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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Bela maneira de morrer, de Bella Mackie

Tenho um hábito meio estranho: no verão, gosto de ler livros mais leves onde a temática é sempre mortes incomuns.

Já li: Como matar a tua família, de Bella Mackie, O meu homicídio, de Katie Williams e Na minha família todos mataram alguém, de Benjamin Stevenson.

Este ano, estava dividida entre dois: Bela maneira de morrer, de Bella Mackie, e A minha irmã é uma serial killer, de Oyinkan Braithwaite.

Acabei por ler os 2, porque são livros pequenos que se lêem num instante. 

Enquanto o primeiro tem uma vibe mais cómica, o segundo é mais sufocante. 

Este texto será sobre Bela maneira de morrer.

Anthony é um gestor de investimentos. Faz 60 anos e a sua esposa, Olivia, organiza o evento do ano. A família é riquíssima, portanto, a festa é literalmente o local onde todos querem estar: sejam amigos ou inimigos. 

Tudo parece estar a correr bem, mas Anthony aparece morto. Empalado no lago artificial da sua propriedade. 

Anthony dá por si num centro de acolhimento onde as pessoas que morrem vão parar até que o seu caminho para o Além seja definido. 

Há algo apenas que Anthony tem de fazer: relatar como morreu. Após a morte, todas as pessoas perdem memória do que aconteceu nos 30 minutos anteriores ao seu suspiro final, e Anthony tem de descobrir o que aconteceu: foi assassinado? Suicidou-se? Ou tudo não terá passado de um acidente, tal como a família anunciou publicamente? Os primeiros suspeitos são... a própria família.

Este livro é contado a 3 vozes: Anthony que se encontra no centro de acolhimento, Olivia, a sua esposa, e a detetive, uma pessoa entusiasta de true crime que decide investigar por conta própria.

Tal como aconteceu em Como matar a tua família, o final foi menos entusiasmante do que o caminho até lá. O livro é divertido, leve e que se lê num piscar de olhos. 

Não estejam à espera do próximo Nobel, mas se querem uma comédia para estes dias quentes, que não obrigue a esforços mentais, este é o vosso livro.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Viagens com o Charley, de John Steinbeck

Para julho, o clube de leitura definiu como tema "livro sobre viagens". Andei para trás e para a frente sem saber o que ler. Pensei em viagens no tempo e em viagens metafóricas.

Pedi conselhos ao ChatGPT e ao Gemini, procurei listas de livros sobre viagens, e um nome acabou por se destacar - este mesmo: Viagens com o Charley, de Steinbeck. 

John Steinbeck nasceu em Salinas, na Califórnia, e depois disso viveu em Nova Iorque. Em 1960, comprou aquilo que poderemos chamar de autocaravana, a que deu o nome de Rocinante, pegou no seu cão poodle, Charley, e foram viajar pelos Estados Unidos da América. 

Este livro é o resultado dessa viagem. "Como são os americanos hoje em dia" era a principal questão que tinha em mente e que esperava ver respondida. 

A viagem começou em Long Island, Nova Iorque, e seguiu ao longo da fronteira dos EUA, desde o Maine até ao Pacífico. 

Depois seguiu para o vale de Salinas, na Califórnia, onde tinha nascido, e que já não visitava há mais de 20 anos. Aqui encontrou um velho amigo de infância e passam tempo juntos a conversar sobre todos os seus antigos companheiros de meninice.

Atravessou o Texas, e subiu para Norte de regresso a Nova York. Nessa viagem percorreu quase 16 mil quilómetros.

Ao longo da viagem, Steinbeck conversa com Charley, meditam os dois sobre o que vêem, cheiram e tocam. 

É uma viagem de conhecimento e descoberta. Passam por vários "apertos", por exemplo, quando no Oregon, um dos pneus fura. Num domingo. Ou quando Charley fica bastante doente. 

Steinbeck acabou por falecer 8 anos depois desta viagem (6 após o lançamento deste livro e de ter recebido o Nobel da Literatura). 

sábado, 1 de agosto de 2026

Os Filhos do Império, volume 2, de Yudori

Algures no ano passado, apaixonei-me pelo desenho do primeiro volume do livro Os Filhos do Império. Vi alguns vídeos sobre este livro e comprei, ligeiramente por impulso.

Tenho estado há um ano a sofrer, porque o segundo volume tardava. Até que veio viver cá para casa. 

Estamos na Coreia nos anos 30 (durante a ocupação japonesa) e seguimos Arisa Jo, a única filha de um comerciante abastado, e Jun Seomoon, herdeiro de uma nobreza rural empobrecida.

