quinta-feira, 23 de maio de 2019

Próximas leituras

Estou bastante entusiasmada com as minhas próximas leituras. Tenho lido bastante, e quase sempre coisas que me têm dado prazer. E felizmente, que vou conseguindo inserir em projetos e maratonas que andam por aí.

Neste preciso momento em que estou a escrever este texto, tenho ainda em mãos o último livro da trilogia Sevenwaters, da Juliet Marillier. E, como entretanto, terminei Quando Lisboa tremeu, já estou pronta para ir apresentando os meus companheiros das próximas semanitas.


Comecemos com Tolkien. As Aventuras de Tom Bombadil será a minha 2.ª estreia (??!!) deste autor. Li, há muitooooossss anos, A Irmandade do Anel. Há tantos que nem me lembro. 

Além de fazer parte do meu projeto pessoal de conhecer J.R.R. Tolkien (comprei no início do ano a trilogia do Senhor dos Anéis, e pretendo também comprar O Hobbit, e este, se gostar muito), As Aventuras de Tom Bombadil serão para integrar no projeto da Isa, do blogue e canal, Jardim de Mil Histórias, "Ler + Biblioteca"

Como é linda a puta da vida, de Miguel Esteves Cardoso é para ler, algures, em junho, no âmbito do projeto da Patrícia Rodrigues, do blogue e canal O Prazer das Coisas, Lusiteratura. As categorias para o mês de junho são "livro escrito por um homem" e "clássico português". Tenho Saramagos ainda por ler, e um Lobo Antunes, mas estou mais inclinada para o MEC. Este livro já cá mora desde 2013/2014, sensivelmente, e nunca o li. Sei apenas que são crónicas que ele escreveu para o Público. 

E, terminando, a descrição dos livros da foto: As Noites das Mil e Uma Noites, de Naguib Mahfouz. Funny story - para a maratona da Volta ao Mundo, havia escolhido o Khaled Housseini para a categoria "países árabes". E aqui está a parte engraçada: o Afeganistão não é um país árabe. Malditos americanos que, com a mania, de bombardearem tudo, acabam por estragar a geografia de uma pessoa. Ali, num cantito do lado este (sensivelmente, mais metro, menos metro), o Afeganistão, por acaso, até tem fronteira com... a China. É um país asiático, meus amigos. E ninguém teve a hombridade de me chamar a atenção. Assim, fui dar uma nova volta aos meus livros, e encontrei este, que, por acaso, até contribui para o meu projeto pessoal de ler mais Nobel da Literatura - 1988. 
Agora não há confusão: Cairo, no Egito = país árabe. 

Quero ler também o 2.º volume de O Conde de Monte Cristo e o 2.º volume da trilogia das Três Coroas Negras. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Lido: Quando Lisboa tremeu, de Domingos Amaral

Há muito que estava interessada em ler Domingos Amaral. Não me perguntem porquê. Os títulos dos livros dele são sempre muito interessantes, e aborda diversos temas da História, seja ela mais contemporânea, ou não. 

Então, quando a Patrícia Rodrigues lançou o vídeo das categorias de maio do projeto #Lusiteratura, depois de muito pensar, optei por este Quando Lisboa tremeu. A premissa era simples: durante o terramoto de 1755, em Lisboa, um grupo de sobreviventes acaba, devido à força das circunstâncias, formar um grupo muito pouco comum. 

Temos Santamaria, um pirata, acompanhado pelo seu companheiro árabe, duas freiras, um rapaz de 12 anos que acredita à viva força que a sua irmã gémea continua viva debaixo dos escombros da sua casa, e um comerciante inglês. 

Todos eles procuravam algo mais das suas vidas, e o terramoto - e o caos que se seguiu - permitiu que tivessem a oportunidade de encontrar esse "algo mais". E, de alguma forma, as suas vidas estão ligadas entre si. 

