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domingo, 19 de janeiro de 2020

Lido: Os Bebés de Auschwitz, de Wendy Holden

Atrasada, atrasada, atrasada... é assim que estou na publicação das minhas primeiras leituras de 2020. Muitas coisas para organizar, reuniões e trabalho ocuparam grande parte do meu tempo nos últimos dias. Mas, continuei a ler.

Iniciei o ano com Os Bebés de Auschwitz, de Wendy Holden, para participar nos projetos da Dora e da Sara Cristina: #hol75 e #vozesdoholocausto, respetivamente (para saberem do que estou a falar, basta seguirem os links que vos levarão aos vídeos explicativos).

Eu sabia que este livro me ia deixar perturbada. Desde o 1.º dia em que soube que estava grávida do Henrique, qualquer filme ou livro que envolva crianças deixa-me apreensiva. Tem sido assim desde o Verão de 2012. Depois do Henrique nascer, esta "coisa" piorou exponencialmente. E ler este livro, não me deixou melhor. Não chorei baba e ranho, mas ia fazendo longos intervalos entre leituras, porque as gravidezes das três mulheres ali descritas, foram tão diferentes da minha como água e vinho o são entre si. Ao menor desconforto, eu sabia que tinha o número do médico que me seguia e podia contar com ele. Fiquei, de baixa, a repousar, desde janeiro, quando o Henrique só nasceria em março. Tive um parto, através de cesariana, o mais confortável possível. Estive num quarto de hospital só para mim, com enfermeiras à distância de um toque de campainha.

Estas mulheres não tiveram absolutamente nada disto.

Estas mulheres viviam em condições desumanas, num campo de concentração, onde estavam doentes, com fome, com sede, sem descanso, sem acompanhamento, a trabalharem horas a fio, e com a permanente sensação que cada dia podia ser o último.

É certo que, as histórias individuais de cada uma, antes de tudo descambar, às duas por três, eram muito semelhantes. O livro apenas peca nesse aspeto. No início, somos apresentados a cada uma das mulheres Priska, Rachel e Anka, individualmente. São nos apresentados os seus antecedentes: a história de família, os estudos, as relações de amor e/ou amizade de cada uma delas, os namoros, os casamentos, a ascensão de Hitler, as invasões, as tentativas de fuga... cada mulher, um capítulo. Tornava-se um bocadinho confuso, porque, no geral, eram histórias algo semelhantes. Até que, um pouco mais para a frente, a autora opta por fazer capítulos gerais (Auschwitz, Freiberg, O comboio, Mauthausen, Libertação, Casa, etc..) o que acabou por tornar a leitura mais fluída. 

Uma das coisas interessantes, foi a autora ter deixado suficientemente claro que nenhuma das grávidas sabia das outras duas, partindo do princípio que seria a única a passar por aquele inferno, deixando ao leitor, a "missão" de entender o quão solitária cada uma se sentia.

Não foi uma leitura que me desse prazer. Não foi uma leitura que me deixasse feliz, ou com uma sensação de bem-estar. Muito pelo contrário; mas continuo a participar nestes projetos e nestes desafios, porque acho que é importante perpetuar estas memórias, para que não caiam no esquecimento. 

No fim, todas sobreviveram, todas deram à luz (duas no comboio e a terceira, literalmente, às portas do campo de Mauthausen), e os bebés - Eva Clarke, Mark Olsky and Hana Berger Moran - acabaram por se conhecer já muito mais tarde, há 10 anos, sensivelmente. Este ano, cada um deles comemora o seu 75.º aniversário, e continuam a dar-se como se de verdadeiros irmãos se tratassem.

Os Bebés de Auschwitz: Eva, Mark e Hana - foto de Eva Clarke, publicada no The Times of Israel

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Lido: Saga, volume 4, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Esta é, no fundo, minha novela mexicana. E foi também a última leitura de 2019. Finalmente, alcançámos o 92.º livro do ano velho.


