quarta-feira, 4 de março de 2020

Balanço #24Horas1Livro

À semelhança de 2019, a Silvéria Miranda - canal The Fond Reader - lançou, em fevereiro, o projeto #24Horas1Livro. Ou seja, por ser o mês mais pequeno do ano, a ideia era cada um dos participantes ler um livro no período de 24 horas: começávamos hoje às 22h00 e terminaríamos amanhã à mesma hora.

Em 2019, li oito livros: um era infantil e duas BD's, e os cinco, restantes, literatura "normal". Este ano, os mesmos oito livros... yey!!

Comecei com O Velho que lia romances de amor (Luis Sepúlveda) - leitura do mês do clube de leitura. Depois Outros Contos de Natal (vários autores), para a maratona Estações Literárias. Seguiu-se Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll), Essa Gente (Chico Buarque), Sou Malala, O Coelho Pedro e outras histórias (Beatrix Potter), A mulher que prendeu a chuva (Teolinda Gersão) e A Filha de Vercingétorix (álbum Astérix).

Estas leituras foram inseridas em outros projetos - portanto, faço um balanço positivo de mais esta participação.




segunda-feira, 2 de março de 2020

Lido: A mulher que prendeu a chuva, de Teolinda Gersão

Há cerca de duas ou três semanas, uma associação cultural de Sintra anunciou que iria promover um encontro com a autora Teolinda Gersão. Por um lado, tinha imensa vontade de ir, para a conhecer. Mas, por outro lado, como nunca tinha lido nada, não iria ser uma participante ativa na conversa, e isso iria tirar toda a piada possível ao evento.

Optei por não ir, mas acabei por trazer da biblioteca, uma das suas obras que "caía que nem uma luva" na maratona Estações Literárias: A mulher que prendeu a chuva. Trata-se de um livro de  contos. Paniquei, porque não sou uma rapariga de contos, e, inconscientemente, ia deixando este livrinho para último.

Que sacramental estupidez. O livro é ótimo. Claro que tem uns contos melhores do que outros, mas, no geral é muito bom. Aquele que dá título ao livro, foi um dos meus preferidos. São pequenos contos sobre coisas mundanas: um homem viúvo que cai na rotina da aposentadoria, as vizinhas que deixam de se falar, a avó que sai com o neto, perde os óculos e desnorteia-se, o marido que ignora a esposa, e mata-a quando ela encontra um novo amor, um estrangeiro em Lisboa que ouve, através da porta, uma história macabra... qualquer coisa trivial pode dar origem a uma pequena narrativa sem se perder nada pelo caminho, e com uma escrita descomplicada e escorreita.

Ter descoberto Teolinda foi tão bom como quando terminei o meu 1.º livro de Rosa Lobato de Faria. No caso da Rosinha, não me perdoo: tinha-me sido aconselhada ainda no ensino secundário, mas fiz ouvidos moucos e foi preciso chegar aos 30 e tal anos para a ler pela primeira vez. Com Teolinda Gersão, fico imensamente feliz por a ter lido, neste momento. A senhora já conta com 80 anos e nunca se sabe quando a perderemos.

Um pormenor muito giro da edição que li: a biblioteca recebe doações, e não é raro, ler um livro com a indicação que foi oferta de...
Este exemplar foi oferecido pelo ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, à Biblioteca Municipal de Sintra e conta com uma dedicatória da autora ao PR e à Primeira-Dama, Maria José Ritta. Um detalhe delicioso.

Por ser um livro tão fácil de ler e tão pequeno, consegui inseri-lo também no #24Horas1Livro.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Lido: O Deus das Moscas, de William Golding

Desde o ano passado que andava de olho neste livro. Tive a possibilidade de assistir ao ensaio de imprensa da peça O Deus das Moscas, adaptado e produzido por uma companhia de teatro sintrense, no magnífico cenário da Quinta da Ribafria, também em Sintra.

Desde o instante em que as atrizes - sim, o encenador trocou, e em vez de ser um elenco masculino, eram só raparigas - começaram a representar, senti que tinha de ler este livro.

Não é um livro minimamente fácil de ler. Creio, aliás, que, se não fosse pela peça, ter-me-ia escapado um ou outro momentos da ação. Apesar de conhecer a história, e saber precisamente do que se tratava, não deixei de me sentir enjoada e emocionada com alguns momentos.

A ação começa com um acidente de avião. Ralph surge. É um adolescente, sobrevivente da queda do avião. Mas logo surge outro rapaz, que começará a ser chamado de Piggy. Aos poucos e poucos vão aparecendo vários adolescentes, e crianças. Após terem-se juntado todos, decidem que devem organizar-se para criar abrigos, acender uma fogueira para chamar a atenção e procurar comida. Um outro rapaz, Jack, nomeia o seu grupo do coro, como os caçadores, mas logo percebemos que ele tem uma postura que antagoniza Ralph e Piggy, este último visto como o elo mais fraco.

