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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Tudo é possível, de Elizabeth Strout

Em junho, durante a Feira do Livro de Lisboa, comprei o livro O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout. 

Amei, adorei a personagem. 

Este livro não sendo uma continuação do arco de Lucy Barton conta-nos as histórias das pessoas de quem ela e a mãe falavam durante a estadia no hospital. 

Vamos mergulhar bem fundo na comunidade de Amgash, no Illinois, e conhecer algumas das suas pessoas: por exemplo, Tommy Guptill que teve, há muitos anos, uma quinta de produção de leite que ardeu, e que acaba por se tornar contínuo nas escolas de Amgash, onde conheceu Lucy Barton em criança, ou Patty Nicely, orientadora na escola secundária, que foi colega de escola de Lucy e que, agora tem em mãos reabilitar Lila, sobrinha da própria Lucy, uma jovem rebelde. Ou Pete Barton, irmão de Lucy, aquele que ficou para trás. Ou Dottie, a prima de Lucy, que agora arrenda quartos numa pequena pensão e que tem propensão para dizer o que lhe passa pela cabeça.

São pequenas histórias sobre pessoas. Lucy também aparece, não como protagonista, mas como personagem na história dos irmãos. 

Não vamos adiantar absolutamente nada no arco de Lucy Barton, mas dá-nos mais contexto. Aconselho a que este livro seja lido imediatamente após O meu nome é Lucy Barton. 

sábado, 31 de janeiro de 2026

Victorian Psycho, de Virginia Feito

Num outro registo totalmente diferente, li Victorian Psycho, da espanhola Virginia Feito. 

Miss Winifred Notty arranjou um emprego como preceptora dos dois filhos do casal Pound, Drusilla (a mais velha, mas negligenciada, porque, bem, é rapariga) e Andrew (o mais novo, que vai herdar o título e os bens, mas que é insuportável). 

Mas, conforme o tempo vai passando, os outros criados de Ensor House vão desconfiando que esta jovem mulher é bastante estranha. São as pequenas coisas: por um lado, as quase contradições, as histórias de horror contadas aos jovens Pound, os passeios à noite desnudada, o passado misterioso...

Mas, se temos este mistério - quem é, verdadeiramente, Winifred Notty? - temos também uma história engraçadíssima, com apartes deliciosamente sarcásticos.

Este livro não é o primeiro desta autora (e fiquei interessada em ler o seu Mrs. March), mas foi uma porta de entrada muito... vá... caricata, para o seu trabalho. Gostava de descrever como sendo uma Jane Austen, mas em deliciosamente subversivo.

Estou a apagar e a escrever coisas nesta mini-resenha, porque não quero revelar demasiado, mas, ao mesmo tempo, quero contar mais do enredo, porque gostava muito que lessem este livro.

Mas deixo-vos a frase de arranque deste livro "Dentro de três meses, toda a gente nesta casa estará morta". 

O final é "Chef's Kiss".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Trilogia de Copenhaga, de Tove Ditlevsen

Das duas, uma: ou leio ou escrevo no blogue. Tudo ao mesmo tempo é impossível. 

(spoiler: é possível sim, se eu me organizasse melhor e escrevesse imediatamente após completar a leitura)

A minha primeira leitura do início ao fim de 2026 foi no âmbito do clube Regaleira de Livros - ler um autor novo.

Li a Trilogia de Copenhaga, de Tove Ditlevsen, autora dinamarquesa, falecida em 1976. 

Nunca tinha lido nada dela, nunca sequer havia ouvido falar dela, mas os meus olhos, por alguma razão, prenderam-se nos dela que figuram na capa do livro. Um olhar onde li alguma tristeza. Não sei explicar. 

Este livro é a sua autobiografia, desde os bairros pobres até se tornar uma escritora de sucesso: Infância / Juventude / Relações Tóxicas (já na idade adulta). 

Fala das dificuldades da sua infância, da relação complicada com os pais, da sua ansiedade em completar 18 anos para sair de casa, dos amores, dos amores frustrados, dos casamentos, dos filhos...