Os dois jovens não podiam ser mais diferentes: Arisa Jo é moderna, despreocupada, muito interessada na cultura ocidental e cresceu rodeada de privilégios. 
Jun Seomoon teve uma educação tradicional e rígida, pautada pelo sentido do dever e pela disciplina. Depois de ele e a mãe serem acolhidos pelo pai de Arisa, passam a demonstrar-lhe uma lealdade quase absoluta, encarando a hospitalidade que receberam como uma dívida de honra. 

O cenário histórico, aliado ao contraste entre estas duas personagens de origens e valores tão distintos, promete um romance e um conflito que vai muito além de uma simples história de amor.

Não vou abordar o segundo volume de forma individual, porque se trata de uma história contínua. Mas, este segundo volume dá-nos uma pequena pista sobre o que virá a seguir - e parece que as personagens vão sofrer vários revés. 

Por favor, procurem Os Filhos do Império. O primeiro volume tem uma capa arroxeada, e o segundo, esverdeada. Oiço falar tão pouco desta história que me sinto solitária. 



quinta-feira, 30 de julho de 2026

Noites Brancas, de Dostoiévski

Comprei este exemplar na Feira do Livro de Lisboa... do ano passado.

Quando mudei de trabalho, levei-o para o escritório, porque - pensava eu - iria lê-lo na hora de almoço. Mudei de emprego no verão. Estava calor e eu ficava sem vontade de ler. Depois comecei a conhecer pessoas e essa mesma hora de almoço era passada a conversar. E um ano se passou. 

Era ridículo abrir a gaveta e encará-lo a olhar para mim. Decidi que o melhor a fazer em nome da minha sanidade mental era lê-lo.

Temos um jovem solitário que passa o seu tempo a caminhar por São Petersburgo. Num desses seus passeios, conhece a jovem Nástenka e nas noites seguintes encontram-se e partilham as suas histórias, sonhos e desilusões. 

Enquanto o jovem se apaixona por ela, Nástenka confessa que ama outro homem e espera pelo seu regresso. O protagonista aceita ajudá-la, alimentando, em silêncio, a esperança de que ela acabe por corresponder ao seu amor.

É um livro mínimo (87 páginas) sobre a solidão, o amor idealizado e o contraste entre o sonho e a realidade.

Porquê Noites Brancas? Dado que a cidade fica bastante a norte, parece que o Sol quase não chega a desaparecer, mantendo o céu iluminado durante toda a noite, e dando a ilusão que o dia nunca termina.

Noites Brancas foi uma das primeiras obras de Dostoiévski e, por isso, é um livro mais delicado e romântico. 

(e acho que pode ser uma boa porta de entrada para quem se quiser iniciar nos escritores russos)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Sou o seu silêncio, de Jordi Lafebre

Adoro Jordi Lafebre desde a série Verões Felizes, onde fez parceria com o franco-belga Zidrou. 

Na Feira do Livro de Lisboa, trouxe este Sou o seu silêncio, que tem estado indisponível no site da Wook, o que me levou a pensar que estava esgotado, mas nada mais falso. Está vivo e de boa saúde.

Sou o seu silêncio é um policial que tem lugar em Barcelona. 

Eva Rojas é uma jovem psiquiatra que perdeu a sua licença. E para a recuperar tem de ter consultas com um psiquiatra. Mas a sua incapacidade em acatar ordens é um dos traços mais marcantes da sua personalidade. 

Poucos dias antes, Penelope, uma das pacientes de Eva, pediu-lhe que a acompanhasse durante a leitura do testamento da sua avó (nota: a avó ainda não faleceu), porque a sua família é muito peculiar (e fonte de vários dos problemas que Penelope costuma abordar nas suas consultas).

Durante esta reunião, um dos membros da família morre em circunstâncias muito dúbias e Eva começa a investigar por conta própria (apesar das inúmeras ordens da polícia para que pare). 

É um livro muito bom. Mistura um certo tom policial com um tom de comédia e torna-se impossível não adorar Eva, apesar de ser alguém muito pouco convencional.

Tudo neste livro é bom. Recomendadíssimo.



sábado, 25 de julho de 2026

Os dez espelhos de Benjamim Zarco, de Richard Zimler

Tenho muita coisa para pôr em dia. Mais uma vez, descuidei-me no meio do processo entre ler e publicar. 

(já tenho idade e experiência suficientes para saber que o resultado não é cool)

Vou começar cronologicamente: do mais antigo para o mais recente.

