassa os limites do binómio vida/morte.

Mas... não é um livro por aí além. O esforço de mostrar algo totalmente diferente é reconhecido, mas não me apaixonou como O Homem da Areia, por exemplo, ou O Hipnotista que já li há mais tempo.

É um livro que explora a morte, e a vida para além dela, para quem acredita que há algo mais. A ideia é interessante, mas, para mim não resultou. O que tem a favor é, sem dúvida, os capítulos curtos e o ritmo frenético da narrativa. Não há um momento em que não aconteça alguma coisa.

Atenção: não resultou comigo, mas pode resultar com outra pessoa. Não se deve negar uma ciência que, há partida, se desconhece. Não foi o melhor livro que li nas últimas semanas, mas está longe de ser o pior. Dei 3 estrelas bem sólidas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Lido: O Aprendiz de Assassino, de Robin Hobb

Depois de uma semanita de férias - as publicações da semana passada estavam programadas - estou de volta ao batente. Uma semana de papo para o ar deu para terminar um ebook que trazia de casa, começar outro livro (que entretanto também já terminei) e terminar um 3.º livro.

Portanto, as próximas três postagens - sendo esta a 1.ª - são as minhas leituras destes últimos dias, por ordem cronológica.

* * *

Numa palavra: espetacular. Não sabia o que esperar, confesso. Mas tenho ouvido excelentes opiniões e decidi arriscar.

Cedo somos apresentados a Fitz, filho bastardo do Príncipe Cavalaria, herdeiro do trono dos Seis Ducados. Após o aparecimento deste filho tão pouco desejado, Cavalaria renuncia ao trono e sobe ao lugar de herdeiro o Príncipe Veracidade.
Mas Fitz é ignorado por todos, considerado culpado pela renúncia e afastamento de Cavalaria. Contudo, começa desde muito cedo a revelar o Talento, um dom que o pai e o tio também possuem. O rei Sagaz, por seu turno, decide aproveitar o garoto e torná-lo um assassino às suas ordens.
Mas, ser filho de Cavalaria não o protege inteiramente, e é vítima de golpes palacianos e intrigas de corredor.

Neste livro há um pouco de tudo: um enredo envolvente na óptica de Fitz, uma escrita fluída, amor e romance, lutas, intrigas e uma boa dose de fantasia.

Facilmente, o leitor começa a nutrir simpatia por Fitz. É o narrador, é apenas uma criança de seis anos quando o conhecemos, é uma vítima das circunstâncias, cresce com dedos apontados na sua direção como se a culpa de todos os eventos negativos que assolam o reino seja sua... Fitz é um menino que vai crescendo à nossa frente, e os vilões não têm remorsos nem paninhos quentes.

Recomendo vivamente e sem reservas.

O Aprendiz de Assassino - 1.º volume da 1.ª trilogia - está publicado em Portugal pela Saída de Emergência. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Agosto ao Quadrado: leituras completas

A faltar cerca de uma semana para terminar o mês de Agosto, faço um pequeno balanço sobre a minha participação no projeto da Silvéria (The Fond Reader) e do Fernando (Niji TV): #AgostoAoQuadrado.

A ideia era ler BD, graphic novels... enfim, toda a literatura aos quadradinhos. O meu excelso companheiro tem uma coleção simpática deste género e alinhei, porque Agosto é um mês que se quer levezinho e nada melhor do que ler "quadradinhos", às vezes esquecidos.

Comecei com o "Hellboy", que já vive cá em casa há mais tempo do que me lembro. Aliás, vim para esta casa em 2010 e ele já cá era veterano. "Hellboy" não deve ser desconhecido da maioria, até porque já houve dois filmes com esta personagem, e está um 3.º na calha. Trata-se de um ser, meio demoníaco (pelo menos na aparência) que foi invocado por Rasputine, para trazer o apocalipse. Acaba por ser descoberto, ainda em criança, pelos soldados Aliados, em dezembro de 1944.
Tem boas intenções, e integra, já em adulto o Bureau of Paranormal Research and Defence, que pretende combater o mal. Este livro conta as origens de Hellboy e conta uma aventura com os seus colegas Liz Sherman e Abe.
"Hellboy" foi uma leitura a contar para o Book Bingo, na categoria "um livro que se leia num dia".


 Depois, passei a uns livros mais recentes: os dois volumes de "Black Hammer". Eu que nunca fui muito de super-heróis, dei por mim, a adorar este, a dar estrelas "à grande e à francesa", e a ansiar por um novo volume.
Um grupo de super-heróis foi retirado da sua realidade e transportado para uma cidadezinha, onde está preso. Um deles ousou tentar regressar, mas foi morto. A vida, passados 10 anos, é monótona e repetitiva. Até que alguém do passado chega até eles e tenta, de alguma forma, levá-los a reagir. Mas, algo os irá tentar impedir.