Há medida que o tempo vai avançando, vemos que o suposto grupo organizado é tudo menos isso. Os rapazes preferem estar na praia do que criar abrigos, e deixam apagar o fogo, precisamente na altura em que um navio passa ao largo da ilha onde eles estão perdidos.

Mas não é só isso. Os mais pequenos garantem ter visto uma besta, uma criatura e isto é o suficiente para que as coisas se tornem ainda mais complicadas.

O Deus das Moscas é um livro que nos faz pensar sobre a verdadeira natureza do Homem. Em tempos idos, nas aulas de Filosofia... lembro fragmentos esta discussão: Jean-Jacques Rousseau disse-nos que o Homem é bom por natureza e que é a sociedade que o corrompe; enquanto que, para Hobbes, o Homem é, naturalmente, mau. E este livro mostra-nos o bom e o mau que cada rapaz, deixado à sua sorte, seria capaz de fazer.

Não vou entrar em pormenores da narrativa, por motivos óbvios: prefiro que seja cada um de vocês a descobrir. Mas posso dizer que tudo descamba, como seria de prever. Apesar de alguma boa vontade, os rapazes falham redondamente. E, no final, um oficial da Marinha britânica parece ficar desiludido quanto ao falhanço de rapazes ingleses em se auto-governar.

Trata-se de uma obra que coloca, preto-no-branco, o progressivo processo de decadência: estar bem, no alto, e, aos poucos, cair até não restar sequer uma centelha de Humanidade.

Mas tem de ser lido, pessoas. A sério. Sei que escrevo isso muitas vezes, mas quando o escrevo, não é ao desbarato. Tenho-me esforçado em escolher bons livros, e no meio desses "bons livros", existem aqueles que são de uma qualidade superior, por esta ou aquela razão. E este é um desses. Mas, ao embarcarem nesta leitura, foquem-se. Que seja o único livro que lêem. Como disse no início: não é um livro simples, mas é tremendo.

Este livro foi escolhido para o projeto Estações Literárias, da Ana "Phoenix Flight" e da Andreia "Croma dos Livros", e para o meu projeto pessoal de ler mais Nobel da Literatura.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Lido: O Coelho Pedro e outras histórias, de Beatrix Potter

Há poucos meses, pouco depois do verão, creio, passei pela Europa-América, aqui em Mem Martins... foi a minha última visita à histórica editora que pouco tempo passado declarou insolvência.

Nesta visita, um dos livros que trouxe foi O Coelho Pedro e outras histórias de Beatrix Potter, um clássico da literatura infantil. Este pequeno livrinho reúne alguns dos contos escritos pela autora britânica.

Eu sou fã do Pedro, e apesar de estar mais familiarizada com os nomes que se usam hoje - o esquilo, para mim, é o Trinca Nozes, e não Trinca Trinca... ou a ratinha que se chama Migalha e não Janota - não me incomodei minimamente, e li estas historinhas como se fosse a 1.ª vez. Em algumas delas, foi mesmo.

Não há muito a dizer sobre este pequeno volume. São 12 histórias daquele universo animado de Pedro e as irmãs, o primo Benjamin, o senhor Raposo, o sapo Jeremias, entre outros. Eu sou, aliás, aquela pessoa que, quando saiu o filme, praticamente insistiu com o filho para irmos ver ao cinema.

Inseri este livro na lista do projeto #24horas1livro. 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Lido: Sou Um Crime: Nascer e crescer no apartheid, de Trevor Noah

É uma tarefa muito ingrata, esta: escrever a minha opinião sobre um livro sobre a vida de uma pessoa que passou por coisas que, eu, nem nos meus pesadelos, alguma vez, imaginei.

Ficção é ficção. Um romance, mesmo que, por vezes, possa ser inspirado em casos reais, em pessoas de carne e osso, não é a mesma coisa que um livro escrito em voz própria. "Sou um Crime" não é, ao contrário do livro da Malala, para crianças.

Há uns anos, quando o Trevor Noah substituiu o Jon Stewart no "The Daily Show", pensei quem seria aquele miúdo com a mania que era engraçado. Não perdi muito mais do meu precioso tempo a pensar nele, vou ser sincera.

Neste intervalo, entre 2015 e anteontem, data em que terminei de ler o "Sou um Crime", vi os espetáculos da Netflix: Afraid of the Dark e Son of Patricia e já tinha mais umas luzes sobre quem era o Trevor, mas ainda assim não estava preparada para aquilo que li.

