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quarta-feira, 27 de julho de 2022

Os calhamaços desta vida: Se isto é uma mulher, de Sarah Helm

Aviso à navegação: não estou a publicar por ordem de leituras terminadas os livros que li nos últimos meses. Como ontem falei de um calhamaço, hoje falo do outro que me prendeu por quase quatro meses. 

"Se isto é uma mulher" remete-nos para a obra de Primo Levi "Se isto é um homem" (link aqui). Na obra do químico italiano, é abordada a sua passagem pelo campo de concentração Auschwitz-Birkenau. Sem floreios, sem romancear, Levi fala - de forma muito crua - sobre o terrível tratamento sofrido naquele campo de concentração. 

E talvez, por Auschwitz ser o mais famoso campo de concentração daquele período, tendemos a secundar outros. O número de campos de trabalho, de concentração, de encarceramento, de extermínio (e respetivos subcampos) não é exato, mas em todas as fontes que consultei, o valor ascende sempre aos milhares. 

Sarah Helm concentrou-se em Ravensbrück. Este campo, exclusivamente feminino, situava-se a menos de uma centena de quilómetros de Berlim, e por ali terão passado mais de 132 mil mulheres e crianças. Estima-se que cerca de 90 mil pessoas terão sido mortas neste campo. E quando digo "terão sido mortas", falo em todos os aspetos da morte: assassinadas a tiro ou em câmaras de gás, à fome, à sede e ao frio, de loucura, de doenças naturais ou provocadas por experiências médicas... 

Se, nos primeiros meses, as condições não eram as piores (havia comida, roupas, lençóis e colchões, por exemplo), há medida que o tempo foi passando, tudo se degradou. Oito meses depois do início da guerra, a população aprisionada já excedia a capacidade do campo. 

E a autora explora exatamente essas vivência. Depois de falar com várias sobreviventes e filhos de sobreviventes, Sarah Helm conseguiu construir um livro que nos deixa nauseados, para ser simpática. Várias vezes, chorei. Os relatos são impressionantes, para dizer o mínimo. 

Não só devido à sua natureza, não é um livro fácil de ler. Sarah Helm vai atrás de pessoas e das suas histórias, e nem sempre por ordem cronológica. Andamos para trás e para a frente no tempo, fala-se de várias mulheres, mistura-se o relato em discurso direto, com memórias em 2.ª mão... acho que foi por estas razões que demorei tanto neste livro. 

Não é um passeio no parque. Não é um livro para ler num bonito dia de sol. É um livro que nos vai magoar profundamente e fazer-nos equacionar sobre os conceitos de "humanidade", de "decência" e "dignidade". Talvez também em "esperança". Houve aquela prisioneira que disse que se recusava a morrer nessa condição. Morreu poucos dias depois da libertação, como uma mulher livre, tal como desejava... 

terça-feira, 26 de julho de 2022

Os calhamaços desta vida: Os Luminares, de Eleanor Catton

Quase quatro meses sem vir aqui publicar. Acho que bati, oficialmente, o meu recorde. Ontem, publiquei a post que tinha pendurado desde abril, e que fui empurrando com a barriga. Calhou ter lido a sequência nestes meses, e fiz um "2 em 1". 

Ali, na viragem do 2.º trimestre do ano, andei meio parada nas leituras. Minto, peguei, praticamente, ao mesmo tempo, em dois livros de quase 900 páginas, ambos. Era muita página, eu sei, eu sei... e só lia aquilo. Um romance histórico e um não ficção. Loucura, só pode! Um deles, terminei literalmente na semana passada. 

O primeiro foi Os Luminares, de Eleanor Catton. Este é um livro que, em 2013, venceu o Man Booker Prize. Já aí, as expectativas estavam altas. São 888 páginas de uma obra, no mínimo, surpreendente. Custou-me horrores a entrar no ritmo da história, às vezes, lia várias vezes a mesma página para compreender o que lá estava, antes das 100 páginas, elaborei, mentalmente, uma dúzia de razões para fechar o livro, a história tinha umas 20 personagens diferentes e acabava por as confundir a todas... mas, a verdade, é que não conseguia, realmente, fechar o livro e colocá-lo, definitivamente, de lado. Por alguma razão, continuava a ler, até que acabei por me sentir entusiasmada. Foi uma das leituras mais complicadas que fiz nos últimos anos, mas... adorei. Mesmo. 