O 4.º livro que li foi o "Newborn - 10 dias no Kosovo". Uma espécie de diário de viagem do autor - Ricardo Cabral - ao Kosovo, em Agosto de 2009. O livro é (quase todo) a reprodução dos desenhos que Ricardo fez, durante a sua estadia, com pequenos apontamentos sobre o que via, o que ouvia, o que fazia, onde ia, o que acontecia...
Em 2011, Ricardo Cabral ganhou, no Amadora BD, o Prémio Nacional de BD : Melhor Desenho de Autor Português - o que diz muito sobre este livro.
Considerei este livro para outros projetos como o #lusiteratura, já que uma das categorias do mês de agosto era "não ficção", bem como para o Book Bingo "livro que se passe no verão".


O 5.º livro foi o primeiro volume de "Saga". Que maravilha de livro. Fiquei fascinada com aquele mundo. Alana e Marko apaixonam-se. Isto não teria mal nenhum se eles não fossem soldados de frações opostas, numa guerra intergalática. É uma misturada épica de ficção científica, com romance e fantasia. Estou em pulgas para ler os volumes seguintes - diz que saíram mais 8 até ao momento. E que o 9.º está previsto para a Comic Con, em setembro.
Esta leitura contou para o Book Bingo, na categoria "livro recomendado por Youtuber, Blogger ou Instagrammer"; vi esta recomendação em vários canais, como The Phoenix Flight, da Ana Lopes, ou no Book, Less Beer and a Baby, do Filipe e da Cristina.


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Lido: O Romance de Cordélia, de Rosa Lobato de Faria

Que livro maravilhoso! Como esta mulher escrevia bem...

Ainda estou meio "anestesiada" com este romance. É-nos narrado na 1.ª pessoa e sabemos que a nossa protagonista está presa, prestes a sair, após 16 anos e 8 meses de cárcere. Cordélia, de seu nome, vai-nos narrando todas as circunstâncias da sua vida, desde a infância até ao momento presente.

Toda a vida foi um conjunto de acontecimentos que não indicavam que aquele seria o seu destino: pagar, na prisão, por algo que não fez e ver-se sem nada.

Sabemos da relação complicada com a mãe, do amor que sentia pelo pai e pela avó paterna, do suicídio do pai, a morte da avó, as más companhias... até que, por vingança, foi tramada e acusada de homicídio, e condenada a 20 anos de prisão.

Cordélia não é má pessoa. Cordélia é o fruto de más escolhas: umas por ingenuidade e outras por cegueira.

O final é dilacerante.

O livro está tremendamente bem escrito. Já tinha lido "Os Três Casamentos de Camila S.", e tinha ficado fascinada. Este livro é, aparentemente, muito simples, mas tem subtilezas e jogos que o tornam uma riqueza - o próprio título "Romance de Cordélia" é um jogo com a expressão "romances de cordel", que ela lia durante a prisão.

Adorei.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Lido: A Asa da Consequência, de Helder Martins

Av
Depois de ter lido "O Templo de Borkudan", Helder Martins voltou, gentilmente, a remeter-me a 2.ª parte da sua saga Crónicas de Tellargya.

Este livro é ligeiramente maior do que o 1.º - 327 páginas contra as 185 do volume 1. Neste livro, fiquei com um estranho amargo de boca: mas o pobre Helzar só encontra adversários? Não há meia dúzia de almas caridosas que ajudem o rapaz?! Contei, pelo menos, uns seis confrontos; fossem orcs, vampiros ou outros feiticeiros, com intenções meio nebulosas...

Muito resumidamente: Helzar é um jovem mago que depois de ver a sua aldeia destruída e a mãe assassinada, começa uma jornada para recuperar a irmã mais nova que foi raptada por Tunnroch, uma personagem que personifica o Mal. E isto é o 1.º livro, que termina com Helzar, o dragão Drinus e um monge de Borkudan a iniciarem a sua viagem.

No 2.º volume, mais do que um avanço na história, encontramos o nosso herói (e os seus companheiros) a serem, constantemente, testados. Lealdade e coragem e nunca desistir são alguns dos valores que este livro pretende, claramente, transmitir.

Somos introduzidos a novas personagens: uma elfo e um anão que se tornam aliados e companheiros de Helzar.

Assim, de repente, quase faz lembrar O Senhor dos Anéis em que tudo piora, antes da vitória final. E assim, terminou também este livro: com Helzar em apuros, separado dos amigos.