Não vale a pena estar a falar muito do enredo, mas, em breves palavras, Alana e Marko são soldados de lados opostos num conflito intergalático, que já ultrapassou as fronteiras do lar dos protagonistas. Às tantas, apaixonam-se e Alana acaba por engravidar e dar à luz uma criança (Hazel). Para ambos os lados, esta criança é o símbolo da traição, e não poupam esforços na sua perseguição.

Neste 4.º volume, Alana, Marko, Hazel, Klara (a mãe de Marko) e Izabel (uma fantasma que atua como babysitter de Hazel), estão escondidos. Alana trabalha com um grupo de atores que usam sempre máscaras, logo não corre o risco de ser reconhecida e denunciada.

Marko é pai a tempo inteiro, e aborrece-se com o facto dele e Alana já não comunicarem. A determinada altura conhece, num parque infantil, conhece uma mãe com quem inicia uma relação de amizade.

Por outro lado, o Príncipe Robot IV foi pai, mas o filho é raptado e a mulher assassinada. O perpetuador acaba por ter também uma enorme influência na dinâmica familiar dos nossos protagonistas.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Lido: Batman - O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller

Estou a chegar às últimas leituras de 2019. Tenham paciência comigo.

Outro livro que veio connosco do Amadora BD, em outubro, foi Batman - O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Vejam o tempo que demorei a chegar a estes livros!!! Incrível!!! Mas, alegrem-se os espíritos, já não tenho mais livros do Amadora BD em falta.


Este livro mostra-nos um Bruce Wayne já sexagenário. Na reforma, há cerca de 10 anos, Batman já foi elevado ao estatuto de "mito" pelas gerações mais novas que apenas ouviram falar do justiceiro de Gotham City. O Comissário Gordon, com 70 anos, também está prestes a reformar-se. Gotham continua igual a si própria: violenta, suja, revoltada...

Harvey Dent está prestes a ser reintegrado, após 12 anos no Arkham Asylum. Todos estes pequenos "nadas" fazem com que Wayne traga ao de cima vários dos seus traumas e renasce aquela vontade de voltar. Numa dessas saídas noturnas, salva duas adolescentes, Michelle e Carrie, dos Mutantes, vilões introduzidos por Miller neste universo.

Carrie procura, por todos os meios, conhecer Batman, até que finalmente é aceite como sua parceira, a nova Robin, numa fase mais decadente da "carreira" deste herói.

Mas, obviamente, nada é tão linear como parece à primeira vista. Achei especialmente interessante foi ver o Batman envelhecido. A humanização do herói. Estamos acostumados a que os super-heróis sejam geneticamente alterados, picados por animais radioativos, aliens, deuses antigos, criaturas mitológicas... em Batman, temos um homem, igual a todos os outros que se torna uma referência. Mas, uma referência, um herói que sente dores, que envelhece, que se apercebe da sua própria mortalidade... e é isso que o tornou, aos meus olhos, tão fascinante.

Este livro contou para a maratona da Phoenix Flight e da Croma dos Livros: Estações Literárias, na categoria "livro com capa com tons de azul e branco". 

sábado, 4 de janeiro de 2020

Lido: Dampyr - O Suicídio de Aleister Crowley

Já não me lembro bem quando tive conhecimento deste livro. Acho que foi depois de um passeio pela Boca do Inferno. Ao chegar a casa, fui tentar perceber como é que duas pessoas tão diferentes como Pessoa e Crowley se haviam conhecido e este livro foi um dos resultados do Google.

A capa é maravilhosa!!!

Este ano, durante o Amadora BD, vimo-lo e imediatamente pegámos nele para o trazer para casa. Aliás, havia uma exposição dedicada a esta obra e que estava muito interessante.

A foto não faz justiça ao cenário... estava absurdo de tão bom!

Posto isto, claro que O Suicídio de Aleister Crowley tinha de ser lido. O homem já o tinha lido e gostou bastante. Não adorei tanto como ele, por uma simples razão: senti que me faltava informação. Este livro faz parte de uma série, protagonizada por uma personagem mestiça: metade vampiro, da parte do pai, e metade humano, da parte da mãe. Este Dampyr percorre o mundo atrás de criaturas sobrenaturais.