Dei-lhe 3 estrelas. Não é um mau livro, atenção. Lê-se bem, confirma-se que Domingos Amaral sabe trabalhar com as palavras, tem uma linha de imaginação muito interessante, mas sinto que faltou qualquer coisa, que se perdeu qualquer coisa, entre as idas e vindas dos personagens. 

Uma coisa que me fazia revirar os olhos, confesso, eram as linhas de diálogo das personagens. Uma das freiras falava com sotaque do Norte, havia - de tempos a tempos - outra personagem brasileira, o inglês misturava o português com a sua língua nativa, o árabe não conjugava verbos... por isso, sim, as linhas de diálogo eram um autêntico "corta-entusiasmo". 

Irei, certamente, ler mais Domingos Amaral, e espero, muito sinceramente, que este pormenor que considero um erro estratégico, não se replique. Entendi a intenção dele, mas não gostei. E por causa disso, Quando Lisboa tremeu não irá ser um livro que considere memorável. 

Leitura simpática, sim. Tema interessantíssimo, sem dúvida. Mas encanitei com as falas. Condenem-me!

Esta foi a minha 41.ª leitura de 2019. Tinha posto 45 livros como meta para este ano, no Goodreads Reading Challenge, mas, entretanto, já editei este número e apontei as baterias para os 60. 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Lido: O Conde de Monte Cristo - volume I, de Alexandre Dumas

No último Dia Mundial do Livro, tinha prometido a mim mesma não comprar livros. Tenho dezenas de obras que ainda não li, e mais um punhado deles que gostaria de reler, portanto... não iria comprar livros. Ponto final. 

Guess? Não foi ponto final. 

Acabei por comprar os dois volumes de O Conde de Monte Cristo (editora Relógio D'Água) que estavam na Wook com desconto de 20%. Chegaram no dia seguinte. E foi assim, a minha história. 

Queria ler esta obra... sei lá... desde há muito. E já terminei o volume I. O resuminho básico da obra: Edmond Dantès é um jovem marinheiro, com cerca de 19 anos, que regressa de uma viagem. Ao atracar, informa o armador que o capitão morreu durante a viagem. O senhor Morrel dá-lhe a entender que este infortúnio poderá levar a que Edmond se torne, ele, capitão do barco. Danglars, guarda-livros do barco que não gosta de Edmond, informa Morrel que Edmond os fez "perder tempo" com uma paragem na Ilha de Elba, local onde Napoleão estava exilado. 

Edmond vai visitar o pai e a noiva, mais do que feliz, com a notícia da promoção iminente. E logo começam os preparativos para o casamento. 

Assim, começa a obra. Sendo O Conde de Monte Cristo um clássico, já várias vezes levado aos ecrãs de cinema, sabemos que isto não é assim tão linear. 

Uma tramóia entre várias pessoas que, por variados motivos não gostam de Edmond, leva a que o jovem marinheiro seja encarcerado durante alguns anos no Castelo de If, uma fortaleza/prisão no meio de uma ilha. Aí, acaba por conhecer o Abade Faria que toma para si a missão de instruir Edmond, nos anos seguintes de prisão. Antes de morrer, o Abade diz a Edmond o local onde está escondida uma fortuna que fará dele um milionário quando sair de If. 

Basicamente, o ingrediente principal daquela que está a ser uma das leituras mais entusiasmantes desde ano, é a vingança. Que como sabemos é um prato que se serve frio. 

Neste primeiro volume, começamos a conhecer todos os esquemas que um Edmond mais velho e mais calculista pretende levar a cabo para atingir e destruir os seus inimigos, aqueles que o fizeram perder alguns dos seus melhores anos. Ainda não temos a imagem toda, mas vamos lendo fragmentos, e isso leva-nos a querer mais. O segundo volume está ali, à minha espera. 

O Conde de Monte Cristo entra nas minhas leituras da maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações, no desafio "França". 