Uma nova chamada de atenção à editora: além de gralhas, houve parágrafos inteiros repetidos, nos últimos capítulos. Ó senhores da Chiado Editora, têm de ter isso em atenção!!! Mais uma vez: onde está o vosso apoio na parte da revisão do texto?

Sugestão ao Helder: um glossário com as personagens. São muitas, e com nomes pouco comuns. Tal como publicaram o mapa do território - que adorei - devia haver também uma ajuda no que toca a situar as personagens.

Foi uma leitura muito interessante, e fico à espera da conclusão desta aventura.

Este livro contou para o Book Bingo Leituras ao Sol, na categoria "último livro que te ofereceram".

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Lido: As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain

Esta leitura foi feita no âmbito do Book Bingo Leituras ao Sol. Uma das categorias era escolher - de olhos vendados - um livro das estantes. Mas como as minhas prateleiras estão um caos, decidi fazer uma lista com alguns dos livros que tenho por ler, e sortear através da plataforma Random.

Calhou este. E em boa hora. Há uma companhia de teatro, aqui de Sintra, está a apresentar uma versão adaptada deste clássico infanto-juvenil, e eu queria muito levar o Henrique. Consegui terminar a leitura no dia preciso em que o levei a ver a peça.

Li esta obra no Kindle, e não tenho imagens, mas deixo aqui uma ilustração do livro, na sua versão original de 1884.


O livro é engraçadíssimo e a peça não fica atrás - just saying!!

Huck, como gosta de ser tratado, é o melhor amigo de Tom Sawyer. No final do livro As Aventuras de Tom Sawyer - que não li!! - os dois rapazes encontram algum dinheiro, e ficam ricos. Huck fica aos cuidados de uma senhora, a Viúva Douglas, e da sua (extremamente rigorosa) irmã. Contudo, o rapaz sente-se aprisionado naquela vida: ter de frequentar a escola, vestir roupa, calçar sapatos apertados, ter maneiras... para alguém habituado a ter toda a liberdade do mundo, isto é tortura.

Um dia, depois de ter sido aprisionado e ameaçado pelo pai, decide simular a sua morte e consegue fugir. Durante a fuga, encontra Jim, o escravo da Miss Watson (a irmã da viúva), que aproveitou a confusão levantada pela suposta morte de Huck, e também fugiu, dado ter ouvido Miss Watson dizer que o ia vender.

O livro segue as aventuras que estas duas personagens - tão diferentes - vivem ao longo do Mississipi, as pessoas que conhecem, os mal-entendidos que se geram... é um livro fabuloso. Depois de o ler, recomecei - com o Henrique - a ver os desenhos animados do Tom Sawyer, e o entusiasmo ainda não se perdeu.

Quanto à peça - vale a pena ser vista. Aos sábados e domingos, na Quinta da Ribafria, em Sintra. Até 15 de setembro.


terça-feira, 6 de agosto de 2019

Lido: Está tudo F*dido, de Mark Manson

Nunca li um livro de auto-ajuda em toda a minha vida. E, parece-me que vou continuar com um valente nulo nesta área. Se Está tudo F*dido é para ser um livro de auto-ajuda... lamento, mas falhou redondamente. E isto não é mau. Gostei - francamente - desta leitura!

É um livro que nos pretende alertar para uma série de coisas, como a futilidade, a crença, o narcisismo, a autoestima e mais um rol de conceitos inerentes à própria civilização, mas de uma forma engraçada.

Aliás, Mark Manson escreve como se estivesse a conversar com o leitor e damos por nós a acenar positiva ou negativamente como que respondendo a um interlocutor tagarela. 

A análise que Mark Manson faz a estes conceitos/ideias que aborda vão desde as perspetivas mais filosóficas, às religiosas, às científicas e/ou tecnológicas. É quase refrescante ler sobre Platão, Nietzsche, Carl Sagan, Kant, e até mesmo Elon Musk numa salada de fruta em forma de livro. 

Mas, no fim, acaba por fazer sentido - ajudam as notas no final do livro, e que acompanham a leitura, referenciando as suas fontes, contextualizando ou fazendo apenas comentários jocosos. 

"A verdadeira igualdade nunca poderá ser atingida; haverá sempre alguém, em algum lugar, que está lixado. A verdadeira liberdade não existe realmente, porque todos devemos sacrificar alguma autonomia em prol da estabilidade (...) Não há soluções, apenas medidas temporárias, apenas melhorias graduais, apenas formas ligeiramente melhores de estar fodido do que outras (...) Este é o nosso mundo lixado. E nós somos os lixados que vivem nele".