E faltou-me, precisamente, esse background sobre as personagens. No final do volume, estão pequenas notas biográficas, mas só me apercebi disso... adivinhem?! Isso mesmo, no fim.

Estamos em 1930, e Pessoa sai de uma casa de fados no Bairro Alto. Pouco depois, é abordado por um inspetor da Polícia que pretende fazer-lhe algumas perguntas sobre o desaparecimento de Crowley, já que, Pessoa teria sido o último a vê-lo com vida.

A história dá um salto para a atualidade e Ann Jurging, uma vidente alemã com poderes paranormais, ouve um vinil de Berta Cardoso (1911-1997). A vidente está a investigar o desaparecimento de Crowley e pressente que o fado português terá alguma ligação.

E é dentro destes dois espaços-temporais que a história se desenrola. E todo o ambiente é fantástico. É, ainda, nos dado de bandeja, um cheirinho de Lovecraft.

A narrativa, na modesta opinião de alguém que é perfeitamente analfabeta neste tipo de literatura, é altamente original. E a arte é muito bonita: as criaturas, o Poço Iniciático na Quinta da Regaleira, o próprio Pessoa... o nível de detalhe é impressionante. Eu precisava de morrer e nascer outra vez para conseguir desenhar assim.
O facto desta graphic novel ser a preto e branco é muito interessante. Se fosse a cores, acho que se perdia um bocado deste ambiente "noir" que se pretende.

Este livro foi lançado pela A Seita, uma editora de banda desenhada, nascida em 2019. De acordo com a sua página de Facebook o seu "core" são "livros de banda desenhada de proveniência vária, mas com uma ênfase grande (neste momento!) em autores portugueses, e em títulos da editora italiana Bonelli, em particular Dylan Dog". Já tem um catálogo com uns título bem simpáticos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Lido: O Palácio da Meia-Noite, de Carlos Ruiz Zafón

Antes de mais, feliz 2020. Saúde da boa, que o resto vem por acréscimo. Este será o meu primeiro post deste novo ano, contudo, ainda referente a leituras de 2019. Mais uns quantos se seguirão, fica já o aviso.

Juro que comecei a escrever no dia 29 de dezembro, mas... convenhamos... a preguiça era demasiada, e fui empurrando com a barriga a atualização deste cantinho. E, as boas intenções de terminar o ano velho com o blogue "em dia" foram-se...

Adiante...

Ainda em dezembro, como disse acima, fui à biblioteca com o Henrique. Era o primeiro dia de férias dele, e precisávamos de leituras novas para os dias que se seguiriam (mal eu sabia que ele iria começar a ficar com febre menos de 24 horas depois).

 Acabei por trazer, para mim, O Palácio da Meia-Noite do Zafón. Para quem já leu três dos quatro volumes da série do Cemitério dos Livros Esquecidos, ler este O Palácio da Meia-Noite é dar um passo atrás.

Atenção: não é um mau livro. Não é isso que quero dizer. É um livro certinho. Cumpre a missão. O próprio autor, no prefácio, escreve que este livro está inserido numa trilogia destinada a um público mais jovem. E, creio, que se o tivesse lido antes de A Sombra do Vento, teria tirado muito mais prazer. É um livro engraçado, lê-se bem, mas não é a última Coca-Cola do deserto. MAS... pessoas-ali-nos-seus-16-anos, podem mandar-se a ele sem receios.

Hoje em dia - e ainda há uns dias se conversava cá em casa sobre o assunto - parece que já não há meios termos. Seja em livros, filmes ou séries, há um movimento extremo: ou somos da equipa "ADORO", ou somos da equipa "ODEIO". Quero com isto apenas sublinhar que este livro não me preencheu as medidas.

Li-o rapidamente, até porque não é um livro muito grande (279 páginas), e a história é gira. Mas, lá está: não é A Sombra do Vento, nem O Jogo do Anjo (que da séria do Cemitério dos Livros Esquecidos, acho que é o mais fraco), nem mesmo o Marina...
O Zafón eleva-me as expetativas e depois dá nisto: um post aos soluços, comigo a tentar justificar as três estrelas que lhe dei.