O que dizer de Os dez espelhos de Benjamim Zarco? Sinceramente, foi o que menos gostei da série Zarco. 

Benni (Benjamin) e o primo Shelly são os únicos sobreviventes do Holocausto da sua família. Enquanto que o primeiro, ainda criança, conseguiu fugir do gueto de Varsóvia e foi acolhido por uma professora polaca de piano, o segundo (mais velho) conseguiu fugir para o Canadá. Finda a guerra, conseguiram voltar a reunir-se. 

Mas a vida de ambos foi preenchida pelos silêncios das memórias e nunca partilharam nada com as suas famílias. E isso fez com que elas se sentissem excluídas de partes fundamentais da sua própria existência. 

O meu problema com este livro é que me pareceu muito repetitivo: as personagens andavam sempre à volta das mesmas coisas e tornavam-se algo aborrecidas. Não me consegui conectar com nenhum dos primos e custou-me um bocado chegar ao fim da leitura. Às tantas, houve uns momentos de carácter mais místico, que me pareceram forçados na narrativa.

Não vou, por isso, alongar-me. Sinceramente, tenho bastante pena de não ter gostado, porque gosto bastante da escrita de Zimler. Ainda tenho como referências de livros de topo Os Anagramas de Varsóvia e O Último Cabalista de Lisboa. Mas Os dez espelhos de Benjamim Zarco, é um 3 para mim.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Quando servi Gil Vicente, de João Reis

João Reis é um dos meus autores preferidos. 
Desde A Avó e a Neve Russa, tenho tudo o que ele escreveu - excepto A Devastação do Silêncio (está esgotado. Alguém tem para venda? Eu compro!). 

Os livros dele, normalmente, são pequenos (até às 200 páginas). As histórias são, aparentemente, simples, mas com uma poética que não tenho encontrado com frequência em outros escritores. As linguagem é sempre muito cuidada e vejo em cada linha um carinho especial pela escolha de cada expressão. Nada está ao acaso. 

O narrador de Quando Servi Gil Vicente é Anrique de Viena, o fiel servo do "pai" do teatro português (por esta altura, o Auto da Barca do Inferno ainda é uma cena nas escolas, certo?).
Após ter estado ausente durante alguns anos, Anrique regressa para acompanhar o mestre na reta final da sua vida. 
Gil Vicente é, nesta fase, um homem velho, cansado e teimoso. E Anrique é aquele que o ampara, cuida e providencia tudo para que o velho mestre ainda possa escrever. 

Neste livro, vamos acompanhar os dois homens em alguns momentos que misturam situações caricatas com outras mais emocionais.

Aviso já que a linguagem é diferente. Vamos ter um João Reis que encarna a linguagem do século XVI, o que para gentes do século XXI pode ser complicado. 

Se anteriormente disse que João Reis tem imenso cuidado com a linguagem, neste livro, levou esse cuidado a um outro nível. 

Não foi o meu preferido dele - a distopia Cadernos da Água ou A Noiva do Tradutor conquistaram-me o coração - mas é uma obra muitíssimo interessante. 

Estava a esquecer de referir que li este livro no âmbito do clube de leitura "Regaleira de Livros". O tema de junho era autor nacional. 

sábado, 13 de junho de 2026

Feira do Livro de Lisboa 2026

Mais um mês de junho, mais uma ida à Feira do Livro. 

Desta vez, ia com a expectativa de comprar apenas autores portugueses. Levava a minha lista e estava tudo pensado. Acho que, pela primeira vez, tinha um plano. 

Comprei, este ano, apenas 4 livros: dois da minha lista e outros 2 extra-lista (#sorrybutnotsorry)

Comecemos pelo início: Agustina e Ferreira de Castro estavam na lista. Êxito total e absoluto (Cristina recebe palmadinha nas costas).

Já quanto a Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque. Não estava nos planos, nem na lista. Mas a Saída de Emergência tinha uma promoção "compre 4, pague 3). O Henrique tinha 2 livros. O Luís mais um. Escolhi o 4.° para usufruirmos da promoção. A Oeste Nada de Novo é um dos meus livros da vida e deste homem só pode ser bom.

Sou o teu silêncio é de Jordi Lafebre (já leram a maravilhosa série Verões Felizes, com o Zidrou?). Um policial cuja ação acontece em Barcelona. 

Havia (muitos) outros livros que eu quero, mas que, mesmo a preço de Feira, estão ainda bastante caros, comparando, por exemplo, com o respetivo ebook na loja do Kobo. 