O livro termina a falar da Inteligência Artificial e a forma como, aos poucos, se vai instalando confortavelmente, com a nossa anuência. Curiosamente, este capítulo fez-me lembrar um outro livro: Deuses Americanos, de Neil Gaiman - em que os velhos deuses combatem os novos deuses, esses mais ligados ao mundo moderno e às tecnologias. Não sei se o autor pensou o mesmo, mas a comparação fica, desde já, feita. 

Como já disse antes, sinceramente, gostei desta leitura. Tem é de ser feita com as condições certas. Num ambiente sossegado, de preferência para não perdermos o fio. E essas condições... nem sempre as consegui arranjar em pleno, razão pela qual demorei a terminar. O que me falta dizer? Que se trata de uma edição Saída de Emergência que, gentilmente, me cedeu um exemplar, para que eu conhecesse Mark Manson, por quem já nutria curiosidade desde o seu "A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da" - um dos melhores títulos de sempre. 

domingo, 4 de agosto de 2019

Lido: A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich

Naquele dia, quando fui à biblioteca, a ideia era trazer o Vozes de Chernobyl, mas ao invés, trouxe este. E não me arrependo. Ouvi maravilhas do Vozes de Chernobyl, mas este é outro murro no estômago de todo o tamanho.

Não tive prazer absolutamente nenhum ao ler este livro. Trata-se de um conjunto de centenas de mulheres que combateram na 2.ª Guerra Mundial, integradas no exército russo. E há testemunhos verdadeiramente horríveis.

Estas mulheres eram voluntárias e desempenhavam todo o tipo de papéis, alguns deles associados a homens. Elas foram enfermeiras, médicas, cozinheiras, lavadeiras, mas também franco-atiradoras batedoras, piloto, tratoristas, mecânicas...

Aqui fala-se de tudo: da receção que tiveram, de como eram tratadas, do que sentiam falta, de amor... e também de como foi regressar - algumas delas, não tinham ninguém as esperá-las. O voltar às rotinas depois da guerra, o lidar com os traumas, numa altura em que falar do assunto era tabu, lidar com ferimentos...

Este livro foi editado algures nos anos 80, quando tinha passado menos de 50 anos desde a guerra. Muitas destas mulheres eram adolescentes durante esses tempos; situar-se-iam na casa dos 60 quando foram feitas as entrevistas... e nota-se em cada reticência, em cada hesitação, em cada silêncio, o sofrimento de deixar para trás as mães, pais, e filhos (em alguns casos), sem ter a certeza de os voltar a encontrar.

Morrer ou matar. Era esse o espírito transmitido por Estaline. Aqueles que fossem feitos prisioneiros deviam suicidar-se; era a única alternativa. Voltar, vivo, para casa, era uma desonra e uma traição ao País... significava que se era colaboracionista.

É um livro muito cruel. Chorei em muitas páginas e, sinceramente, não sei se estou pronta para o Vozes de Chernobyl.

Esta foi uma leitura no âmbito do Book Bingo Leituras ao Sol, categoria "autor que gostavas de conhecer".


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Desabafo

Peço, antecipadamente, desculpas por este post em jeito de desabafo.

Que estranho fenómeno é este que faz com que nós, leitores, tenhamos sempre de ter mais um livro, apesar dos 300 que estão nas estantes? Pensava eu, que ficaria "de barriga cheia" por ter - literalmente, à distância de um braço - alguns dos meus "crushes" em formato de livro: Doutor Jivago, O Conde de Monte Cristo, Anna Karenina...

(a última vez que tive uma pancada destas, comprei Os Irmãos Karamazov, e o livro ainda ali está, intocado...)

Nada de mais errado. Mal tenho na minha mão, aquele livro que tanto queria, logo surge outro para ocupar a vaga.

Ultimamente, parece que tudo me leva ao O Deus das Moscas. Porquê, senhores, porquê??? Tenho sido constantemente bombardeada com referências a este livro...

Tenho - só assim de repente - uns 20 livros que quero ler "para ontem". E, no entanto, O Deus das Moscas não me sai da cabeça. Isto provoca-me dores físicas, juro! Este último fm-de-semana, passei na FNAC (não trouxe nada, milagre!), e, no entanto, dei por mim, a procurar uma edição deste livro. Muito próxima de mim, estava uma senhora a procurar exatamente o mesmo livro. Se acreditasse em coincidências, ia achar que isto é um sinal.

Para já, vou aguardar, serenamente, e se me continuar a atormentar... compro (mas só depois das férias que já tenho tudo agendadinho até setembro)




quarta-feira, 31 de julho de 2019

Lido: O Destino do Capitão Blanc, de Sérgio Luís de Carvalho

Raramente encontro livros portugueses, sobre a I Guerra Mundial. É problema meu? Ou não há assim tantos? Esclareçam-me, por favor.