Não conhecia um tusto do apartheid. Chego a essa triste conclusão. Até me tenho por uma pessoa que percebe umas coisitas sobre o nosso mundo, mas senti-me perfeitamente ignorante sobre aquilo que desconhecia (e ainda desconheço) sobre este regime segregativo.

Mesmo com o fim do apartheid, as coisas não foram fáceis. Trevor nasceu em 1984, dez anos antes da eleição de Mandela como presidente de África do Sul, evento esse que marcou o fim de uma era. Com um pai branco (um suíço-alemão) e uma mãe negra, Trevor nasceu mestiço. Mulato. Não era carne nem peixe. E, acima de tudo, a sua mera existência era ilegal: estava, literalmente, escrito - legislado - que brancos e negros não se podiam misturar. Essa miscigenação era crime.

Mas a mãe, Patricia, era daquelas tramadas e que nunca se resignava. E acho que foi essa a chave para que Trevor Noah hoje - de acordo com alguma pesquisa que fiz - valesse 13 milhões de dólares. A mãe, contra tudo e todos, tentou pô-lo a estudar em boas escolas, aconselhava-o... em várias descrições, Trevor conta que a mãe lhe batia, mas, ele escreve que foi "por amor". Que preferia ser ela a discipliná-lo, do que a polícia. Porque os mulatos, os mestiços, os "de cor" eram os renegados da sociedade. A admiração que este homem tem pela mãe e pela sua resiliência, a sua coragem... é quase palpável.

E este livro fala um pouco sobre tudo: a sua incapacidade de se sentir confortável com brancos, e com negros, a fome, a pobreza, a miséria, a discriminação, a violência doméstica, mas sempre com um humor latente.

Pessoalmente, acho que "Sou um Crime" deve ser lido. Especialmente, agora... mais do que nunca. Po
r favor.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Lido: Eu sou Malala, de Malala Yousafzai (e Patricia McCormick)

O que sabia sobre Malala é o que a generalidade das pessoas sabe: uma miúda, que foi alvo de uma tentativa de homicídio por parte dos talibã, e que entretanto recebeu um Nobel da Paz. Ponto final.

E Malala é exatamente isso: uma miúda, que foi alvo de uma tentativa de homicídio por parte dos talibã, e que entretanto recebeu um Nobel da Paz. Mas também é a irmã de Khushal e Atal. E teve a sorte de ter Ziauddin Yousafzai, como pai, e Toor Pekai Yousafzai, como mãe - duas pessoas que, dentro das suas possibilidades, incentivaram a filha a lutar pelo que acreditava.

A versão que li de "Eu sou Malala" foi a edição juvenil. Encontrei-a na biblioteca municipal, e pensei "porque não?". É, portanto, uma versão mais "soft" e simplificada da vida desta jovem paquistanesa.

Malala, que, este ano, completará 23 anos, tinha apenas 15, quando um homem armado disparou à queima-roupa sobre ela. A razão? Ela era, desde 2009, o rosto visível da luta das raparigas pelo direito à educação, após os talibã terem encerrado (e feito explodir) alguns estabelecimentos escolares na região onde vivia.

Neste livro, Malala - que fala sempre na 1.ª pessoa - explica um pouco do contexto político e religioso à época, e faz descrições de como era a sua vida em família e na comunidade. Fala especialmente do pai, e do seu papel enquanto educador e ativista - o pai foi, aliás, fundador de várias escolas na região.

Este livro só "peca" por ser algo superficial. Mas atenção, e faço questão de o sublinhar, esta é a versão juvenil. Se eu fosse adolescente, certamente que ficaria relativamente bem informada, em termos de contextualização política.

Malala, hoje, é estudante universitária. Frequenta a Universidade de Oxford e estuda Filosofia, Política e Economia... rumo ao desejo de se tornar uma líder mundial.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Lido: Demência, de Célia Correia Loureiro

Algures no ano passado, a Cristina do blogue e canal Linked Books e a Silvéria do canal The Fond Reader lançaram as bases do "Demência on the road" - um sistema de empréstimo, em rede, do livro Demência da jovem autora Célia Correia Loureiro.

Já havia bastantes pessoas que tinham esta obra e diziam maravilhas. De repente, toda a gente queria lê-lo. A Cristina tinha um exemplar extra e assim nasceu esta rede de empréstimo.

Na semana passada, chegou até mim. E resumindo, li-o em três noites. Chorei baba e ranho, e, no fim, pespeguei-lhe com 5 estrelas. Que livro tão bom.

