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terça-feira, 16 de junho de 2026

Quando servi Gil Vicente, de João Reis

João Reis é um dos meus autores preferidos. 
Desde A Avó e a Neve Russa, tenho tudo o que ele escreveu - excepto A Devastação do Silêncio (está esgotado. Alguém tem para venda? Eu compro!). 

Os livros dele, normalmente, são pequenos (até às 200 páginas). As histórias são, aparentemente, simples, mas com uma poética que não tenho encontrado com frequência em outros escritores. As linguagem é sempre muito cuidada e vejo em cada linha um carinho especial pela escolha de cada expressão. Nada está ao acaso. 

O narrador de Quando Servi Gil Vicente é Anrique de Viena, o fiel servo do "pai" do teatro português (por esta altura, o Auto da Barca do Inferno ainda é uma cena nas escolas, certo?).
Após ter estado ausente durante alguns anos, Anrique regressa para acompanhar o mestre na reta final da sua vida. 
Gil Vicente é, nesta fase, um homem velho, cansado e teimoso. E Anrique é aquele que o ampara, cuida e providencia tudo para que o velho mestre ainda possa escrever. 

Neste livro, vamos acompanhar os dois homens em alguns momentos que misturam situações caricatas com outras mais emocionais.

Aviso já que a linguagem é diferente. Vamos ter um João Reis que encarna a linguagem do século XVI, o que para gentes do século XXI pode ser complicado. 

Se anteriormente disse que João Reis tem imenso cuidado com a linguagem, neste livro, levou esse cuidado a um outro nível. 

Não foi o meu preferido dele - a distopia Cadernos da Água ou A Noiva do Tradutor conquistaram-me o coração - mas é uma obra muitíssimo interessante. 

Estava a esquecer de referir que li este livro no âmbito do clube de leitura "Regaleira de Livros". O tema de junho era autor nacional. 

sábado, 13 de junho de 2026

Feira do Livro de Lisboa 2026

Mais um mês de junho, mais uma ida à Feira do Livro. 

Desta vez, ia com a expectativa de comprar apenas autores portugueses. Levava a minha lista e estava tudo pensado. Acho que, pela primeira vez, tinha um plano. 

Comprei, este ano, apenas 4 livros: dois da minha lista e outros 2 extra-lista (#sorrybutnotsorry)

Comecemos pelo início: Agustina e Ferreira de Castro estavam na lista. Êxito total e absoluto (Cristina recebe palmadinha nas costas).

Já quanto a Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque. Não estava nos planos, nem na lista. Mas a Saída de Emergência tinha uma promoção "compre 4, pague 3). O Henrique tinha 2 livros. O Luís mais um. Escolhi o 4.° para usufruirmos da promoção. A Oeste Nada de Novo é um dos meus livros da vida e deste homem só pode ser bom.

Sou o teu silêncio é de Jordi Lafebre (já leram a maravilhosa série Verões Felizes, com o Zidrou?). Um policial cuja ação acontece em Barcelona. 

Havia (muitos) outros livros que eu quero, mas que, mesmo a preço de Feira, estão ainda bastante caros, comparando, por exemplo, com o respetivo ebook na loja do Kobo. 

Foi isto. Txaran!

quarta-feira, 10 de junho de 2026

A Mãe de Frankstein, de Almudena Grandes

Senhoras e senhores, está na hora de pôr em dia, aqui, a chafarica.

O último post, com data de 18 de maio, foi de um livro que tinha lido 2 anos antes. E o post antes desse, de 7 de maio, foi de um livro que efetivamente tinha terminado recentemente. 

Depois de Hail Mary, realmente não li muito. Para maio, o tema do clube de leitura era "livro com uma relação maternal" e este, tendo "mãe" no título, pareceu-me adequado.

A Cristina de abril/maio era tão inocente. Abençoada alma!

A ação tem lugar em 1954, em plena ditadura franquista e passa-se sobretudo no hospital psiquiátrico feminino de Ciempozuelos, perto de Madrid.

Germán Velázquez, psiquiatra, volta a Espanha depois de alguns anos de exílio na Suíça. Vem trabalhar para Ciempozuelos, a convite de um antigo aluno do seu pai, também ele psiquiatra. 
Depois de anos na Suíça, Velásquez encontra um país acorrentado e bastante atrasado e conservador. 

Neste hospital, ele fica responsável por uma doente especial: Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher que 20 anos antes, havia assassinado a filha. 

Convém referir que esta personagem foi uma pessoa real e que este assassinato aconteceu realmente. 
Aurora assumiu a concepção da filha Hildegart como um projeto pessoal de desenvolvimento de uma pessoa superior. Quando percebeu que a filha estava a ganhar independência e a afastar-se dos seus planos, matou-a (aqui está o paralelismo com Frankstein e o monstro que criou).
Internada há mais de 20 anos, Aurora continua sem demonstrar arrependimento.

Velásquez faz amizade com Maria, uma jovem auxiliar do hospital. 
O avô tinha sido jardineiro do hospital e, curiosamente, durante o seu crescimento, Maria foi educada... por Aurora. Esta ensinou-lhe história, geografia, ciências, e Maria sempre viu esta mulher um olhar diferente de todas as outras pessoas que só viam alguém que assassinou a filha. 

Este vai ser o núcleo central da trama. E os capítulos vão circulando do ponto de vista destas 3 personagens.

Entre Velásquez e Maria vai nascer uma relação de grande afeto (um quase amor que ambos desesperam por ter) que vai bater de frente com a diferença de classes (ele medico, estudado no estrangeiro e ela, filha de comunistas e neta de um simples jardineiro) e com os preconceitos da sociedade da altura.

O livro está tremendamente bem escrito da primeira à última página. Apesar das suas 500 e qualquer coisa páginas, não houve nada que achei que estivesse a mais, como acontece com alguns livros mais volumosos. 

Vamos assistir de camarote à corrupção política e da Igreja, aos maus tratos infligidos aos mais fracos, à condição inferior da mulher em vários estratos da sociedade espanhola...

A Mãe de Frankstein é um livro incrível a todos os níveis.