Esta leitura foi realizada no âmbito do projeto da Patrícia Rodrigues, Lusiteratura, e uma das categorias de julho era "romance histórico". Já tinha ouvido várias vezes, o nome deste autor. Tenho inclusivamente um dos seus livros cá em casa, mas trata-se de um livro de perguntas e respostas sobre alguns momentos da História de Portugal.

Assim, temos o Capitão Blanc, que é destacado, pouco antes do Armistício de Novembro de 1918, para ir para França para elaborar um relatório político-militar sobre as suas observações em campo, tanto do Corpo Expedicionário Português, como dos Aliados.

Contudo, aquilo que vê, vai muito além do que esperava. Muitas mortes, muita incompetência, muito desleixo... há medida que o tempo passa, as impressões sobre aquela guerra não se alteram, e isso é bastante evidente nos textos que envia para Portugal, já que Blanc é, simultaneamente, correspondente de um jornal, ligado à ala sidonista.

Todas as experiências que Blanc passa em França alteram de uma maneira inexplicável toda a sua percepção. E, já em Portugal, tinha havido uma nova mudança no Governo, e o seu relatório não é acolhido da forma que ele julgava.

As descrições do autor são de arrepiar. São tão bem escritas, tão vívidas, que cheguei a sentir-me francamente mal-disposta. O final foi inesperado. Não era de todo o que eu esperava, e fiquei desiludida. Atenção: a culpa não é do autor, é minha! O senhor não estava ali para fazer "fan service", entenda-se!

Curiosidade: não conheço o autor, foi a 1.ª vez que li algo dele, mas dá-me a ideia que ele deve ser meu "vizinho". Um dos personagens, o ordenança do Capitão Blanc, é um soldado, o Teles. Um rapaz extremamente cansado da guerra, oriundo de Colares. E mesmo o nosso Capitão Blanc tem várias memórias de quando era mais novo e passava temporadas em casa de uma tia, em Sintra. Fiquei com o feeling que tanta referência a Sintra quererá dizer alguma coisa... quem souber, por favor, deixe aí nos comentários: Sérgio Luís de Carvalho reside em Sintra?

Para quem não conhece a intervenção portuguesa na I Guerra Mundial - aconselho a começar por aqui.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Lido: Chamava-se Sara, de Tatiana de Rosnay

Terminei este livro quase há 10 dias... e ainda não publiquei nada sobre ele... vergonha!!

(terminei outro, já depois deste, e a publicação do post sai amanhã... juro!!)

Gostei imenso deste "Chamava-se Sara". Situa-se em dois tempos: os tempos modernos, onde conhecemos Julia Jarmont, uma jornalista norte-americana, casada com um arquitecto francês, e a viver em França há cerca de 25 anos. É-lhe entregue a investigação do que se passou em julho de 1942, durante a rusga da polícia francesa, aos judeus daquele país. O episódio ficou conhecido como Vel d'Hiver: centenas de judeus franceses foram transportados para o Vélodrome d' Hiver, um recinto desportivo, para daí serem deportados para os campos de concentração nazis.

No decurso da sua investigação, Julia descobre que uma família judia viveu na casa da avó do marido... aquela que iria ser a sua futura casa. Daí, o seu interesse pelo tema cresceu ainda mais e fez de tudo para conseguir descobrir mais sobre esse assunto, para, de alguma forma, conseguir alcançar uma certa paz de espírito.

O 2.º momento passa-se exatamente durante essa rusga. Uma criança, que viremos a saber que se trata de Sara, é levada com os pais para o Vélodrome e depois levada para um campo de concentração. Porém, antes de sair de casa consegue esconder o seu irmãozinho, Michael. De alguma forma, consegue fugir e é acolhida por uma família francesa que, praticamente a adopta.

Este livro é o cruzamento íntimo destas duas narrativas. Gostei muito da escrita da autora, que ainda não conhecia. E, mais uma vez, a realidade consegue dar um pontapé "nos tintins" da ficção. A maldade durante este período horrível da História da Humanidade devia ser um "abre-olhos" para tudo aquilo que, hoje, se passa no quintal ao lado do nosso.

O sofrimento, a dor, a separação, a tortura, a miséria, a fome... ninguém devia passar por uma coisa destas. Fosse nos anos 40 do século passado, ou à beira dos anos 20 do nosso século XXI.

Houve alguns pormenores que não gostei tanto, mas que não comprometem minimamente a experiência de leitura nem a narrativa - é apenas uma questão pessoal; razão pela qual dei 4 estrelas ao livros em vez de 5.

domingo, 21 de julho de 2019

Lido: Deuses Americanos, de Neil Gaiman

Atrasei a publicação do livro Cisnes Selvagens, e este foi por arrasto... entretanto, o Henrique e eu estivemos meio em baixo, e acabei por me deixar ficar. No Instagram, as leituras têm vindo a estar minimamente atuais - que é como quem diz: tenho lá botado umas figurinhas e rascunhado umas palavras só para saberem que estou viva.