A história tem lugar na Nova Zelândia. Há um "boom" na corrida ao ouro e a cidade de Hokitika está a prosperar. Mas, no século XIX, a prosperidade de uma cidade também significa a existência de várias personagens um tanto ou quanto duvidosas. 

Comecemos: no dia 27 de janeiro de 1866, Walter Moody chega a Hokitika e decide hospedar-se no primeiro hotel que encontra. Depois de dar entrada, vai para uma das salas do hotel, onde se encontram outras 12 pessoas, com um comportamento algo estranho. Depois do gelo quebrado, aquelas 12 pessoas, finalmente, decidem contar, à vez, o que as fez reunir-se ali.

Pouco tempo antes, no dia 14 de janeiro, um eremita, Crosbie Wells, é encontrado morto na sua cabana, onde está uma considerável. Quem o encontra é um político local, Alistair Lauderback, que andava em campanha. No mesmo dia, uma prostituta, Anna Wetherell, é encontrada meio morta num vale a caminho da cidade, e um dos homens mais ricos da cidade que a havia contratado, Emery Staines, está misteriosamente desaparecido. Dias depois de todos estes acontecimentos, Lydia Wells aparece na cidade e anuncia ser viúva de Crosbie. Curiosamente, todos estes eventos estão relacionados uns com os outros, e também com Francis Carver, o malicioso capitão do Godspeed, navio onde viajou Walter Moody, com um nome falso. 

Pela voz - e ponto de vista - de cada uma daquelas 12 pessoas, vamos caminhando e construindo uma história que envolve prostituição, consumo e tráfico de ópio, pedras preciosas desaparecidas, tráfico de influências, corrupção e também um pouco de misticismo... e são todos estes ingredientes que fazem deste Os Luminares um dos melhores livros que li nos últimos meses. 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Lido: Imaculada e Tundavala, de Paula Lobato de Faria

Este post é um dois em um. Comecei a escrevê-lo em abril (uuupppsss!!!!) e terminei agora de o editar, depois de ter lido a sequência. 

Imaculada é o romance de estreia de Paula Lobato de Faria (sim, é da família da apaixonante Rosa Lobato de Faria), e, uma excelente estreia, acrescento eu.

Estamos em 1956. Portugal está há 23 anos sob a batuta de António de Oliveira Salazar. Somos apresentados aos Correia, uma família da alta burguesia, que vive numa casa sumptosa e, ela própria, uma personagem do livro, Imaculada. 

Alexandrina, a mãe de família, é cristã e tem a filha, Cristiana, sob grande controlo. As aparências são tudo e nada mais importa. Cristiana tem de ser uma boa cristã, uma filha obediente, virgem até ao casamento, porque só nessas circunstâncias, será uma boa e obediente esposa, tal como as regras o exigem. João é o filho mais velho. Um homem muito bonito, mas algo... "arisco", para ser simpática. A personagem do pai, João Manuel, não é tão presente quanto as anteriores, mas terá um papel relevante nesta narrativa.

Cristiana está noiva de Miguel, um jovem militar, advogado de formação, e melhor amigo do irmão. O casamento está agendado para maio do ano seguinte, e Cristiana está resignada: aquele enlace é o que esperam dela, e não ousa desobedecer a Alexandrina. Aliás, este casamento significará a tão ansiada liberdade de Cristiana, que deixará de estar sujeita à educação ultra-conservadora da mãe. 

Estamos no Verão, e Cristiana vai, como habitualmente, passar férias com a melhor amiga, Ana Maria (namorada do irmão João). A família de Ana Maria é uma cópia dos Correia, ficando Alexandrina "descansada" quanto à virginal Cristiana. 

Porém, num casamento a que assiste, Cristiana conhece Nils, um jovem luso-norueguês, por quem cai de amores. Tudo fica em dúvida: a obediência à família, o casamento com Miguel... Cristiana fica de rastos com o peso na sua consciência, mas não consegue deixar de ansiar pelo misterioso Nils. Misterioso, Cristina Maria? Sim. Misterioso. Nils pertence a um grupo que se opõe à ordem estabelecida pelo regime e que apoia Humberto Delgado nas suas pretensões à Presidência, daí a dois anos. 