Vamos à história: somos introduzidos na narrativa por alguém que não sabemos ainda quem é e que nos vai contar os acontecimentos do mês de Maio de 1932, em Calcutá. Mas antes de lá chegarmos, vamos conhecer tudo o que se passou 16 anos antes, em Maio de 1916. Um homem, com duas crianças recém-nascidas, está a ser perseguido. Vai ligeiramente adiantado aos seus perseguidores, e consegue, deixá-las a salvo com a avó. Ainda não sabemos bem o que se passa, mas a senhora percebe imediatamente. O homem, o tenente Peake, depois de deixar os bebés, refaz os seus passos, encontra aqueles que o perseguiam e acaba por ser morto.

A ação volta para a casa da avó dos bebés. A mulher identifica-os - uma menina e um menino - com uma medalha e começa a escrever uma carta. A ação volta a saltar. Estamos no dia seguinte, no orfanato de St. Patrick, e Thomas Carter, o diretor daquela instituição, está surpreendido ao ver um bebé, deixado à porta, bem como com a carta que o acompanha, algo incomum em Calcutá, naquela altura. No mesmo dia, recebe a visita de uma misteriosa personagem que pergunta especificamente por um bebé, rapaz, abandonado. Seguindo as instruções deixadas na carta, Thomas Carter faz-se de desentendido, contudo o misterioso homem promete voltar daí a 16 anos.

Passam-se 16 anos. Estamos em Maio de 1932, e um grupo de órfãos de St. Patrick prepara-se para deixar aquele lar. Já têm 16 anos, e é a idade limite para ali permanecerem. No dia da festa de despedida, aparece Aryami Bosé, acompanhada da neta Sheere, que logo simpatiza com Ben, um dos rapazes do orfanato (já estão a ver onde é que isto vai parar, certo?). A senhora é, sem dúvida, avó de Ben. Logo Ben e Sheere são os gémeos que estão a ser procurados, há 16 anos, pela espectral figura de Jawahal.

À boa maneira de Zafón, o autor introduz-nos então num universo fantástico, com perseguições, personagens do além e mistérios incríveis que nos fazem percorrer Calcutá, e a desejar visitar a cidade.

Esta leitura foi a 89.ª do ano de 2019, e contou também para a Maratona Estações Literárias da Phoenix Flight e da Croma dos Livros, na categoria "livro com uma tempestade". 

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Lido: Vozes de Chernobyl, de Svetlana Alexievich

À semelhança do que li em A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, Svetlana Alexievich voltou a procurar aqueles que tinham algo para contar.

A autora, mais do que escriba, mais do que jornalista, mais do que escritora, saber ler as pessoas e fazê-las falar. Vozes de Chernobyl foi publicado 11 anos após o desastre nuclear, e agora ganhou novo fôlego com a série da HBO (que ainda não vi).

(é tudo tão horrível que, talvez esta venha a ser o texto mais pequeno que irei alguma vez publicar neste blogue. Ou não. Neste ponto ainda não sei. Sou muito orgânica, e raramente apago o que escrevi antes e publico "à primeira")

Há meses quando li os relatos das mulheres e o seu papel na guerra, disse que tinha sido um livro que não me tinha dado prazer algum.E este acompanha essa minha primeira opinião. Especialmente os relatos das mulheres que perderam filhos, ou os testemunhos das crianças. Esses doeram-me profundamente. Desde o 1.º dia em que soube que estava grávida, a minha sensibilidade para estes temas aumentou a níveis impensáveis.

O estilo da autora é único. O que faz é pegar na sua experiência de jornalista e compor textos com base em entrevistas. Durante meses, procura as pessoas, passa tempo com elas, conversa com elas, ganha a sua confiança e entrevista-as, fá-las falarem mesmo daquilo que pretendem esquecer. Os livros de Svetlana Alexievich são retratos, são mini-documentários em formato escrito, são a memória de quem, inevitavelmente, irá morrer... mas essas palavras escritas irão ficar para sempre. E esse é o grande poder. 