Chorei algumas vezes com a Tove. Tentei, às vezes, esquecer que ela era apenas uma menina em alguns dos momentos em que me enervava com ela, para me conseguir enervar com propriedade. 

E lembrei-me que ela era uma pessoa real, e uma menina, em muitos desses momentos, para me acalmar. 

A vida dela não foi nenhum mar de rosas. E este livro não esconde nenhum dos espinhos. Ela não foi meiga consigo mesma e falou de tudo: as traições, o abuso de drogas, os medos...

Este livro é uma obra-prima. Cinco estrelas fáceis. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Seis de Corvos, de Leigh Bardugo

O primeiro livro que terminei já em 2026 foi o Seis de Corvos da autora israelita/norte-americana Leigh Bardugo.

Comecei a ver a série Shadow and Bone da Netflix e gostei imenso do universo. Depois de terminar as temporadas disponíveis, li os livros correspondentes da trilogia Grisha. 

Mas havia um arco que não aparecia na trilogia: o arco do criminoso/ladrão Kaz Brekker e do seu bando. Percebi então que esse arco da série pertencia à duologia Six of Crows, que, na altura, não estava disponível em Portugal. 

Até outubro passado. Como estava a ler outras coisas não peguei imediatamente nele, mas assim que terminei o que tinha em andamento, não hesitei.

E que bem que fiz. Kaz Brekker é um ladrão. E é o líder dos Dregs, um grupo de desajustados da sociedade: Jesper, um impressionante atirador, Inej, conhecida por Espetro, é capaz de se deslocar silenciosamente, Nina, uma Grisha que tem o poder, por exemplo, de baixar os batimentos cardíacos e Wylan, renegado pelo pai, é exímio no fabrico de bombas. Todos eles têm passados complicados, feito de mais baixos do que altos. 

Kaz tem uma reputação intocável. E recebe uma missão que o fará milionário.

Ele e o seu grupo, ao qual se junta Mathias, um soldado de uma outra fração dado como morto, vão tentar alcançar o seu objetivo. 

Esta história - categoria Young Adulto - está repleta de magia, fantasia, ação e algum humor. E, às vezes, é só mesmo isso que apetece. 

Ao explorar um bocadinho mais este primeiro livro da duologia, soube que a autora se inspirou no filme Ocean's Eleven para escrever este livro - e faz todo o sentido: um grupo de indivíduos, com talentos especiais inatos, tenta roubar algo que mudará as suas vidas. 

Compreendo que possa ser um livro que não agrade a todos. E como disse antes: às vezes, nem tudo tem de ser literatura com profundidade. 

Seis de Corvos é um exemplo de como os livros de fantasia podem funcionar como um "limpa palato" de outras leituras, um intervalo nas nossas vidas mais stressantes...bem construído, bem escrito, com uma história simples de compreender, mas com personagens que não são bidimensionais - têm carácter, têm conflitos, têm personalidades marcantes e marcadas pelo passado individual. 

Não custa nada dar-lhe uma oportunidade...

sábado, 10 de janeiro de 2026

Este Natal todos escondem um segredo, de Benjamin Stevenson

No mês de dezembro, li também o livro Este Natal todos escondem um segredo de Benjamin Stevenson. Esta leitura foi feita no âmbito do clube de leitura Regaleira de Livros, grupo a que pertenço. O tema era obviamente Natal.

Depois de há uns meses ter lido Na minha famílias todos mataram alguém do mesmo autor, achei que podia ser interessante revistar o detetive amador Ernest Cunningham. 

Neste livro, Lyle Pearse, o atual companheiro da sua ex-mulher, Erin, aparece morto e ela é a principal suspeita. 

Ernest tenta assim ilibar a ex-esposa e enceta uma investigação a todos aqueles que diariamente se cruzavam com Lyle. Até que outro homicídio é cometido... 

Agora Ernest tem de investigar 2 homicídios, provar que Erin é inocente de ambos e planear o seu próprio casamento...