Por outro lado, temos Lourença. Uma personagem com quem simpatizei mais do que propriamente com a protagonista. Lourença é prima de Cristiana, e é o seu oposto. Alegre, livre, descomplexada e impulsiva, Lourença é orfã. Os pais morreram em África e só ficou ela e a irmã Isabel, aos cuidados de Lucrécia, a tia solteira, e da menina Rita, a governanta. 

O leitor é informado que a história é baseada em factos reais, o que nos deixa com "a pulga atrás da orelha" e é mais fácil ainda sermos atraídos para a saga de Cristiana... e todas as outras mulheres. 

Após a leitura de Imaculada, facilmente se segue para a sua continuação, Tundavala. 

Neste livro, temos uma Cristiana já casada com Miguel, e com filhos, e Lourença "desapareceu" em África. Não está propriamente desaparecida, mas voluntariou-se como enfermeira para Angola, para perto do local onde os pais terão morrido, e tem pouquíssimo contacto com a família na metrópole. 

Cristiana descobre vários podres de Miguel, e, na ânsia de tentar desvendar todos os segredos que envolvem o casamento, acaba por reencontrar Nils, que está exilado. A chama da paixão juvenil renascerá? 

O livro termina após a Revolução de Abril de 1975, mas ainda temos "tempo" para o cheirinho de um dos maiores escândalos em Portugal - Ballet Rose, um caso de prostituição e de abuso de menores por altas figuras do Estado, que António de Oliveira Salazar tentou abafar a todo o custo. 

pessoalmente, achei esta sequência uns pontos abaixo do 1.º livro. Apesar de continuar muito bem escrito, achei algumas passagens demasiado chatas e os diálogos forçados... pareceu-me, muito sinceramente, que a autora se deixou levar mais pela rigidez formal do trato dos anos 60/70 e não pela fluidez da história que pretendia contar. 




domingo, 3 de abril de 2022

Lido: Até os comboios andam aos saltos, de Célia Correia Loureiro

Além do livro de Paulina Chiziane, li também em março o 8.º volume da Saga das Pedras Mágicas de que já falei neste blogue, há um par de dias. O meu objetivo de só ler mulheres estava no caminho certo. 

Entretanto, comecei a ler Até os comboios andam aos saltos, a última obra da almadense Célia Correia Loureiro. Conheci a escrita da Célia através do livro Demência, que li em fevereiro de 2020, e, na altura tinha adorado o livro, e elogiado bastante a autora, visto que o livro tem uma carga pesadíssima e havia sido escrito quando ela tinha uns meros 20 anos. 

Entretanto, além do relançamento de "O funeral da nossa mãe", a Célia apresentou, numa edição de autor, este livro que terminei em pouco menos de 48 horas. 

A nossa protagonista - prestes a completar 30 anos - está num aeroporto, e vai metendo no papel, as suas impressões daquilo e daqueles que a rodeiam, ao mesmo tempo que vai contando a história da sua própria vida. 

Filha de um toxicodependente e de uma alcoólica, a nossa protagonista tinha tudo para se deixar embrenhar numa vida "poucochinha", mas amparada e educada pelos avós, conseguiu dar a volta à vida e tornar-se independente. 

Nas suas palavras, via, apesar de tudo, o pai como um herói. Até ao dia em que vende alguns dos seus pertences, para sustentar o vício. Com a mãe, a relação sempre foi fria e distante. Conta também com um irmão, a braços com os seus próprios demónios. 

É mais um livro admirável. Comparando com o "Demência", a diferença do estilo de escrita é radical. Enquanto que no primeiro temos um romance estruturado, este livro é uma espécie de diário caótico, escrito enquanto espera pelo avião, onde faz um balanço de tudo: desde as relações familiares, à oferta de um novo emprego, passando pelo Luís, aquele homem que a espera em Lisboa, e com quem irá terminar a relação... 

Neste livro, a Célia é quase bruta a escrever - tão tão diferente daquela menina de rosto sorridente que se vê no Instagram. A vida da nossa protagonista não foi fácil, mas a fibra que emana, é suficiente para uma cidade inteira. 