* * *

Muito raramente um país está preparado para lidar com tragédias. Sejam atentados, sejam acidentes industriais, sejam incêndios, inundações, terramotos, furacões... you name it. Ninguém está preparado para lidar com isso, por melhor preparado que esteja. Mas, a forma como a URSS lidou com este drama é inenarrável.
Desde esconder informações, desde não equipar os "voluntários" (meto entre aspas, porque estes supostos voluntários, eram convocados para comparecer), desde acusar supostos espiões de sabotagem... correu tudo mal desde o 1.º minuto. Lidar com vidas não é, nem nunca deverá ser, política. Revoltante, no mínimo.

De Svetlana, em Portugal, existem mais três livros e eu não sei se tenho coragem para voltar a ela.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Lido: A Espada do Destino, de Andrzej Sapkowski - COM SPOILERS

Um dos meus objetivos para este mês está cumprido: terminar A Espada do Destino - 2.º volume da saga The Witcher do polaco Andrzej Sapkowski.

Torna-se muito complicado falar de uma série de livros, sem revelar spoilers. Portanto, um bocadinho lá mais para a frente, vou falar da trama do livro, mas avisarei antecipadamente.

* * *

Havia lido o 1.º volume (O Terceiro Desejo), em agosto, durante as férias. Tinha adorado e comprámos o 2.º volume quase imediatamente. Terminei-o há três dias, mas entretanto o pequenino cá de casa começou com febre, e o tempo para o post, escapou-se por entre os dedos.

Continuamos a seguir as aventuras de Geralt, o nosso "witcher", caçador de criaturas e monstros. Logo, neste livro, Geralt conhece um homem algo extravagante que o convida a juntar-se a ele. Seguindo o seu instinto de "não tenho nada melhor para fazer agora", Geralt aceita o convite. Entretanto, ouvem falar de uma grande caça a um dragão, e levados pela curiosidade, seguem a caravana. Até que surge o nome de "Yennefer", a feiticeira que arrebatou Geralt. E é nesse momento que o seu interesse nessa caçada desperta.

Tal como o nome do livro bem apresenta, o "destino" é uma constante neste livro. O seu papel é tremendo. E é esse mesmo destino que irá juntar Geralt e a princesa Ciri, que conhecemos de ouvir falar no primeiro livro.

Antes de passar aos spoilers, quero dizer que gostei mais deste livro do que do 1.º. Em O Terceiro Desejo conhecemos muito de Geralt, mas mais através de "short stories"; o livro é, basicamente, um conjunto de contos de situações que Geralt enfrentou, ou histórias que são contadas por terceiros.
Neste volume, temos uma narrativa mais consistente, mais com cabeça-tronco-e-membros, apesar de Sapkowski continuar a jogar com o tempo: anda para a frente e para trás e "brinca" com as memórias de Geralt, oferecendo-as ao leitor como se jogasse à sueca, e guardasse o trunfo para o fim da partida.

5 estrelas, claro, de caras. A fantasia está a tornar-se, cada vez mais, um género em que irei apostar em 2020. E The Witcher está, obviamente, nos meus planos. Sobre a série, já vi o 1.º episódio e não estou nada desiludida. E o Henry Cavill está muito bem - ajuda bastante ele ser um fã do género e de Geralt em particular.

- SPOILERS a partir daqui - 

Para quem como eu, está a começar a ler agora esta saga, só neste momento nos apercebemos que algo mais grave do que a "simples" presença de monstros fantásticos está prestes a acontecer: o império de Nilfgaard está a invadir vários reinos do Sul.

Geralt esteve bastante doente após o encontro com uma criatura que o fere com gravidade, e está completamente alheado da situação. Durante este tempo, é sua mãe (uma feiticeira) quem cuida dele. É a 1.ª vez que se reencontram desde a infância de Geralt, e é um encontro bastante tocante.
Apenas quando descobre que um dos reinos já destruídos foi Cintra é que a sua preocupação se manifesta. Recorde-se que, no 1.º volume, ele invoca a "Lei da Supresa" após levantar uma maldição: ele reclama algo inesperado. Pavetta, a princesa de Cintra, sem que ninguém saiba, está grávida. E é Ciri, a princesinha por nascer, que irá estar na linha do destino de Geralt.

