domingo, 14 de abril de 2019

Lido: As Intermitências da Morte, de José Saramago

Habitualmente, quando falo de Saramago - além de quase fazer uma reverência - dou sempre como referência o livro Intermitências da Morte.

Este livro foi publicado nos idos de 2005, e devo tê-lo lido por volta dessa mesma altura. Quase 15 anos, portanto. A memória que guardava dele é que era engraçado. Que falava do tema "morte", mas com sentido de humor. No início do mês, devolveram-mo. Julgava eu que o meu querido Saramago estaria, algures, encaixotado. Estava emprestado. Há mais anos do que aqueles suficientes para me lembrar.

Quando o voltei a pôr nas prateleiras, foi como se revisse um velho amigo, depois de anos de separação. E inspirada por um booktuber do Brasil, decidi que, este ano, iria relê-lo.

Calhou a Patrícia Rodrigues - do blogue (e canal) O Prazer das Coisas - ter desenvolvido o projeto Lusiteratura, que pretende promover os autores nacionais. E, em abril, uma das categorias era "Autor com mais de 35 anos". O senhor faleceu com 88 anos, portanto, creio que se encaixa. Ao mesmo tempo, com a maratona da Volta ao Mundo, dá para "inserir" no desafio Portugal. Esta releitura é, então, um 3 em 1 mais do que apropriado.

Do que se trata As Intermitências da Morte? Um dia, num país nunca identificado, no 1.º de janeiro, ninguém morreu. Várias pessoas ficaram no limbo entre a morte e não morte, e simplesmente, com o passar dos dias, ninguém morria... simplesmente.

Toda esta anormalidade criou um caos enorme neste país: as indústrias ligadas à morte, como os agente funerários estavam à beira do colapso, os hospitais e lares tinham mais doentes e utentes do que a capacidade real, as famílias desesperavam, porque os seus entes ficavam em sofrimento perpétuo.

Tratava-se de uma pequena amostra da morte (assim mesmo: com letra minúscula) de como seria se ninguém morresse. Passados alguns meses, a morte retomou a sua atividade com ligeiras alterações ao seu modus operandi, mas deparou-se com um contratempo que a obrigou a fazer algo inesperado.

As Intermitências da Morte foi o 2.º livro que li de Saramago, e ficou-me sempre na memória as trocas e baldrocas desta narrativa escrita de forma tão fantasiosa... sim, porque este livro quase pode ser considerado do género fantástico, se formos rigorosos.

Este livro fala de amor, de esperança, de caos, de tristeza... mas à boa maneira de Saramago. Não se assustem com José Saramago, por favor. Este livro é minúsculo - tem 214 páginas - e é um pedaço de literatura portuguesa tão bem construído, que toda a gente devia ter um exemplar em casa.

Citação selecionada: 
"A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."

Goodreads Reading Challenge: 31/45

sexta-feira, 12 de abril de 2019

As leituras esquizofrénicas do mês - update


Cristina Maria... podias ter mais juizinho? Podias. Vamos lá fazer uma pequena atualização da coisa:

1 - Por Quem os Sinos Dobram - leitura conjunta com a Cristina do Linked Books. Estamos quase quase a meio do livro;

2 - Alice no País da Maravilhas - é a leitura que ando a fazer ao Henrique, aos fins-de-semana, por ser mais denso do que os livrinhos que lhe leio habitualmente. Já passei, ligeiramente, o primeiro terço do livro;

3 - As Intermitências da Morte - é uma releitura que me apeteceu fazer, e que, por acaso, "casa" bem com um dos projetos literários que por aí pulula. Estou ligeiramente a menos de metade do livro;

4 - A Casa das Belas Adormecidas - é uma leitura escolhida para a maratona Volta ao Mundo. Já li, sensivelmente, 1/4 do livro, porque, em casa, só leio livros físicos, e o Kindle é apenas para quando tenho de sair.

5 - O Caçador de Pipas a.k.a O Menino de Cabul - trouxe da biblioteca também para a maratona. É a edição em português do Brasil, por não ter localizado a edição portuguesa. Mas não me faz grande diferença, sinceramente. Estou mesmo mesmo no começo.