É um livro corajoso. Cheguem ao fim e leiam a última página. Saberão do que estou a falar!! 

sábado, 2 de abril de 2022

Lido: Niketche: Uma História de Poligamia, de Paulina Chiziane

A feminista dentro de mim decidiu que, no mês de março, só leria livros escritos por mulheres. Terminado O Regresso do Rei no dia 3, peguei num livro que a minha sogra me tinha dado no Natal. Aproveitei também o facto do tema do mês do clube de leitura a que pertenço ser "um livro de uma cultura diferente da tua" e enveredei na leitura de Niketche: Uma História de Poligamia. A autora é a moçambicana Paulina Chiziane, que recebeu o Prémio Camões, no passado mês de outubro. 

O que eu sabia do livro ou da autora? Zero absoluto. Mas o título era apelativo...

Rami é casada com Tony há mais de 20 anos. Mas, as sucessivas ausências prolongadas de Rami fazem-na desconfiar. É quando descobre que Tony mantém mais 4 famílias: mulheres e filhos. A sensação de traição com a descoberta da poligamia de Tony leva-a a criar uma espécie de "irmandade" com as outras mulheres, obrigando o homem a reconhê-las a todas, bem como aos filhos, e a manter abertamente a relação poligâmica, perfeitamente aceite perante a sociedade. 

Mas os revezes não tardam em aparecer e aquilo que parecia uma solução simples vira-se contra ela, por conta do papel submisso que a mulher deveria ter perante o marido, por conta do seu casamento "de papel passado" com Tony que fazia dela "a 1.ª mulher", por conta das próprias diferenças culturais entre as mulheres do Norte e as do Sul... 

Um dia, Tony é dado como morto. A viúva "oficial" é despojada de todos os seus bens, é obrigada a rapar o cabelo e é oferecida ao irmão do falecido... tudo em nome de uma tradição secular e ultrapassada. 

Poderá o amor de Rami por Tony sobreviver à traição, à submissão, às dúvidas, à crueldade...?

Mais uma história muito forte, escrita por uma mulher, para as mulheres sobre as mulheres. Honestamente, gostava muito que este livro fosse mais conhecido. Desafio-vos a isso: conheçam um livro fora da vossa esfera confortável, e procurem algo na vossa linha de desconforto, apostem em Paulina Chiziane...

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Lido: O Regresso do Rei - O Senhor dos Anéis, de JRR Tolkien

 Li o segundo volume precisamente em abril de 2021, e este terceiro volume demorou quase um ano a sair da estante: comecei a lê-lo a meio de fevereiro e terminei mesmo no início de março. Não sei se vale muito a pena estar a falar de um livro que foi publicado, literalmente, noutro século e que já foi "transformado" em filme pelo menos há quase 20 anos (fui confirmar, foi lançado em 2003)...

A derradeira batalha entre o Bem e o Mal está prestes a eclodir. As forças de Sauron ameaçam Gondor, e Minas Tirith estão prestes a cair, até que os homens de Rohan chegam. 

Enquanto isso, Aragorn pede ajuda a seres que já foram homens, cobrando-lhes uma promessa feita em outro tempo, garantindo-lhes que após esta última batalha, poderão descansar em paz. 

Mas e o Anel Um? Será que Frodo e Sam ainda estão vivos? Os restantes elementos da Irmandade não fazem ideia, mas confiam e têm fé nos pequenos hobbits. O leitor, no entanto, tem outras informações: Sam é, agora, o Portador do Anel e tudo faz para salvar Frodo - da negritude, de Gollum e de si mesmo... 

Entretanto, o exército do Bem reúne-se de forma a criar uma distração, para que Frodo e Sam consigam destruir o Anel e terminar de uma vez por todas com a ameaça de Sauron...

Posso dizer que o filme foi muito bem adaptado; não me lembro de nenhuma grande diferença escandalosa. Houve personagens que não chegaram ao filme, houve alguns atalhos que foram tomados, mas, no fim, feitas as contas, está lá o essencial. 

Já referi antes que li o 1.º volume na altura em que o filme saiu e não tinha gostado. Voltei a pegar nele anos depois, e foi toda uma nova experiência. 

E o que nos fica de O Senhor dos Anéis? Quais são as grandes questões por trás de toda esta saga épica? O poder, a vida e a morte, a imortalidade, o livre arbítrio... 