Para o Book Bingo, uma das 16 categorias é "ler um livro aconselhado pela pessoa que vive contigo". Pois que, o meu excelso companheiro é fã de Neil Gaiman. E, há pouco tempo, comprou o 1.º volume da graphic novel dos "Deuses Americanos", da Saída de Emergência que, mais uma vez, prima pela escolha fabulosa do seu catálogo.

Segundo li... algures - e a minha memória continua impecável, como vêem -  a graphic novel é, palavra-por-palavra, igual ao livro, portanto, não estou a perder nada e adorar o traçado dos artistas. Neil Gaiman trabalhou com vários desenhadores que deram vida às suas personagens.

Sinceramente, não sei onde é que o homem vai buscar as ideias para aquilo que escreve, mas quero uma dose diária do que ele toma ao pequeno-almoço. Pôr os Deuses antigos a confrontar os novos... é simplesmente lindo.

Shadow Moon sai da prisão dois dias mais cedo, porque recebe a notícia que a mulher morreu num acidente. Para juntar à dose de desgraça, o amigo que supostamente o iria empregar morreu no mesmo acidente. Sem saber para onde ir, desempregado... Moon é empregado por uma estranha figura, Mr. Wednesday, como guarda-costas. Uma posição lucrativa, e com a política de "não fazer perguntas". E é assim que entra num mundo que nunca imaginou, e onde uma guerra está iminente.

O segundo volume, de acordo com o Facebook da Saída de Emergência, está prestes a sair, e eu estou ansiosaaaaa

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Lido: Cisnes Selvagens, de Jung Chang

Mais uma vez, atrasei-me na atualização das leituras realizadas. Desde a última postagem, a 5 de julho, já terminei dois livros, entre os quais este maravilhoso Cisnes Selvagens.


"Precisava" de um livro para a categoria "China" da maratona Volta ao Mundo em 15 Citações. Comecei a ler um de ficção científica - Three Body Problem, de Liu Cixin (e descobri, agora mesmo, que há um filme chinês de 2016, baseado neste livro) - mas não estava a conseguir entrar na história e acabei por o colocar de lado. 

Ouvi algures, em alguma altura da minha vida, alguém a falar dos Cisnes Selvagens (a minha memória funciona assim, ultimamente!). Procurei no catálogo da biblioteca e tinham-no. Trouxe-o na visita seguinte e não me arrependi minimamente. 

Que livro maravilhoso. Foram 5 estrelas, de caras... seriam mais, se o Goodreads assim o permitisse. Acompanhamos a História da evolução da China dos imperadores até à China de Mao Zedong (estou a usar a forma escrita no livro). A autora conta-nos a história da avó materna, da mãe e a sua própria num tempo que vai desde 1924, quando a avó se torna concubina de um poderoso general, até meados dos anos 70, quando a própria autora ganha uma bolsa de estudos, e sai da China, após a morte de Mao. 

É um brutal murro no estômago. Se os livros sobre o Holocausto são de uma brutalidade e deixa-me fisicamente doente ler algumas descrições de como os presos eram tratados e torturados, a arbitrariedade da morte... este, não é menos mau. A forma como certos "opositores" ao regime comunista de Mao eram mortos era completamente louca. Bastava uma denúncia vaga, uma vingança pessoal entre vizinhos que não se davam particularmente bem, ou por ciúmes, por exemplo... era o suficiente para toda uma família ser brutalmente castigada!

As crianças eram, desde o berço, doutrinadas a crer que o presidente Mao era o grande e poderoso de todo o Mundo. E que o Ocidente era um terrível buraco negro de miséria, depravação, fome e pobreza. 

Os próprios pais da autora foram torturados, exilados... e mesmo assim, o nome do pai só ficou totalmente limpo de acusações, alguns anos após a sua morte. Só desta forma é que Jung Chang se pode candidatar a uma bolsa em Inglaterra. 

Aconselho vivamente esta leitura. É um retrato poderosíssimo de um regime que conhecemos tão, mas tão mal... é uma obra magistral. Lindamente escrita. Sem paninhos quentes. A autora reconhece, várias vezes, a sua ingenuidade e acompanhamos o seu crescimento e o seu "abrir" de olhos à medida que os anos iam passando. O livro, publicado no início dos anos 90, é um documento-testemunho de uma China onde ninguém gostaria de regressar. 

Cisnes Selvagenes foi uma leitura a contar para a maratona, como já havia dito, e também para a categoria "Autor que nunca leste" do Book Bingo. 