Nunca tive muita dificuldade em ler mais do que um livro ao mesmo tempo; basta-me ter um "calendário" (mesmo que mental) de quando e onde ler cada um deles, para conseguir não misturar tudo na minha mente. Mas confesso que, este número de livros, é a 1.ª vez - e não me parece nada saudável...

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Link Afiliado Wook: https://www.wook.pt?a_aid=4eb2a6d619c14
Para encomendas através desta plataforma, usem o link, sem qualquer custo adicional.



domingo, 7 de abril de 2019

Lido: Marina, de Carlos Ruiz Zafón

Nota prévia: leitura efetuada para a maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações e para o desafio #enabrilleemosenespañol, da Ana Lopes, do blogue e canal O sabor dos meus livros.

Em dezembro, li o primeiro livro da tetralogia de O Cemitério dos Livros Esquecidos, A Sombra do Vento, e tinha adorado. E, desde aí, fiquei com a intenção de ler os restantes livros de Zafón. Este sábado, decidi tornar-me leitora da Biblioteca Municipal de Sintra, e, numa vista rápida pelas estantes, encontrei este Marina, e tive de o trazer. Prazo de entrega do livro: 29/04/2019. O tempo que demorei a lê-lo? 24 horas.

É tão viciante que enerva. Começamos com o narrador (que mais tarde, viremos a saber que se chama Óscar) a dizer que em Maio de 1980 esteve desaparecido 7 dias e 7 noites. Até que foi encontrado, por um polícia, a vaguear pela estação de comboio. Na página seguinte, começa a ação, propriamente dia. Estamos em Setembro de 1979, e o nosso jovem narrador afirma ter 15 anos e que reside num internato. Todos os dias, quando terminam as aulas, e até à hora de jantar, costuma vaguear por uma zona de Barcelona, composta por mansões abandonadas.

Não resiste ao apelo de entrar numa dessas mansões, atraído por música. Nessa mansão decrépita, assusta-se com um vulto e foge. Apenas quando está a caminho do internato, se apercebe que trouxe um relógio avariado. Essa ideia continua a atormentá-lo, até que se decide voltar, uma semana depois, para o entregar. E é nesse regresso que conhece Marina, uma jovem que vive com o pai, Gérman, o responsável pelo susto de uma semana antes.

Marina e Óscar tornam-se amigos, e a rapariga leva-o a um cemitério meio esquecido da cidade, para observarem uma estranha figura, totalmente trajada de negro. Os dois seguem-na à saída do cemitério. E esse momento, quase sobrenatural, leva-os a uma estufa, onde encontram aquilo que parecem partes de marionetas, que os atacam e perseguem.

E é aqui que começa a parte emocionante do livro, que os faz recuar até décadas atrás, e a perseguir fantasmas do passado. Houve aqui algumas semelhanças com A Sombra do Vento, não nego, mas a narrativa está tão bem escrita, tão fluída, tão cativante que é quase impossível despegar os olhos desta história. Até à última página.

Citação que destaco: 

"Às vezes, as coisas mais reais apenas acontecem na imaginação, Óscar - disse ela. - Só recordamos o que nunca aconteceu." - página 92

Goodreads Reading Challenge: 30/45

terça-feira, 2 de abril de 2019

Lido: A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Terminei, na segunda-feira, dia 1 de abril, o livro que deu origem ao filme de Kubrick, A Laranja Mecânica, a contar para a maratona Volta ao Mundo - desafio 3: ler um livro do Reino Unido ou Irlanda. Anthony Burgess, o autor, era britânico, nascido em Manchester.

Nota prévia: nunca vi o filme e sabia muito vagamente do que se tratava.

Como falar de A Laranja Mecânica? O livro foi publicado no início dos anos 60, e fala de uma sociedade, inglesa, num futuro próximo.