Estes livros foram publicados nos anos 50, do século passado. Escritos, muito provavelmente, durante tempos negros da Humanidade, e focam nas problemáticas daqueles tempos: um senhor impiedoso que quer dominar tudo em seu redor? Os opositores que eram eliminados? As batalhas pela liberdade? Reconhecem algo? Não me parece que seja pura coincidência. 

Sinto que li estes livros naquela que era a altura certa para mim. Gostei tremendamente e fico contente por ter encerrado o meu ciclo "Senhor dos Anéis". 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Lidos: a saga das Pedras Mágicas, de Sandra Carvalho

Tenho andado lentinha-lentinha a ler. Quase a conta-gotas, para ser sincera. Estava "à espera" de terminar a saga das Pedras Mágicas da Sandra Carvalho para fazer um apanhado geral, e pelo meio, terminei a trilogia do Senhor dos Anéis, com o livro O Regresso do Rei, e esta semana (literalmente), terminei dois livros. Portanto, nem sequer estou atrasada, por aí além nas minhas escritas. 

***

Mas o que me trouxe aqui, foi precisamente a autora Sandra Carvalho. Há anos que oiço falar nela, mas a minha atenção andava virada para outras leituras. Mas, em setembro/outubro de 2021, essa situação inverteu-se quando trouxe da Biblioteca de Sintra, "A Última Feiticeira", o primeiro volume (de oito) da Saga das Pedras Mágicas. 

Imagem retirada do blogue da autora: http://sandracarvalho-autora.blogspot.com/

Na altura, fiz um post que "apanhava" os dois primeiros volumes, mas quando percebi que era impossível falar de cada um individualmente, decidi que, no fim, falava de todos. 

Esta saga segue três gerações de mulheres de uma família - Catelyn, Edwina e Kelda. Catelyn é mãe de Edwina e avó de Kelda. Três mulheres descendentes de uma feiticeira - Arawen - e todas possuidoras de poderes místicos, e cada uma responsável, à sua maneira, por quebrar uma maldição terrível que se abateu sobre a família, muitos anos antes: a ascensão do Filho do Dragão que trará a destruição à Terra. 

Os Seres Superiores, ou alguns deles, queriam que o seu Tempo não tivesse terminado e viam os humanos quase como vermes e lançaram a maldição. Arawen era uma Feiticeira que se havia apaixonado por um humano, e deixou a sua ilha para conseguir viver o seu amor. Dois factos que, anos e anos depois, trouxeram muitas lágrimas e muito sangue derramado. 

Numa altura em que tanto se fala do empoderamento feminino e das formas de elevar a figura da Mulher a outros papéis, e não apenas ao de "mãe" e "cuidadora", Sandra Carvalho construiu uma narrativa que dá às mulheres esse destaque, desde 2005, data da publicação do primeiro livro. E não falo apenas das protagonistas. Temos vilãs muito fortes e credíveis, temos personagens secundárias com poder (não só místico, mas também de decisão, por exemplo, Thora ou a Rainha Lyria), temos mulheres facilitadoras do progresso das nossas personagens principais... enfim, mulheres para todos os gostos!

É uma saga muito interessante, com personagens muito carismáticas. Sinto apenas que faltou um ligeiro "comic relief" de quando em quando, só para termos uns segundinhos de intervalo, antes de prosseguirmos com a demanda. Mas, no geral, é uma trama muito bem conseguida. 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Lido: O Triunfo dos Porcos, de George Orwell

(não se vão habituando a isto de ter o blogue sempre atualizado que, se bem me conheço, mais umas
semanas e começa, de novo, a descambar)

O Triunfo dos Porcos é um daqueles livros que tem estado na lista de leituras a fazer "ad aeternum", mas como os livros, que se saiba, não têm perninhas, ali tem ficado até chegar o dia. Há meses, comprei uma edição da D. Quixote e enfiei-a numa gaveta e... esqueci-me dela. Até que, num dia de arrumações, voltei a dar com ele e coloquei-o bem à vista para não voltar a "fugir". Até que chegou aquele momento tão ansiado por todos os livros: ser, efetivamente, lido.

Os animais da Quinta Manor revoltam-se e conseguem expulsar os humanos que os escravizam há tantos anos. Aos porcos, que aprendem a ler e escrever, cabe-lhes a organização da Quinta dos Animais, mediante sete mandamentos:

1.º - Tudo quanto andar em duas pernas é um inimigo;
2.º - Tudo quanto andar em quatro patas, ou tiver asas, é amigo;
3.º - Nenhum animal usará roupas;
4.º - Nenhum animal dormirá numa cama;
5.º - Nenhum animal beberá álcool;
6.º - Nenhum animal matará qualquer outro animal e 
7.º - Todos os animais são iguais.