Citação escolhida:
"Por fim, caiu do alto do seu orgulho e dirigiu as suas súplicas não a Deus, mas sim ao homem. Deus é sempre o último recurso. Os infelizes que deveriam começar por Deus, não têm qualquer esperança nele até esgotarem todas as outras hipóteses". 

terça-feira, 14 de maio de 2019

Balanço da maratona literária

Decidi escrever este texto para fazer um pequeno balanço da minha participação, até ao momento, na maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações. A maratona começou a 25 de março e prolonga-se até 21 de julho. Estamos, portanto, sensivelmente a meio (mais dia, menos dia).

Dos 15 desafios principais:
 - já completei 11, estão dois em curso e dois ainda por decidir (tenho uma ideia, mas não me quero comprometer inteiramente);
- das 11 leituras concluídas, li apenas duas mulheres (tenho uma 3.ª em curso) e três Nobel da Literatura, e pelo menos sete clássicos/clássicos modernos;
- das 11 leituras completas, li nove livros físicos e dois ebooks.

1 América Latina (escolher 1 país)
Inicialmente pensei ler "Ninguém escreve ao Coronel", de Gabriel García Márquez, mas optei por "A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende - concluído

2 Espanha
Propus-me ler "Tempo entre Costuras", de Maria Dueñas, mas acabei por ler o "Marina" de Carlos Ruiz Záfon - concluído

3 Reino Unido (ou) Irlanda
"A laranja mecânica", de Anthony Burgess - concluído

5 Países nórdicos (escolher 1 país)
Totalmente em aberto

7 Ex-URSS
Tinha ficado em aberto. Escolhi "A morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi - concluído

8 País à escolha (Não pode ser repetido)
Pensei em ler "Neve", de Orhan Pamuk, da Turquia - estou a ler "A Filha da Profecia", de Juliet Marillier (Nova Zelândia), e com ele termino a trilogia Sevenwaters - em curso

9 E.U.A. (ou) Canadá
"Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway - concluído

11 França
Outro desafio que estava por determinar. Estou a ler o 1.º volume de "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas - em curso

12 Brasil
Comecei a ler "Úrsula e outras histórias", de Maria Firmina dos Reis, mas mudei para "Contos Fluminenses", de Machado de Assis - concluído

13 Países árabes (escolher 1 país)
Estava inclinada para "O Menino de Cabul", de Khaled Hosseini, e assim foi - concluído

14 Países africanos (escolher 1 país)
"Hibisco Roxo", de Chimamanda - concluído

15 China
Já tenho o ebook de "O problema dos três corpos", de Liu Cixin - mas ainda está em aberto.

domingo, 12 de maio de 2019

Lido: A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi

Julgo que foi no início do ano que ouvi falar deste livro e fiquei bastante curiosa. Desde há algum tempo que ando a trabalhar numa lista de livros dos clássicos russos que gostaria mesmo de ler, e este A morte de Ivan Ilitch, apesar de ser uma obra pequenina (91 páginas), colheu grandes elogios. 

Na minha mais recente visita à biblioteca, trouxe-o. E, realmente, li-o rapidamente, e em apenas dois fôlegos. 

A morte de Ivan Ilitch não é spoiler - o título dá-nos uma pista, certo? - e acontece logo nas páginas iniciais. Ivan Ilitch é um juiz, de caráter ambicioso, que um dia começa a sentir-se mal. O livro é, basicamente, uma reflexão sobre escolhas, sobre a condição humana, as relações interpessoais e a morte. O corpo começa a deixar de responder, a definhar... até ao suspiro final. Revemos toda a vida do protagonista e acompanhamos o seu sofrimento, a busca pelo alívio às dores que sente e que Tolstoi consegue transmitir perfeitamente, o isolamento e a angústia. 

É um livre fácil de ler, mas não é fácil de apreender. Como já disse, assistimos ao definhar de uma vida humana, e para quem já perdeu pessoas próximas, não é algo que se leia de ânimo leve. 

Dei 4 estrelas - daria 4,5, mas já sabemos que o Goodreads não o permite... bad bad, Goodreads!. A razão é simples: o senhor podia ter sido operado, e teria poupado toda a família de uns meses constrangedores e sofríveis. Ivan Ilitch tinha posição, reputação e dinheiro. Consultou "n" médicos e houve um que lhe disse que era possível proceder a uma operação - o problema era no apêndice - e o homem não avançou. 