Citação escolhida: 
"Ele não precisava de ter morrido. E, no entanto, a sua morte parecera tão inevitável. Não havia lugar para ele na China de Mao, porque tentara ser um homem honesto. Fora traído por algo a que dedicara toda a sua vida, e a traição destruíra-o"

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Lido: O Homem da Areia, de Lars Kepler

Que livraço! Ainda tenho os pelinhos dos braços arrepiados. Remonta a dezembro/janeiro, a última vez que li algo que sequer se assemelhasse a um thriller. E já não me lembro da última vez que li um nórdico.

Comprei, há algumas semanas, este "O Homem da Areia" de Lars Kepler, e se, inicialmente, fiquei "lixada" por me aperceber que faz parte de uma saga, também rapidamente isso se dissipou quando li, algures, que podia ser lido como um "stand-alone", ou seja, faz parte de uma série, mas, se lido individualmente, não faz mossa. E assim foi.

Já estava desacostumada de thrillers nórdicos: aquela crueza nas descrições, aqueles banhos de sangue, aquela "miaúfa" psicológica provocada no leitor, aquela sensação estranha de que podemos ser esventrados a qualquer instante... ahhhh, saudades.

O livro começa a descrever uma cena em que vemos um jovem a caminhar, durante a noite, junto a uma linha de comboio. O sangue congelou nas suas roupas - só Deus sabe como a Suécia pode ser fresquinha à noite! Adiante... logo de seguida somos apresentados a um médico que inicia o seu 1.º dia numa unidade de alta segurança de psiquiatria de um hospital. Todos os olhos dos médicos, assistentes e técnicos estão em Jurek Walter, um assassino impiedoso, apanhado e encarcerado há 13 anos.

Mais tarde viremos a saber que o jovem que vimos na introdução é Mikael, um rapaz que foi raptado, com a irmã, há 13 anos, e que nunca havia sido encontrado. Automaticamente, um dos responsáveis pelo caso do duplo rapto, é alertado: Joona Linna.

Também o comissário teve um passado com este serial killer, e é necessário - urgentemente - encontrar a irmã de Mikael que ainda poderá estar viva, mas gravemente doente.

De arrepiar. O livro tem 500 páginas, mas apenas no 1.º dia, li quase 200; ontem à noite, cheguei às 400 e tal. Os capítulos são extremamente curtos 2/3 páginas (às vezes, uma página e meia), e só queremos saber o que vai acontecer a seguir. Ficamos numa ânsia perfeitamente descontrolada e só queremos ler e ler e ler... muito bom. Estou mesmo muito satisfeita e recomendo a quem gosta de thrillers de cortar a respiração.

Esta leitura conta para a maratona "Volta ao Mundo em 15 Citações" (categoria: países nórdicos) e no Book Bingo (categoria "livro que se passe num lugar onde gostasses de passar férias").

Citação escolhida:
"Passados cinco dias, a Polícia emitiu um alerta. Mas Joona Linna não apareceu e, seis meses depois, as buscas foram suspensas. Apenas Saga Bauer continuou a procurá-lo, porque sabia que ele não estava morto". 

domingo, 30 de junho de 2019

Lido: As Noites das Mil e Uma Noites, de Naguib Mahfouz

Este livro conta para dois desafios: a maratona Volta ao Mundo em 15 Citações, na categoria "Países Árabes" e para o BookBingo, na categoria "livro esquecido na estante há mais de 3 anos". Cabe também no meu desafio pessoal de ler mais Prémios Nobel da Literatura.

1.º pensava que tinha o desafio da Volta ao Mundo completo, até um participante ter alertado os gentios que Khaled Hosseini, do Afeganistão, não podia ser, porque este país, se situa... imagine-se no meio da Ásia.
Todo um balde de água fria graças aos senhores americanos para quem, tudo o que não é americano, é árabe. A todo o povo afegão, as minhas desculpas, e confesso publicamente o meu total desconhecimento onde se situa o vosso país. 

Até que depois encontrei este meu exemplar de As Noites das Mil e Uma Noites, de um laureado com o Nobel, oriundo do Cairo: Naguib Mahfouz.

O básico dos Contos das Mil e Uma Noites: um sultão, desvairado ao saber da traição da mulher, decide, após matá-la, dormir todas as noites com uma rapariga diferente, matando-a de manhã. E nisto, passam-se alguns anos. Xerazade, filha do vizir, acaba por ser levada ao sultão.
Mas, nisto, sabendo o que a esperava de manhã, começa a contar uma história. De manhã, a história ainda não conheceu o seu fim, e o sultão, curioso, continua a chamá-la, para saber como acaba. Ao fim de alguns anos, Xerazade é tomada como esposa do sultão, que se encontra arrependido dos seus atos no passado.