Foi isto. Txaran!

quarta-feira, 10 de junho de 2026

A Mãe de Frankstein, de Almudena Grandes

Senhoras e senhores, está na hora de pôr em dia, aqui, a chafarica.

O último post, com data de 18 de maio, foi de um livro que tinha lido 2 anos antes. E o post antes desse, de 7 de maio, foi de um livro que efetivamente tinha terminado recentemente. 

Depois de Hail Mary, realmente não li muito. Para maio, o tema do clube de leitura era "livro com uma relação maternal" e este, tendo "mãe" no título, pareceu-me adequado.

A Cristina de abril/maio era tão inocente. Abençoada alma!

A ação tem lugar em 1954, em plena ditadura franquista e passa-se sobretudo no hospital psiquiátrico feminino de Ciempozuelos, perto de Madrid.

Germán Velázquez, psiquiatra, volta a Espanha depois de alguns anos de exílio na Suíça. Vem trabalhar para Ciempozuelos, a convite de um antigo aluno do seu pai, também ele psiquiatra. 
Depois de anos na Suíça, Velásquez encontra um país acorrentado e bastante atrasado e conservador. 

Neste hospital, ele fica responsável por uma doente especial: Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher que 20 anos antes, havia assassinado a filha. 

Convém referir que esta personagem foi uma pessoa real e que este assassinato aconteceu realmente. 
Aurora assumiu a concepção da filha Hildegart como um projeto pessoal de desenvolvimento de uma pessoa superior. Quando percebeu que a filha estava a ganhar independência e a afastar-se dos seus planos, matou-a (aqui está o paralelismo com Frankstein e o monstro que criou).
Internada há mais de 20 anos, Aurora continua sem demonstrar arrependimento.

Velásquez faz amizade com Maria, uma jovem auxiliar do hospital. 
O avô tinha sido jardineiro do hospital e, curiosamente, durante o seu crescimento, Maria foi educada... por Aurora. Esta ensinou-lhe história, geografia, ciências, e Maria sempre viu esta mulher um olhar diferente de todas as outras pessoas que só viam alguém que assassinou a filha. 

Este vai ser o núcleo central da trama. E os capítulos vão circulando do ponto de vista destas 3 personagens.

Entre Velásquez e Maria vai nascer uma relação de grande afeto (um quase amor que ambos desesperam por ter) que vai bater de frente com a diferença de classes (ele medico, estudado no estrangeiro e ela, filha de comunistas e neta de um simples jardineiro) e com os preconceitos da sociedade da altura.

O livro está tremendamente bem escrito da primeira à última página. Apesar das suas 500 e qualquer coisa páginas, não houve nada que achei que estivesse a mais, como acontece com alguns livros mais volumosos. 

Vamos assistir de camarote à corrupção política e da Igreja, aos maus tratos infligidos aos mais fracos, à condição inferior da mulher em vários estratos da sociedade espanhola...

A Mãe de Frankstein é um livro incrível a todos os níveis. 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A mais preciosa mercadoria, de Jean-Claude Grumberg

Pensava, honestamente, que ia fazer um repost de uma postagem. Mas fui apanhada na curva: nunca escrevi sobre um dos livros mais bonito que li sobre o Holocausto. 

Não é uma história real, não é um livro sobre uma qualquer profissão em Auschwitz, nem nenhuma biografia escrita na primeira pessoa... É um pequeno conto de 118 páginas que me levou às lágrimas. 

"A história de um bebé que não chegou a Auschwitz" lemos na capa. 

Fazendo fé no Goodreads, li este livro em março de 2024. E se formos consultar os arquivos aqui da chafarica, veremos que só publiquei conteúdos a partir de maio. Razão pela qual fui apanhada desprevenida. 

Acontece que, este domingo, a fazer zapping encontrei num qualquer TV Cine desta vida a informação sobre o filme deste livro. Pouco mais de 1h20 de filme, em animação, e emocionante o suficiente para me fazer chorar outra vez. 

Um casal de lenhadores vivia na floresta, por onde passava um comboio de mercadorias. Era inverno e a fome apertava. Ao vê-lo passar, a mulher rezava para que, um dia, Deus lhe oferecesse algo, qualquer coisa... Até que um dia, umas mãos deixam cair um embrulho, a poucos pés de distância da pobre lenhadora.

Num outro arco, um casal de judeus viaja num comboio, com dois bebés. O pai, desesperado, ao passar por uma floresta, tem uma ideia e faz uma escolha impossível.

O resto é a história. Esta história.

Pensava eu que vinha fazer o repost de uma publicação de há 2 anos. E afinal, vim escrever sobre um dos mais belos contos que já li.