A vida com a mulher era miserável. No final dos seus dias, odiava-a, bem como aos filhos, porque não compreendiam a dor dele, mas era evitável. Mesmo no fim, ainda pensou nisso, mas depois começou novamente com dores, e desistiu, preferindo entregar-se à morte. 

Em termos de reflexão para a questão da morte, é uma obra fantástica. 

A morte de Ivan Ilitch conta para a maratona literária, no desafio "Ex-URSS" e também para o projeto #lermaisbiblioteca2019 que, descobri agora, foi lançado pela Isa do canal Jardim de Mil Histórias, no final de 2018, durante a minha estadia no "hotel" Fernando da Fonseca a.k.a Hospital Amadora-Sintra. 

Goodreads Reading Challenge: 39/45

Citação escolhida:
Ele ouviu estas palavras, e repetiu-as na sua alma. «Acabou a morte! - pensou. - Ela já não existe». Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.

domingo, 5 de maio de 2019

Lido: Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

Não sei (ainda) o que pensar deste livro. No momento em que estou a escrever este texto, já o li há um par de horas, e ainda não decidi sequer que classificação dar, no Goodreads. Sinto-me "esmagada" com o sistema de 0 a 5, e considero-o muito limitado.

Li a edição em português do Brasil, no Kindle - a portuguesa foi traduzida como A Cor do Hibisco - e, como já disse antes, não me faz qualquer diferença ler as subtilezas das traduções do país-irmão.

Quero falar muito deste livro, mas tenho de ter um método. Tenho ouvido coisas maravilhosas da Chimamanda, antes de tudo o mais. Sobre este livro... aliás, nos últimos livros que tenho lido, tenho ido em modo "tábua rasa", sem saber do que se trata a narrativa... e, este não foi diferente. Tenho a sensação que li uma introdução qualquer, há uns tempos, mas a verdade é que comecei a lê-lo e nada me despertou qualquer familiaridade com o tema.

É um livro escrito sob a perspetiva de Kambili, uma adolescente de 15 anos e protagonista desta história. A família de Kambili é rica. O pai, Eugene, é proprietário de empresas e de um jornal, que faz oposição ao regime. Existe ainda a mãe, Beatrice, e o irmão, Jaja.

Eugene é ultra-conservador e ultra-religioso. Foi educado na religião cristã e impôs à família essa religião e um estilo de vida europeu / branco - cortou, inclusivamente, relações com o próprio pai, devido ao simples facto do velho senhor continuar a adorar os deuses tradicionais nigerianos. Kambili e Jaja vivem, então, rodeados de fartura, contudo, sujeitos a regras muito rigorosas: não podem ver televisão, não podem socializar com os colegas de escola, têm de ser, sempre, os primeiros da turma, não ouvem música, têm horários rígidos de estudo... são obrigados a todo um código moral e ético que, para eles... atenção, sublinho, para eles... é normal.

À medida que vamos lendo, vamos percebendo que Eugene é também um homem muito violento. E ficamos profundamente incomodados com o modo de vida daqueles jovem, à luz das liberdades dos nossos próprios adolescentes.

Um dia, por alturas do Natal, Kambili e Jaja vão passar uns dias em casa de uma tia, irmã do pai, que é professora universitária. Viúva, Ifeoma é mãe de três - Amaka, da mesma idade de Kambili, Obiora, um ano mais novo que Kambili, que assumiu a tarefa de "homem da casa" e Chima, o menino mais pequeno.

Naquela casa, onde nada é abundante, há risos, há música, há jovens com ideias próprias, há conversas às refeições, há televisão, não há horários rigorosos. O confronto com esta nova realidade faz Kambili e Jaja vacilarem. Ele integra-se com uma facilidade relativa, mas Kambili sente, em si, o peso da opressão provocada pelo pai. Ela não ri, não fala das suas angústias, não canta, e vive em permanente sobressalto com a ideia do pai descobrir tudo o que se passa em casa da tia.