O Natal pede leituras simples e este autor segue muito a linha de livros com uma pitada (gigante) de humor. 

O mais giro é que este livro pode e deve ser lido como um calendário do Advento: um capítulo por cada dia de dezembro até à revelação do culpado no dia 24. Mas eu não tenho qualquer tipo de auto-controlo e li tudo de uma assentada. Sorry, but not sorry!!!

A receita é a de Agatha Christie: crime, investigação, imprevistos e resolução final com todos os suspeitos fechados num único espaço. 

Não vai ganhar nenhum Nobel da Literatura, mas é um livro divertido, despretensioso e podemos passar umas horas interessantes com ele.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Campo de Lava, de Yrsa Sigurdardottir

Estou oficialmente apaixonada pela dupla 
Huldar e Freyja. 

Ainda há pouco tempo, falava-se cá em casa que quando andamos mais cansados e queremos simplesmente relaxar, a tendência é sempre agarrarmos-nos às coisas que conhecemos e que nos dão conforto e familiaridade. Para mim, normalmente, são os livros policiais. 

Neste livro, é encontrado o corpo de um jovem investidor. Tudo apontava para suicídio, mas um pormenor chama a atenção dos investigadores: o homem tem um prego espetado no meio do peito o que aponta para que tenha sido um assassinato. 

Ao mesmo tempo, Freyja é destacada para visitar uma morada. Foi recebida uma denúncia anónima sobre uma criança abandonada. E lá estava a criança: um rapazinho que não sabia como ali tinha chegado, não conhecia a casa, não sabia quem o tinha levado e não conseguia dar outras informações, além dos diminutivos dos pais. 

O problema? Vimos a descobrir que a morada é da casa do jovem investidor assassinado. 

Freyja e Huldar juntam-se novamente para descortinar mais este mistério. 

Obviamente, não vou falar mais sobre este livro. Digo apenas que foi daquele género "vou só ler um bocadinho" e terminei-o em 3 dias, porque uma pessoa tem de sair para ir trabalhar. 

É, se não me engano, o quarto livro da série com esta dupla. E tem um final que nos dá um nó na cabeça...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Temporada de Furacões, de Fernanda Melchor

Antes do ano de 2025 terminar li mais umas coisinhas que ainda não tinha tido a oportunidade de publicar.

Pouco depois do último post de 2025, ainda publicado em novembro, o Henrique ficou doente. Depois, fiquei eu doente. Depois o meu excelso esposo. Depois começaram os preparativos de Natal. E depois de ano novo.

E aquilo que eu queria ter feito ficou para trás na minha lista de prioridades. A vida a acontecer, portanto. 

Isto tudo para chegar onde? Li uns 3 ou 4 livros e agora, com um atraso bastante relevante, vou aqui publicar as reviews. 

Comecemos por Temporada de Furacões, da autora mexicana, Fernanda Melchor.

O corpo da Bruxa foi encontrado, por um grupo de crianças. Flutuava, sem vida, num canal de irrigação. Ninguém havia dado pela sua falta, porque ninguém de bem poderia, em boa fé, dar conta de privar com ela.

O que se segue é a descrição, pelos olhos de várias personagens da comunidade de La Matosa, dos dias que antecederam esta descoberta macabra. 

Vamos acompanhar a descida ao inferno: a pobreza, os vícios e todos os tipos de violência que possam imaginar que assolam as pessoas que ali vivem e que estão diretamente ou indiretamente relacionadas com o assassinato da Bruxa. 

É um livro muito difícil de ler. Não pela escrita, atenção, mas sim pela crueldade de alguns cenários. Temporada de Furacões é um livro onde não há gente totalmente boa, nem totalmente má. 

É um livro onde as pessoas sobrevivem como podem. As escolhas são feitas com base no pressuposto que, dificilmente, as coisas poderão ficar pior. 

Várias vezes tive de parar, respirar, pôr o livro de lado um par de dias, porque a minha mente não conseguia processar determinadas situações, dado que, felizmente, nunca tive de passar por elas. 