Após 6 anos, tal como combinado, Geralt dirige-se a Cintra para reclamar a sua criança (que ele, na altura ainda não sabia que era uma menina), para educar na arte de bruxo. Calanthe, a rainha, recusa e aponta para um grupo de crianças: Geralt poderá levar qualquer uma delas, se for o herdeiro de Cintra, tanto melhor... Geralt volta atrás, e recusa pegar em qualquer uma delas.

Anos mais tarde, quando Cintra cai, Calanthe quase a morrer, diz à neta, a princesa Ciri, que deverá procurar Geralt de Rívia, que ele é o seu destino.

Após recuperar dos tais ferimentos, de conhecer a sua mãe, de saber da queda de Cintra, Geralt que já havia conhecido, anteriormente, Ciri em outras circunstâncias, está mortificado por esta catadupa de informações. Até que, nos parágrafos finais, reencontra a princesa que manifesta querer segui-lo.

Mais do que tudo, agora quero ver como é que esta relação vai crescer. Quem chegou até aqui e está ao mesmo "nível" que eu: o que esperam do 3.º volume?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O que vou ler até ao fim do ano?

Acho que já referi que, após o falecimento do meu pai, entrei numa onda de não me apetecer muito ler. Desde há um mês, só terminei 6 livros - 4 eram graphic novels. Ao longo do ano, lia, em média 7,81 livros (fiz as contas) por mês. Portanto, 6 livros num mês e meio (não esquecer que 4 foram em formato BD!) é um número algo baixo.

Neste mês de dezembro, que já vai a meio, gostava de terminar Vozes de Chernobyl (ebook) que comecei ainda no mês passado. Estou, sensivelmente, a meio do livro.
Também quero terminar o 2.º volume da saga The Witcher, A Espada do Destino.
Como não tinha já demasiada sarna para me coçar, trouxe ainda da Biblioteca, mais um livro de Carlos Ruis Zafón.


E ler ainda as duas graphic novels que ainda ali estão desde o Amadora BD.


Meto as minhas metas baixinhas, porque assim a possibilidade de as alcançar é um pouco maior. Aprendi que o melhor é não fazer promessas (diz a pessoa que no início do ano, definiu 13 leituras para fazer, e ainda assim deixou por ler 5). 


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Lido: Joker e Frango com Ameixas

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo
e
Frango com Ameixas, de Marjane Satrapi

Decidi fazer um post único com as duas graphic novels que li, mais precisamente há uma semana, e que, vergonhosamente ainda não tinham sido alvo de post no blog.

 
Joker foi a primeira. É uma das compras do Amadora BD (ainda ali tenho mais duas que deverão ser lidas até ao fim do ano). Este livro foi comprado no seguimento do filme, mas, não tem nada a ver. Não se julgue que é o livro do filme, porque não é. Este álbum inclui duas histórias "Piada Mortal" e "Joker". Em ambas, assistimos ao escalar de loucura desta personagem. Na primeira, Joker foge do Arkham Asylum e consegue raptar o Comissário Gordon. Aqui temos acesso a uma das muitas versões da história de como Joker se tornou Joker. 

Na segunda história, Joker não foge do manicómio, mas é libertado. A ação é nos contada por Jonny Frost, um "associado" de um "associado" de Joker que foi incumbido de o ir buscar. E, nesse mesmo dia, decide vingar-se de todos aqueles que julga que o atraiçoaram durante o seu tempo fechado. 

Mas, mais do que o enredo, a arte deu cabo de mim. A minha área é Letras, percebo "zero" de Artes, mas fiquei louca com os detalhes, com as cores, com as sombras (essenciais ao retrato de Gotham City). Vale cada página. 

Há poucos dias, comprei na FNAC, o Frango com Ameixas da Marjane Satrapi, autora de Persépolis (que não li, mas tenho o filme). Este livro é substancialmente diferente do anterior. Neste, já não seguimos a nenhum momento da vida de Marjane, mas sim de um tio-avô. 