A prima Amaka vai representar uma força muito grande, uma força transformadora na vida de Kambili. Também importante é o papel  do Padre Amadi, que expande os horizontes da nossa protagonista, e que mostra que o respeito pelas crenças tradicionais nigerianas pode e deve ser um motor junto da comunidade - e não um pecado, como lhe transmite o pai.

Vamos, ao mesmo tempo, assistindo ao relato da situação política na Nigéria. Apesar de Kambili ser uma adolescente, e apesar do seu pai ser dono de um jornal, eles - Kambili e Jaja - têm acesso limitado à informação, apenas uma vez por semana, e claro, não são assuntos que devam ter opinião. Vamos sabendo do que se passa naquele país, através das outras personagens, em especial através da tia.

O Hibisco Roxo é um livro fantástico. Mas não "caí" aos seus pés, como pensei que iria. Fiquei fascinada e nauseada com vários episódios que Kambili foi narrando, mas não fiquei rendida, nem emocionada por aí além - e eu sou moça que chora com farturinha!!!
E é aqui que reside o meu problema. Reconheço que é um livro muito bom, muito bem escrito, mas eu estava à espera do excecional, do fora-de-série... é um sólido 4,5, mas não consigo dar 5 estrelas. Mas 4 também é pouco.

O livro contou para a categoria "Países Africanos" da maratona.

Citação escolhida: 
"Eu ri. Rir parecia muito fácil agora. Muitas coisas pareciam fáceis agora. Jaja também estava rindo, assim como Amaka, e todos nós estávamos sentados na grama, esperando Obiora chegar."

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Lido: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Primeiro livro terminado no mês de maio. Este livro conta para a maratona literária na categoria "América Latina". Antes de optar por A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, pensei em ler mais um livro de Gabriel Garcia Márquez (Ninguém escreve ao Coronel, como já me indicaram várias vezes), depois pensei em Sepúlveda (trouxe da minha biblioteca de juventude, o Diário de um Killer Sentimental). Até que cheguei a Allende.

"Há muito tempo que não leio nada dela", pensei eu. Poderia ter trazido de casa dos meus pais, qualquer um daqueles que a minha mãe comprou em tempos, não fosse terem sido arrumados em parte incerta. Decidi trazer um da biblioteca. Fui lá no dia 27 e, entretanto, já o terminei.

As minhas expetativas eram nulas. Não conhecia rigorosamente nada do enredo. Sabia apenas que foi dos primeiros romances da autora. E gostei imenso. Atravessamos cerca de 65 anos da história da família del Valle e Trueba, num país não nomeado da América Latina. Não é preciso sermos génios para perceber que se trata do Chile, como é óbvio.

Os del Valle, uma família endinheirada, têm 10 filhos, sendo que a mais nova, Clara, tem o dom da clarividência. Esteban Trueba é um jovem ambicioso e trabalhador que sonha casar com Rosa, uma das filhas dos del Valle, apesar da sua condição mais humilde.

Entretanto, Rosa morre, e Esteban, apesar da dor da perda da noiva, acaba por casar, alguns anos depois com a jovem Clara. Desse casamento nascem Blanca e os gémeos Jaime e Nicolau.

Vemos Esteban prosperar economicamente, e a ascender politicamente dentro do Partido Conservador.

Isabel Allende é, especialmente, descritiva nos movimentos políticos emergentes na época e da tentativa de instaurar um governo socialista no país. A figura do Presidente é referida muitas vezes, até ao golpe de estado militar. É fácil para nós assumirmos que o Presidente (sem nome) é o retrato de Salvador Allende e que o novo governante é uma figura militar ditatorial (Pinochet).