Este livro pega no momento em que o sultão chama, ao palácio, o pai de Xerazade e lhe comunica que decidiu tomá-la como esposa. Logo, nas primeiras páginas, vemos uma Xerazade não muito convencida que o sultão modificou o seu comportamento, e com receio que o seu ímpeto sanguinário regresse.

Ao mesmo tempo, a cidade vive tempos conturbados, provocados por alguns génios. Muitas mortes acontecem, muitas aventuras e muitas intrigas palacianas se desenrolam em pouco mais de 200 páginas.

Tive um arranque lento. Estava ali qualquer coisa que me impedia de avançar, mas entretanto, deu-se um "clique" qualquer e, indo na página 64, termi
nei num piscar de olhos.

No GoodReads, atribuí 5 estrelas - mas, no meu coração é um 4,5. Muitos nomes, muitas personagens, génios com a mania das grandezas... enfim, complicou um bocado, no início, até ter decidido ignorar os nomes daquela santa gentinha toda, e concentrar-me no resto.

Citação escolhida:
Se salvares a tua alma de ti mesmo, terás pago o seu direito, e se as pessoas se salvarem de ti, então terás pago os seus direitos.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Lido: O Cônsul Desobediente, de Sónia Louro

Já tinha este livro na mira há imenso tempo. Desde o 1.º dia em que me tornei leitora na biblioteca municipal, reparei que estava nas estantes e já o tive na mão, um par de vezes, para o trazer.

Até que chegou o dia.

O que eu sabia de Sousa Mendes era o básico: cônsul algures em França que, desobedecendo, a ordens de Portugal, passou vistos indiscriminadamente, salvando, assim, uma "catrefada" de judeus dos nazis. E era isto. Um apontamentozinho de nada era tudo o que eu sabia. Uma nota de rodapé, no fundo. A nossa disciplina de História é, realmente, muito básicazinha, benz'a Deus...!

Falando do livro. Adorei a escrita da Sónia Louro, e a quantidade de fontes que ela foi "beber" para ser o mais fiel possível aos factos. O livro tinha imensas notas de rodapé que, quando as comecei a ver, ia-me dando um achaque, mas depois percebi que, muitas delas, eram essenciais à boa compreensão do que lia.

Este livro é quase uma biografia, não fora estar romantizada, e dependente de testemunhos de terceiros, já que nenhum dos envolvidos está vivo para contar os factos tal como aconteceram.

Aristides de Sousa Mendes licenciou-se em Direito, com o seu irmão gémeo, César que - fiquei a saber - também fez carreira diplomática... aliás, tanto Aristides, como César apresentaram-se juntos, em Lisboa, no Ministérios dos Negócios Estrangeiros.

A carreira de Aristides foi evoluindo até que chegou a Cônsul de 1.ª Categoria (com "n" repreensões pelo caminho, das mais diversas naturezas), e foi colocado, em 1938, em Bordéus. Até que a invasão nazi acontece em França.

Sentindo-se assoberbado com o número de pedidos de vistos, a ver as tropas alemãs a aproximarem-se, e conhecendo a realidade, Sousa Mendes, durante vários dias, carimba passaportes e permite passagem à revelia daquela que era conhecida como a "Circular 14" que proibia os consulados de passarem vistos, a não ser que o requerente tivesse bilhete de saída de Portugal e autorização de entrada noutro país. O que claramente não acontecia, como é óbvio.

Em 1940, começa o calvário. Sousa Mendes é castigado: um ano com metade do salário e, posteriormente, aposentação. Mas, Aristides tinha 14 filhos (mais uma bastarda que só foi perfilhada depois de Sousa Mendes ter enviuvado de Angelina, e casado com a mãe da menina), e as dificuldades económicas eram mais que muitas.

Ao longos dos anos, lemos as mais variadas tentativas de Sousa Mendes e da família de tentarem reverter o castigo que acabou, indiretamente, por afetar toda a gente: os filhos não encontravam colocação para trabalhar e foram forçados a emigrar, o irmão também teve dificuldades...

E é tudo isto, e muito mais que Sónia Louro nos apresenta. Sou sincera: várias vezes, me senti de peito apertado ao ler tudo o que se passava com esta família. Só nos anos 80, com Mário Soares é que começou a ser feita justiça a este homem. O último reconhecimento, em 2016, foi a elevação, a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade por Marcelo Rebelo de Sousa, 

Sousa Mendes morreu, na mais completa miséria, em 1954... 

(leitura a contar para o Book Bingo Leituras ao Sol - livro, cujo título, tenha as letras S-O-L)