Simples, não? A resposta é não. Inicialmente, a vivência é tranquila e, realmente, existe um período de efetiva igualdade, mas o tempo passa, as diferenças entre os animais acentuam-se e aquela idílica comunidade acaba por, aos poucos, se ir fragmentando. Nasce uma nova hierarquia e ... "todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros". 

De certa forma, em alguns momentos, enquando lia este livro, vi passagens do "1984" na minha cabeça. Por exemplo, quando os porcos começam a "editar" os sete mandamentos, consoante lhes é mais favorável, sem qualquer oposição dos outros animais que, entretanto, se iam esquecendo da "semente" da revolução levada a cabo. E mesmo a forma como os porcos conseguem manter o controlo da população, com recurso à violência. 

Publicado durante a 2.ª Guerra Mundial, este livro chegou a ser recusado por vário editores. Nesta edição, num prefácio escrito pelo autor, este faz referência a uma carta que recebeu e que diria: "Se a fábula fosse dirigida aos ditadores de uma forma geral e às ditaduras no seu todo, nesse caso a publicação seria adequad, mas a fábula segue de tal maneira e de forma tão completa, como agora me afigura claro, o progresso dos Sovietes Russos e dos seus dois ditadores, que só pode aplicar-se à Rússia (...) Penso que a escolha dos porcos como casta dirigente ofenderá, por certo, muitas pessoas, particularmente as mais suscetíveis, caso em que indubitavelmente se incluem os russos". 

E Orwell não nega que a inspiração para esta fábula fosse a ascensão ao poder por parte de Estaline e a total subversão dos valores e dos ideais que levaram à própria Revolução. 

Não lamento não ter lido este livro antes. Mais uma vez, considero que foi lido no momento certo, especialmente, quando na Europa democrática, hoje, temos partidos de teor mais extremista a sair para a luz do dia. 

Foi um livro muito... elucidativo, para dizer o mínimo. É um livro curto - tem 127 páginas, se excluirmos a inclusão dos dois prefácios - e lê-se muito bem, mesmo num fim-de-semana de preguiça. E recomendo-o, especialmente, aos mais velhos dos mais novos; ali, aquela geração, a roçar os 17/18/19, que já não são tão impressionáveis e que apreendem, com facilidade, os conceitos (e os perigos) que Orwell quis transmitir. 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Lido: Longa pétala de mar, de Isabel Allende

(ó para mim, tão atinadinha, a escrever imediatamente após ler o livro - e não acumular meses de leitura sem botar aqui uma letra)

Já conto com a minha quota parte de livros de Isabel Allende. Aquilo que me vem sempre à cabeça quando se trata de Allende é "não é a minha autora favorita, mas...", já li tantos vários livros dela, que é melhor repensar na minha vidinha. 

Nos últimos 4 anos, este foi o 4.º livro que li dela, sem contar com todos os anteriores que a minha mãe comprava e que estão encaixotados... algures. 

Conhecemos Víctor Dalmau, durante a Guerra Civil Espanhola, na década de 30. O rapaz chama a atenção aos seus superiores, depois de ter, literalmente, pegado no coração de um homem, e o ter ressuscitado quando já o davam como morto. Víctor não tem qualquer partido, e descende, inclusivamente, de uma família de gente apartidária. O pai é músico e a mãe professora. Existe ainda um irmão, Guillem, e Roser, uma jovem que havia sido acolhida pelos pais. 

Roser e Guillem apaixonam-se, e a jovem acaba por engravidar. Guillem morre em combate.

A vitória iminente dos franquistas faz com que os Dalmau procurem fugir de Barcelona. O pai morrera, Guillem estava incontactável (também já tinha morrido, embora a família ainda não soubesse); sobravam Carme e uma grávida Roser. Com a ajuda de um amigo, Roser consegue chegar a França, enquanto que Carme desiste pelo caminho e disse preferir morrer na sua pátria. Mais tarde, Víctor reúne-se com Roser, e casam-se, para facilitar o embarque no Winnipeg, um navio chileno, fretado pelo poeta Pablo Neruda, que iria transportar refugiados espanhóis para o Chile, para aí reconstruírem as suas vidas. O casamento que seria apenas de conveniência, acaba por durar cinco décadas. 