O casamento e a relação de Esteban e Clara é marcada por altos e baixos - mais baixos do que altos - muito devido ao mau génio de Esteban, um homem ultra-conservador e dado a ataques de fúria. A personalidade de Clara é o oposto da do marido. De espírito livre, Clara consegue prever acontecimentos do futuro e passa toda a sua vida a registar cada momento familiar no que ela chama "cadernos de anotar a vida" que, no fim, iriam servir para que a neta, Alba, pudesse escrever, cronologicamente, a história da família.

Clara, Blanca e Alba são as três grandes protagonistas desta obra. Todas elas completamente diferentes entre si, mas todas com uma garra tremendas, apesar de privilegiadas.

Esta minha análise é muito superficial. A história não é assim tão linear. O livro é escrito através de dois pontos de vista diferentes: o de Alba, de acordo com o que viveu e escreveu baseado nos cadernos da avó, intercalado com a visão de Esteban que aparece em discurso direto em vários momentos da narrativa.

E temos aqueles momentos quase mágicos de Clara, com as suas "esquisitices", excentricidades como lhe chamam... a mulher que consegue tocar piano com a tampa do teclado fechada, a mulher que consegue prever mortes e tremores de terra, a mulher que consegue mexer objetos com a mente... é de um realismo tão fantástico que, quase somos levados a crer, que efetivamente as coisas possam ter sido assim.

É um livro que recomendo vivamente. É um romance que fala de amor, perseverança, valores morais, valores familiares, vingança, destino, magia, política e vida.

Citação escolhida:
Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o trânsito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas. Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória. 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Lido: Se Isto É Um Homem, de Primo Levi

Primo Levi não romanceou a sua passagem por Auschwitz. Aquilo que li foi a descrição de alguém profundamente marcado e amargurado com esta experiência de quase vida vs. quase morte.

Primo Levi foi capturado em dezembro de 1943 e deportado para Auschwitz no início de 1944. Teve a "sorte" de apanhar escarlatina e, por isso, não ter integrado a Marcha da Morte a meio de janeiro de 1945, poucos dias antes da libertação daquele campo.

Tudo o que lemos neste livro, é a visão deste homem sobre o momento em que foi capturado, até à data da libertação - viu chegar os russos quando, já em tremendo esforço, largava o corpo, já sem vida, de um prisioneiro que morrera durante a noite.

Este livro é muito cruel. Não está cá com paninhos quentes, para tentar "poupar" o leitor que, coitadinho, não pode ler sobre o Holocausto, nem ficar chocado. Este livro é visceral e cru. Não sei muito bem o que escrever sobre este documento. Porque "Se Isto É Um Homem" não é simplesmente um livro sobre o Holocausto. Não é um romance. Não é baseado na história de.

Soube que Primo Levi morreu aos 67 anos, numa queda que ainda se encontra por explicar. Alguns defendem que se tratou de suicídio, e não de um acidente. Que a alma de Primo Levi havia morrido muitos anos antes, em Auschwitz. E é por causa de Levi e de outros que é importante continuar a falar deste assunto. É importante que os erros do passado não se repitam. É importante que as pessoas continuem a ler sobre o assunto, a escrever sobre o assunto, a sentirem-se envergonhadas, doentes, nauseadas, culpadas... porque, infelizmente, os sobreviventes, aos poucos vão morrendo. Nesta altura, já passaram 74 anos. São muito poucos aqueles que estiveram lá e sobreviveram naquelas condições.

A comparação vai ser ridícula, mas, no filme da Disney "Coco", falou-se muito sobre a preservação da memória de quem já partiu. E quando morrer a última pessoa que ali esteve, a memória perde-se. E é por isso que se reveste de uma importância ainda maior que estes livros continuem a ser re-editados. Que continuem a chegar a mais e mais pessoas.

Terminei um livro sobre a privação de liberdade, sobre sacrifício, sobre dor e perda, no dia em que Portugal celebra os 45 anos do 25 de abril. Portugal que teve Peniche, Caxias e Tarrafal. Portugal que também está a passar por uma terrível perda de memória...

Citação escolhida: 
"Temos, portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão, na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade."   

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lido: Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway

Por quem os sinos dobram antes de mais, "abre" com um fantástico poema (No man is a Island) do poeta inglês John Donne (1572-1631).