Temos a história de Olímpia, uma mulher na casa dos 60, que começa a dar sinais de que algo não está bem. Vive numa aldeia pequena, e num fósforo, tudo se sabe. Uma vizinha telefona para Letícia, a nora, na esperança que esta possa fazer alguma coisa para ajudar a sogra. Mas, e é aqui que... como se diz: a porca torce o rabo. Letícia matou o marido, Fernando, único filho de Olímpia.
Fernando era violento, e num dia de especial violência, Letícia atingiu-o com a arma que ele próprio havia empunhado para acabar com a vida da mulher.
Sem emprego, e sem grandes alternativas, até porque tem duas filhas do casamento com Fernando, Letícia vai para casa da sogra, conhecendo de antemão todas as dificuldades que iria enfrentar: lidar com o ódio de Olímpia e da comunidade da aldeia que a vê como uma mera assassina.

Mas, nem tudo é mau e duas personagens masculinas vêm ajudar a limpar o passado e a esclarecer muitos pontos cinzentos de tempos idos: Sebastião, um septuagenário, amigo de sempre de Olímpia, e Gabriel, grande amigo de Fernando, mas que sempre amou Letícia.

Violência doméstica e doenças do foro mental... uma mulher, que quase era morta, ousou enfrentar o seu agressor que era filho da mulher que agora vai amparar. Uma aldeia acusadora.
Uma mulher que perde o seu único filho. Uma mulher doente que não tem mais família que a ajude. São muitos os dilemas e os traumas que são colocados em "apenas" 464 páginas, porque quando se termina esta leitura, parecem muito menos do que na realidade.

A Célia escreve muito bem. E o mais incrível é saber que a primeira edição de Demência tem quase 10 anos - quando a Célia tinha pouco mais de 20 anos.
É um livro brutal, que anda para trás, para o passado de Letícia, e ainda para a meninice e juventude de Olímpia... é contado, portanto, em vários períodos temporais, perfeitamente identificados e necessários para que o leitor consiga entender todas as perspetivas dos nossos intervenientes.

"Demência" foi relançado, no ano passado, pela Coolbooks e, na minha singela opinião, é um livro que deve ser lido e relido. Um daqueles livros que podemos comprar sem hesitações e ostentar na estante de casa.

Foi a minha 15.ª leitura de 2020.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Lido: O Paraíso segundo Lars D., de João Tordo

Li, em novembro (mas o post só saiu em dezembro), o meu 1.º João Tordo - O Bom Inverno - e, na altura, disse que gostaria de ler mais dele. Aproveitando que "precisava" de um livro que se passasse no Inverno para a maratona Estações Literárias, peguei nesta pequena obra. Pequena, em número de páginas.

Sei que é o 2.º livro de uma trilogia - a própria etiqueta da biblioteca o diz - mas O Luto de Elias Gro, ou não existe, ou não estava disponível. Este até se passa no Inverno, portanto, o pior que me podia acontecer era começar a ler e não gostar. Perdida por 100...

Antes de passar à minha opinião, devo confessar que, após a leitura, fui ver opiniões sobre este livro e quase todas dizem que O Luto de Elias Gro é melhor e que este não foi arrebatador como o seu antecessor... portanto, talvez,não tenha sido mau começar por ele, porque gostei bastante.

Temos Lars, um escritor quase septuagenário que vive com a mulher, com, aproximadamente, a mesma idade. A vida dos dois, reformados, é rotineira, sem surpresas... temos toda uma primeira parte narrada pela esposa de Lars, onde ela acaba por conhecer um vizinho, mais novo, estudante de Teologia, com quem desenvolve uma relação de amizade. Ela não lho revela diretamente, mas sabemos que Lars desapareceu.

Depois, a 2.ª parte da perspetiva de Lars, doente, que um dia, ao aproximar-se do carro, vê, lá dentro, uma jovem mulher adormecida. A juventude dela desperta em Lars um furacão de sentimentos e sensações há muito adormecidos.

Não criei uma especial empatia com o nosso Lars, mas adorei a mulher dele. A lucidez da idade, a sabedoria que passava despercebida, a rotina dos gestos que vem com uma placidez tão própria, mas ao mesmo tempo, tudo isto, misturado com uma conformidade em relação ao marido...

É um livro completamente diferente de O Bom Inverno. Se não fosse o nome "João Tordo" estar escrito na capa, diria que os livros eram de autores diferentes. O Bom Inverno é de 2010, e este é de 2015. É incrível o que uns míseros cinco anos fazem na maturidade da escrita...

A leitura faz-se muito muito bem. Li o livro em pouco mais de 36 horas. São apenas 207 páginas, com uma paginação muito limpa, com espaçamentos decentes e um tamanho de letra apropriadíssimo - deve ser apanágio da editora.