É um livro duro. Bate-nos sem misericórdia, mas vale cada página. Sejam corajosos. 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Novo Ano, novas metas

Antes que se passem dois meses desde a minha última postagem... Bom 2026, pessoas!

Chegou, portanto, a altura do ano em que se apontam as novas metas e se faz o balanço do ano que passou. 

Em 2025, voltei a ser conservadora nas minhas apostas. Comecei em janeiro a apontar para 12 livros (um por mês). Em meados de março, alterei para o dobro e ainda assim ultrapassei largamente.

Estou bastante satisfeita comigo e com a generalidade dos livros que li. 

Uma das coisas interessantes do Reading Challenge do Goodreads não é apenas ver o número de livros que consegui ler no fim do ano, mas as estatísticas. 

O maior livro que li tinha 708 páginas. E o menor tinha 144. 

A média de notas que dei foi de 4.6 estrelas - que me diz que os livros que li foram, genericamente, muito bons. 

O dia 1 já lá vai e, este ano, volto a jogar pelo seguro e apontei para os 24 livros. Acompanham-me nesta caminhada?

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Crónica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez

Depois de Morte nas Nuvens, ainda consegui ler mais este livrinho com a palavra "morte" no título.

Chegar a Gabo é chegar a casa. É saber que dali só pode sair algo bom ou muito bom. 

Santiago Nasar acorda às 05h30. Ele ainda não sabe, mas vai morrer dali a muito pouco tempo. Aliás, ele deve ser o único na cidade que não sabe que vai morrer; apesar de toda a comunidade ter conhecimento disso, a informação não chega a tempo de Santiago se precaver ou tentar defender-se. 

Há um casamento na cidade. Na noite de núpcias, descobre-se que a noiva já não é pura. Um nome escapa-se dos lábios "Santiago Nasar".

Os irmãos da jovem apressam-se a tentar obter a sua vingança de honra. Não escondem a ninguém a sua intenção, mas, poucos levam a sério a ameaça. Afinal de contas, ainda estão bêbados por conta do casamento. São rapazes tão bons e trabalhadores. Nunca se iriam revoltar contra o rico Santiago. 

Este livro está maravilhoso. Mais uma leitura de me aquecer o coração. A escrita de Márquez é simples. Conseguimos sentir as personagens. 

Gostei especialmente do "cameo" do coronel Aureliano Buendía, que nos indica que os eventos de Macondo descritos em "Cem Anos de Solidão" se passam no mesmo espaço-tempo que os deste livro. 

Crónica de uma morte anunciada é um livro minúsculo. Lê-se numa tarde. Promete bastante e entrega tudo o que prometeu. Metam na vossa lista. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Morte nas Nuvens, de Agatha Christie

Corria o ano de 2009, quando li este livro pela primeira vez. Lembrava-me de o ter lido? Não. Ao lê-lo, tinha flashes familiares? Talvez. Li-o até ao fim? Obviamente que sim. É Agatha Christie, dahhhh.

Poirot está no avião. A visão que tem de todos os passageiros é quase perfeita. O problema é que o seu estômago não está a colaborar e Poirot sente-se absurdamente incomodado. 

Apercebe-se dos 2 jovens que parecem estar a enamorar-se. Apercebe-se da tagarelice das damas ao seu lado. Apercebe-se de uma vespa e da pequena confusão que ela está a gerar. Só não percebe que atrás de si, a passageira está morta. 

Tão básico. Tão bom. Já disse várias vezes: a receita Agatha Christie é sempre muito semelhante, mas resulta tão bem. É o tipo de leitura que me deixa feliz. É a familiaridade. É o ler as pistas e tentar resolver o puzzle primeiro do que Poirot. 

Fiz esta leitura no âmbito do clube "Regaleira de Livros" a que pertenço. O tema de novembro foi escolhido para homenagear os mortos e é um livro com a palavra "morte" no título (ou seus derivados: matar, mataram... entendem a lógica).