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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Amanhecer na Ceifa, de Suzanne Collins

Quando saí, em maio passado, da empresa onde trabalhava, a minha (agora ex-) colega de trabalho, farta e cansada de me ouvir falar de Hunger Games, ofereceu-me, em gesto de despedida, este livro Amanhecer na Ceifa. 

Depois de A Balada dos Pássaros e das Serpentes, onde nos é contada a história do Presidente Snow, agora temos a história dos Quinquagésimos Jogo da Fome - o 2. ° Quarteirão, que têm Haymitch como protagonista. O velho e bêbado mentor da Katniss e do Preto, e uma figura central do movimento que pretende deitar abaixo o Capitólio.

Haymitch nem devia ter sido colhido, mas estava no sítio errado na hora errada. No dia do seu 16.° aniversário.

Esta história vai buscar muitas personagens que conhecemos n' A Balada e muitas que conhecemos na trilogia original. Vamos encontrar uma Mags e uma Wiress na posição de mentoras. Um Plutchard a dar os seus primeiros passos juntos das entidades superiores, organizadoras dos Jogos, e a mostrar a sua verdadeira natureza de resistência. Um Beetee a mentorar o seu próprio filho. Como é que a Eddie entrou neste mundo tão diferente da sua natureza.

E todas estas pequenas histórias vão dar mais impacto e profundidade a certos acontecimentos, por exemplo, do 3.° livro da trilogia original. O sacrifício da Mags e a morte da Wiress que nem o Haymitch nem o Beetee puderam chorar, porque o objetivo era maior do que eles. 

Fiquei feliz por conhecê-los melhor, mas ao mesmo tempo com um sentimento de tristeza por perceber que havia algo mais por trás: uma amizade construída em cima de um mesmo trauma. 

Não vale a pena explorar os Jogos em si. Sangue, carnificina e crianças a morrerem. 

Mais um livro tremendamente bem conseguido de Suzanne Collins.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Goa ou o Guardião da Aurora, de Richard Zimler

Conheci a família Zarco em O Último Cabalista de Lisboa, em 2018 (!!!). Juro que não tinha noção do tempo.


Há uns anos, comprei a saga sefardita inteira em ebook na Wook e, quando a Lua está Cheia, e a fazer um mortal encarpado em Mercúrio, lembro-me que tenho a aplicação no telemóvel e pego nos livros que lá tenho. 

Li Meia Noite ou o Princípio do Mundo em finais de 2022/inícios de 2023. E agora Goa ou o Guardião da Aurora, que se passa em finais do século XVI, na Índia. 

Neste livro, seguimos Tiago Zarco. Tiago está preso, pela Inquisição, e vai relembrando a sua história de forma a tentar perceber quem o terá denunciado - e ao pai - como judeus praticantes. Tiago lembra a mãe e os dias felizes antes da sua morte, e da sua vivência e de Sofia, a irmã mais nova. 

Tiago tem as suas suspeitas, mas o exercício de memória que faz, agrava o seu sentimento de vingança. E depois de cumprida a pena (levado para o Brasil e depois para Lisboa), Tiago regressa à Índia para finalmente buscar a justiça que acredita ser a merecida. Mas conseguirá mesmo? Ou o passado é um lugar que não devemos revisitar? Bem e mal, certo e errado... Mas o regresso é agridoce e tudo mudou nos anos de ausência.

Gosto de Richard Zimler. Gosto da forma de escrever e gosto das suas histórias. Os livros históricos são dos meus favoritos e a mistura entre ficção e realidade - onde começa uma ou a outra - fascina-me. E Zimler consegue fazer-me acreditar que os Zarco existiram mesmo. Com todas as suas qualidades e defeitos. 

Os livros de Zimler têm sempre um ritmo rápido. Há sempre algo a acontecer, mesmo quando parece que não. 

Conhecem Richard Zimler? Sim? Não? Busquem aqui no blog por outras resenhas de livros: O Último Cabalista de Lisboa, Anagramas de Varsóvia e O Evangelho Segundo Lázaro. Não se vão arrepender.

domingo, 5 de abril de 2026

O Discípulo, de Hjorth & Rosenfeldt

Como já havia comentado, decidi começar a ler a empreitada que é a série Sebastian Bergman.  

Sebastian, no final do primeiro livro, descobre que tem uma filha, fruto de um encontro casual com uma mulher, Hanna. Ele sabe quem a filha é e torna-se um verdadeiro stalker, obviamente, sem que ela o saiba.

Ao mesmo tempo, a sua antiga equipa, liderada por Torkel, investiga uma série de assassinatos.

Torkel já fez uma ligação: o modus operandis é igual ao de um caso de anos antes. Mas, o assassino está preso. E Bergman foi decisivo para a prisão do homem.

Como é que isto acontece? Tem contactos cá fora? É a mente por trás destas novas mortes ou simplesmente está a ser copiado?

Até ao momento, a falta de provas é crítica. E ninguém quer contactar Bergman, depois dos eventos do primeiro livro. 

Até que Sebastian, no meio de toda a confusão que é a sua vida, se apercebe destes novos homicídios. 
E faz de tudo para reintegrar a equipa. Até porque este assassino apenas ataca mulheres com quem Bergman já teve um caso. 
E qualquer uma delas pode ser o próximo alvo - até Hanna, a mãe da filha!