Nenhum homem é uma ilha isolada; 
cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; 
se um torrão é arrastado para o Mar, 
a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a Morte de qualquer homem diminui-me, 
porque sou parte do género humano.
E por isso não perguntes
por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti.   

Por quem os sinos dobram é um livro com um ritmo lento. Às vezes, demasiado lento. É um livro que contém muitas e profundas reflexões sobre a condição humana, sobre a esperança, a coragem e sobre a morte. Especialmente sobre a morte. Aliás, as citações que destaquei - e foram bastantes - durante a leitura, são quase todas sobre a morte e a sua inevitabilidade.

Robert Jordan é um americano, voluntário na Guerra Civil Espanhola, lutando pelos Republicanos, e cuja missão é fazer explodir uma determinada ponte. Robert integra um bando de guerrilheiros civis que lutam pela causa republicana e que é composto pelo mais absurdo conjunto de gente.

É um livro algo datado, confesso. Não é uma obra que se leia de um só fôlego. É um livro para se ir lendo. Não é, portanto, aconselhado a pessoas que gostam de ação desenfreada a cada página, nem para os leitores da era moderna que esperam ter, constantemente, picos de adrenalina. Como disse antes, é muito rico em reflexões. Deparamo-nos, frequentemente, com páginas inteiras de pensamentos de algumas personagens - especialmente de Robert Jordan.

Fiz esta leitura em conjunto com a Cristina do Linked Books, como referi cada vez que falava deste livro. E saio muito feliz com esta primeira experiência de leitura conjunta: a Cristina e eu tínhamos um ritmo semelhante de leitura e, quando trocávamos as nossas opiniões, destacávamos pormenores diferentes de situações que lêramos antes. Pude "saborear" a minha leitura, e completar com a interpretação da Cristina de outros momentos.

Não é um livro 5 estrela, porque acho que está envelhecido, mas é um livro interessante. Costumo dizer que se um livro me ensina qualquer coisa, dou o tempo por bem empregue e trata-se de um livro que cumpriu uma das suas (muitas) missões. Eu sabia zero da Guerra Civil Espanhola. Agora, sei um bocadinho mais que antes.

Esta leitura foi a 35.ª do ano e contou para a maratona literária e para o projeto #abrilhistórico da Miúda Geek.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Leituras de maio

Com abril quase a terminar, está na hora de pensar o que vou ler nas próximas semanas.


A Patrícia Rodrigues, com o seu projeto Lusiteratura, já divulgou as categorias do mês de maio (o link remete para o canal dela):
- Autor que nunca tenhas lido
- Autor com o mesmo nome ou apelido que o teu

Tenho participado desde março, em pelo menos uma categoria... mas, para este mês, e estas categorias, não tenho grandes ideias. Tenho um livro de António Lobo Antunes. Nunca li este autor, mas comecei há uns tempos, as primeiras páginas, e não consegui avançar. E há também a autora Cristina Carvalho que também nunca morou por estas bandas e tem uns títulos interessantes. E ainda a Dulce Maria Cardoso (também sou Maria). Veremos...

De resto, estou a participar na maratona Volta ao Mundo em 15 Citações, e estou indecisa por onde continuar.

(comecei, ontem, dia 22 de abril, o livro Se Isto é um Homem, de Primo Levi (categoria Itália), que, de certeza, termino antes do fim do mês, e portanto, não deverá transitar para maio)

Tenho um livro do Sepúlveda já designado para a categoria América Latina, mas não estou muito para aí virada. Talvez traga qualquer coisa de Isabel Allende da biblioteca, na próxima ida.
Para a categoria Países Africanos, estou decidida a ler Chimamanda Ngozi Adichie, mas estou indecisa entre A coisa à volta do teu pescoço e A cor do hibisco.

Se em abril, tinha muito para onde me virar - tinha em mão, cinco livros - para este mês de maio, tenho duas mãos cheias de indecisões.

(a.j.u.d.e.m-m.e.)