Pelo meio, Isabel Allende descreve todos os acontecimentos sociais e políticos que assolaram Espanha e o Chile ao longo de quase todo o século XX, ao mesmo tempo que vamos acompanhando os nossos protagonistas. 

A escrita de Allende é, como sempre, imaculada e cativante. Roser pertence àquela classe de mulheres resilientes e fortes que Allende costuma retratar nas suas obras, e Víctor é um protagonista com todas as falhas e defeitos, e virtudes, como qualquer espécime da raça humana. Allende não coloca aqui aqueles pózinhos de fantasia, como vimos, por exemplo, n'A Casa dos Espíritos, e oferece-nos uma visão - de bancada - da história do seu próprio país. 

Foi um livro que gostei muito de ler, mas, no final, não me senti tão maravilhada como em outras obras dela. Na tentativa de atar todas as pontas dos arcos narrativos e fechar definitivamente a história, Allende apressou um bocadinho as coisas, e pareceu-me que a introdução de certas personagens, metidas à força, não fez tão bem como parecia à primeira vista. Mas, atenção, isso não estragou a experiência da leitura, mas em vez de 5 estrelas, dei 4- (ali a resvalar para as 3,9, vá, se isso nos fosse possível!). 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Lido: Um homem chamado Ove, de Fredrik Backman

Eis-me, finalmente, chegada ao texto do último livro que li: Um homem  chamado Ove, do sueco Fredrik Backman. Há uns tempos, este livro foi bastante popular entre a comunidade livrólica. Toda a gente o elogiava, toda a gente falava bem, mas eu costumo ser do contra, e quando surge demasiado entusiasmo sobre um livro, por norma, perco um bocado o interesse. 

Aconteceu com este, e acontece ainda hoje com muitos outros. Gosto do meu ritmo, gosto de descobrir as coisas como se fossem a última Coca-Cola do deserto que, na verdade, não são. 

Li este livro em pouco mais de 24 horas, só para que conste. Li, li, li... gargalhei muito, virei páginas como quem come cerejas, emocionei-me, dei mais umas gargalhadas, resmunguei um bocadinho como o Ove e, se pudesse, oferecia um miminho à Parvaneh. 

Ove é um velho resmungão. Ponto. Não há como contornar esta questão. Não é simpático, não é uma pessoas sociável, não gosta de mudanças - aliás, não muda sequer a marca do carro desde que teve um pela primeira vez. Ove não é o amigo da vizinhança... é aquela pessoa que, TODOS OS DIAS, sai de casa para inspecionar o bairro e ver se os carros estão nos estacionamentos corretos e se ninguém passa onde não deve. 

A vidinha de Ove sofre uma mudança, com um casal novo no bairro. Começam por bater (e destruir) a caixa do correio. A resmungar, Ove ajuda-os. E, aos poucos, vamos conhecendo Ove. E sabemos que ele só se quer suicidar. Todos os dias, acorda, toma o pequeno almoço, faz a sua habitual inspeção pelo bairro e volta para casa para cometer suicídio, e assim se juntar à esposa Sonja, falecida há cerca de seis meses. Mas, todos os dias é interrompido de alguma forma e não consegue levar a sua avante. 

Somos apresentados à vida de Ove antes deste momento, em vários capítulos que acontecem no passado. Como foi a sua infância, como e quando perdeu os pais, a importância dos valores, como conheceu Sonja - e vamos entendendo as atitudes de hoje de Ove. 

É um livro que tanto tem de ternurento, como tem de emocionante e que nos chama a atenção para temas fraturantes: a solidão dos mais velhos, o racismo, a homosexualidade, a burocracia e os burocratas, o amor... há muito tempo que não chorava como chorei ontem ao terminar o livro. 

A escrita de Backman é simples como abrir uma janela e deixar entrar o sol. Transmite-nos a sensação certa no momento certo. Não inventa, não se põe a colocar intelectualidade desnecessária naquilo que ser quer simples e bonito. É um bom livro. Um livro que nos deixa satisfeitos depois de um dia cheio. Acho que o li na altura certa.