Nasser Ali Khan era tocador de tar, um instrumento de cordas tradicional das zonas de Irão, Azerbeijão, Geórgia e Arménia. Um dia, depois de uma discussão com a mulher, ela parte-lhe o seu tar. Nasser, inicialmente, tenta encontrar um instrumento substituto, até que desiste e deixa-se morrer, de desgosto. Ao longo dos dias, Nasser vai lembrando todas as pessoas e o seu percurso desde jovem, as frustrações, as pequenas alegrias... 

O registo gráfico é o mesmo que já conhecemos: a preto-e-branco. É uma história muito simples, mas muito interessante. Mantém aquele caráter biográfico que acompanha também alguns momentos da história de Teerão no final da década de 50. 

Tal como Persépolis, também este Frango com Ameixas foi adaptado ao cinema (informação adicional: está disponível no Youtube, dobrado em português do Brasil), com Maria de Medeiros a protagonizar o papel da esposa de Nasser Ali. 

Na minha opinião, está uns pontos abaixo de Persépolis, mas é uma obra muito muito interessante, e que merece que lhe prestem a devida atenção. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Lido: O Bom Inverno, de João Tordo

Nunca tinha lido nada de João Tordo. Imagine-se que nem sabia que é filho do Fernando Tordo (o
cantor... informação para a malta mais nova que, eventualmente, leia este texto). O meu desconhecimento chegada a este nível. Adiante. O importante nesta minha introdução é que nunca tinha lido nada dele.

Já tinha ouvido algumas coisas, mas nunca me tinha sentido impelida a ler alguma das suas obras. Recentemente, lançou um novo livro que me chamou a atenção - "A noite em que o Verão acabou". E a verdade é que o nome "João Tordo" já anda no mercado há bastante tempo, não é uma moda de Verão.

Numa ida à biblioteca com o Henrique, apesar de ter dito que não iria trazer nenhum para mim, porque tenho imensos ainda por ler, em casa, encontrei "O Bom Inverno". O que sabia do livro? Nada. Zero. Trouxe-o na mesma, sem ler sequer a sinopse. Podia ter corrido mal.

Mas correu bem. A leitura foi mesmo muito rápida, porque o livro leva-nos a isso mesmo. A história prende o leitor de forma a querermos descobrir o final. Apesar de "A noite em que o Verão acabou" estar a ser apresentado como o 1.º thriller de João Tordo, este "O Bom Inverno" tem muitas características de um livro desse género.

Temos um escritor a entrar num período decadente. Não consegue escrever. Teve um acidente e ficou muito magoado - inspirado pelo Doctor House, comprou inclusivamente uma muleta, para não coxear - e a namorada terminou com ele.
Numa altura em que a negritude lhe está a chegar em velocidade cruzeiro, é convidado para integrar o painel de uma conferência em Budapeste, com outros escritores europeus.

Lá, conhece um jovem escritor italiano que o convence a ir até Itália, à mansão de um poderoso produtor de cinema, longe de olhares indiscretos, por causa de um negócio que lhe poderá ser vantajoso.

Depois de uma noite agitada, com álcool e comprimidos para as dores, e com um grupo inusitado de personagens que aguardam a chegada do anfitrião, este é encontrado morto na manhã seguinte. Um dos empregados isola todos os envolvidos na mansão que, tal como eu já disse, fica localizada numa área longínqua. O objetivo é descobrir o assassino de Don Metzger, o referido produtor. E, tal como se espera, ninguém é exatamente o que parece ser.

Foi uma leitura muito interessante. E, genuinamente, fiquei com vontade de ler mais de João Tordo. É um livro que nos faz avaliar as escolhas que fazemos. O nosso protagonista podia não ter ido a Budapeste, mas precisava do dinheiro. E foi. Podia ter ignorado o escritor italiano. Não se identificava com ele, mas como estava intrigado com as suas companheiras. E, convenhamos: foi vencido pelo cansaço. Podia não tomar a medicação. Há todo um conjunto de "ses" nesta história. Tal como há um jogo de aparências que ganha uma dimensão gigante quando nos sentimos ameaçados.
É um livro que nos dá a sensação de claustrofobia. Além do mistério: quem matou Don?

O exemplar que li é da Biblioteca Municipal de Sintra, e foi editado pela Dom Quixote.