Como disse antes, li este, antes de O Luto de Elias Gro... que espero que seja a próxima leitura deste autor... e pelas críticas, será uma leitura brilhante.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Lido: Essa Gente, de Chico Buarque

Este livro foi prenda de Natal da minha sogra. Bastante recente nas minhas estantes, portanto, e nem teve tempo de aquecer lugar na fila de espera. Era uma leitura que eu queria realmente fazer desde que o livro saiu, já que nunca tinha lido nada de Chico Buarque, e só o conheço pela música.

Seguimos Manuel Duarte, um escritor que atravessa uma fase bastante negra da sua carreira: não ter nada para apresentar ao seu editor. Aliás, o primeiro texto que temos acesso, é uma carta que ele escreve, a pedir um adiantamento, à editora.

O que se segue é um conjunto de textos que, numa primeira vista, parecem completamente desconexos entre si, até que começamos a juntar as peças deste puzzle que Buarque nos serve, e começamos a ver a imagem geral.

Divorciado, com dívidas, duas ex-mulheres, um filho, e uma tendência inenarrável para se meter em confusões, Duarte tenta arrancar, pelas ruas, a inspiração necessária, para escrever. O que ele vê, e analisa, com uma lupa de escritor decadente, é uma sociedade que se vai desfazendo, aos poucos, e se deixa diluir nas aparências - como iremos ver ser o caso de ambas as ex-mulheres.

Li, algures, que este livro é classificado como uma tragicomédia, e não poderia concordar mais. Diz-nos a Infopédia, o que é uma tragicomédia:
"Subgénero dramático, cultivado principalmente do século XVI ao século XVIII, que se caracteriza pela união de características dos subgéneros da tragédia (assunto e personagens), com as da comédia (linguagem, incidentes e desfecho)".

Temos Duarte, por exemplo, que se vê obrigado a fazer pequenos favores a uma das ex-mulheres, como passear o cão, porque está prestes a ser despejado do apartamento onde reside, e precisa reatar uma relação com ela.
Mas, por outro lado, ela sempre foi a sua revisora, e uma peça fundamental nos seus sucessos editoriais passados, e é a própria editora que lhe implora que ela reveja as primeiras páginas do novo livro.

O final é inesperado, confesso. Não estava à espera daquele desfecho, o que tornou esta minha 1.ª experiência com Buarque muito interessante. Dizem que o número 13 dá azar, mas não posso concordar... 13.ª leitura do ano, que contou para a maratona Estações Literárias, e para o #24Horas1Livro. A edição é excelente: letra decente para quem está, perigosamente, perto dos 40 anos e usa óculos desde a faculdade, espaçamento e paginação muito "clean".
O próprio estilo do livro é muito atraente: textos curtinhos, como se fossem cartas, páginas de diário, recados... o que torna a leitura muito fluída e nada cansativa.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Lido: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

Apercebi-me que nunca tinha lido este clássico da literatura infanto-juvenil. Vi os mais recentes filmes do Tim Burton, vi a animação da Disney há mais anos que me consigo lembrar, li outras versões mais infantis e conheço as referências, mas nunca tinha lido... incrível, não é?

No ano passado, comprei, no Jumbo, uma versão com ilustrações de John Tenniel. Foi super-barato, três euros, ou qualquer coisa que o valha. Esteve na minha TBR para a 1.ª edição do #24Horas1Livro da Silvéria, mas acabei por não o ler. 


Li este ano, para o mesmíssimo projeto, por coincidência.

Não vale a pena estar a elaborar um texto extenso sobre Alice no País das Maravilhas, por se tratar de uma obra mais do que conhecida, seja lá qual for a sua adaptação.

Alice é uma menina que, de aborrecida, acaba por adormecer. Subitamente, acorda e vê passar um coelho branco. Não seria estranho, caso o coelho não estivesse vestido e a lamentar o seu atraso, enquanto olha para um relógio.
E é desta forma que Alice dá por si a entrar no mundo fantástico do País das Maravilhas, onde a hora do chá não termina, devido a um relógio avariado, e onde se joga "croquet" usando flamingos, e onde os soldados são cartas que pintam rosas que nasceram com a cor errada... um mundo onde os gatos sorriem e onde as criaturas dançam para secar.

Gostei imenso como é óbvio. E tu, sim, tu que me estás a ler, agora mesmo... experimenta. Não te vais arrepender. A não ser que comas uma bolacha que te faça crescer demais e que os teus membros estejam demasiado longe da cabeça para que consigas ter uma leitura agradável...