Volta e meia, regresso aos policiais. O meu fraquinho são os nórdicos, muito por culpa do falecido Stieg Larsson. 

Como este livro é o segundo da série ainda não houve uma quantidade proibitiva de pormenores que me esquivei de dar sobre Bergman e esta filha que ele descobre ter, mas, no futuro, deverá ser mais difícil contornar este arco narrativo essencial para o desenvolvimento da personagem. Vou tentar.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O meu nome é Emilia del Valle, de Isabel Allende

Tema do clube de leitura para março: ler uma escritora feminista. 

Chimamanda - tenho para ler, mas não estava no mood. 

Comecei outros 2 e continuava sem estar no mood. Eu sou leitora já muitos anos, e raramente leio este ou aquele autor pelas posições que defende. Leio, porque gosto. Ou não leio, porque não gosto. 

E Isabel Allende é confortável. Allende é casa. Allende nunca desilude. Aliás, desiludida comigo fiquei eu por não me ter lembrado dela antes. 

Allende é histórias que nos obrigam a parar tudo. São as mulheres de garra que não se deixam intimidar.

E Emilia é mais uma dessas mulheres fortes que se junta ao largo corredor de  personagens saídas da imaginação de Allende.

A mãe da Emilia estava num convento. Entretanto, tem de fazer "serviço comunitário" e acaba por conhecer 2 homens: o diretor de uma pobre escola de bairro e um milionário chileno galã. Apaixona-se pelo segundo e engravida. Mas acaba por casar com o primeiro.

A Emilia nasce e sabe que aquele homem não é pai biológico dela, mas é ele que a cria e ela adora-o.

Ele, mais velho do que a mãe de Emilia, é louco por ambas e ensina à nossa protagonista tudo o que sabe. Especialmente a questionar, a ser curiosa e interessada pelo que a rodeia.

Isto tudo numa altura em que a mulheres ainda nem sequer votavam.

Emilia torna-se escritora (sob pseudónimo) e jornalista e vai cobrir a guerra civil no Chile.

Neste país, Emilia conhece o pai e uma tia. Conhece o Chile e as suas raízes. Apaixona-se pelo país e pelas suas gentes e, um dia, depois do fim da guerra não volta a casa: deixa o noivo (o seu colega jornalista) e parte para se descobrir pelo interior do Chile.

Goste-se ou não, Isabel Allende sabe contar histórias. E não tenho vergonha de admitir que gosto muito. 

O meu nome é Emilia del Valle não é uma A Casa dos Espíritos, mas é um romance que se lê muito bem. 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Um tempo a fingir, de João Pinto Coelho

Gostava de conseguir dizer que estou perfeitamente dentro do timing da atualização do blogue, mas #sóquenão... 

Um Tempo a Fingir inseriu-se, sem querer, no tema do clube de leitura de Fevereiro. Lá, muito atrás no tempo. 
E sem querer porquê? Porque o tema era amor trágico ou tóxico e, sem querer fui bater com um livro que tinha os dois num só. Comprei este livro na Feira do Livro de Lisboa em 2025 e esteve a viver cá em casa, sem quaisquer responsabilidades desde então. 

Mas sobre o livro. Passa-se em Itália, em 1937, num vilarejo. 

Annina, a protagonista, relata-nos o momento em que o pai se suicida. Esse momento, marca, de forma simbólica, o adeus à infância. 

Nos primeiros capítulos, vamos tendo uma segunda voz a acompanhar-nos: Ulisse, o irmão mais velho de Annina, que vai preenchendo alguns espaços em branco ou corrigindo algumas imprecisões da irmã. 

Sabemos que Annina é judia, muito bonita e boa aluna. Contudo, a morte do pai obriga-a a interromper os estudos e a começar a trabalhar. Vai chamar a atenção de Marzio Falaschi, sobrinho do patrão - o mafioso local. Mas o coração de Annina pertence a Cosimo, um jovem tímido, com quem se envolve romanticamente e vai despertar a fúria de Marzio.

Obviamente, coisas boas não vão acontecer. Ela é espancada e fica completamente desfigurada, Cosimo oferece-se como voluntário para ir combater por Itália na guerra e a mãe e o irmão vão para Roma atrás de melhores oportunidades de trabalho.

Com a saída de Ulisses para Roma, deixamos de ter aquela segunda voz narrativa e passamos exclusivamente a ter a visão de Annina, que, compulsivamente, mantém um registo em diários sobre o que vai acontecendo. 

Não vou passar daqui a minha humilde descrição dos eventos do livro. 

Este é um daqueles que, no final, tem um twist que nos faz questionar cada capítulo. Não vou dizer se acaba bem ou mal (mas anos 30, Itália, judeus... noves fora - é só fazer as contas). Contudo, fui apanhada totalmente de surpresa com os capítulos finais, vou confessar. 

João Pinto Coelho é o autor de, por exemplo, Perguntem a Sarah Gross e Os Loucos da Rua Mazur - adorei ambos! E, em tempos idos, acho que disse qualquer coisa como: que leria as páginas amarelas se soubesse que tinham sido escritas por ele. 

Leiam muito e sejam felizes.