Alex, o protagonista, é o presumível líder de um grupo, composto por Georgie, Lerdo e Peter (este último o mais reservado da quadrilha). Dividido em três grandes partes (cada uma com sete capítulos), a narrativa é-nos contada por Alex, com recurso a um tipo de calão, muito específico, usado pelos jovens daquele espaço-temporal da obra, o "nadsate".

(felizmente, que o livro tem um dicionário, pois há palavras que conseguimos entender o que significam, através do contexto, mas há outras impossíveis)

Alex e o seu bando costumam passar as noites a beber "leite mais qualquer coisa" e a praticar atos de ultra-violência (a expressão usada na obra é exatamente esta): espancamentos, roubos, violações, destruição de propriedade privada... tudo o que possam imaginar.

Um dia, Alex passa dos limites no seu autoritarismo e, após um assalto particularmente violento, é deixado pelos companheiros, propositadamente, para ser apanhado pela polícia. Depois de dois anos preso - Alex já com cerca de 17 anos - é submetido a um tratamento de condicionamento (aqui, lembrei-me muito da experiência de Pavlov com os cães) e libertado. A terceira parte do livro é tudo o que decorre da libertação.

Não quero pormenorizar muito, portanto, de forma, muito resumida, é este o enredo de A Laranja Mecânica. Temos, neste livro, uma nota introdutória que explica o processo da escrita, bem como o facto da edição britânica ter um final diferente da edição americana, e conta como, nos anos 70, o autor Anthony Burgess se enfureceu com Kubrick, na sequência da famosa adaptação cinematográfica que, aparentemente, teve demasiadas liberdades artísticas, que não agradaram o autor (que suponho não deva ter sido consultado para essas alterações).

Gostei muito desta leitura, e dei 4 estrelas. A dificuldade inicial em entrar no calão e o facto de me obrigar a consultar o dicionário a cada 10 segundos não me deixa dar as 5 estrelas. Depois, quando já estamos cientes do significado de algumas das palavras mais usadas, o ritmo de leitura aumenta, mas até lá, é meio complicado. Mas é uma obra fabulosa e adoro a simplicidade da capa da edição da Alfaguara.

Citação que destaco:
"A bondade vem de dentro, 6655321. A bondade é algo que se escolhe. 
Quando um homem perde a capacidade de escolha, deixa de ser homem." - página 132

Goodreads Reading Challenge: 29/45




Lido: O Filho das Sombras, de Juliet Marillier

Terminei  na passada sexta-feira, dia 29 de março, o 2.º livro da trilogia Sevenwaters, da
neozelandesa Juliet Marillier.

Muito resumidamente: mais uma leitura fabulosa. Ao contrário do 1.º livro - que demorei imenso tempo a ler devido aos mais diversos afazeres diários - esta leitura foi bastante rápida: apenas uma semana (de 21 a 29 de março).

Este livro é sequência dos acontecimentos do livro anterior. Após pôr fim ao feitiço de Lady Oonagh, Sorcha e os irmãos voltam para Sevenwaters e recuperam o lar familiar. Este 2.º volume, segue os filhos de Sorcha, especialmente Liadan, irmã gémea de Sean - o herdeiro de Sevenwaters, dado que Liam, o irmão mais velho de Sorcha, nunca casou ou teve filhos. Sorcha tem também uma filha mais velha Niamn.

Liadan tem, tal como a mãe, o poder de curar, bem como o dom da Visão.

A Irlanda continua a estar envolvida em guerra contra os bretões, mas desta vez o grupo do Homem Pintado, composto por mercenários ferozes, é um inimigo a ter também em conta.

Além de que factos do passado têm a sua quota de envolvência nos acontecimentos atuais.

Dei 5 estrelas ao 1.º e daria 6 a este, se pudesse. Comparativamente, achei este com arcos mais interessantes e com uma maior consistência nas personagens. A narrativa deu cabo de mim... a determinada altura não conseguia ler com as lágrimas a caírem. Foi, emocionalmente, muito mais tocante do que o 1.º que seguia uma linha de fantasia muito maior.

Nem vale a pena dizer que recomendo, pois não?!

GoodReads Reading Challenge: 28/45

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Em abril

"E como vai ser o teu abril, Cristina Maria?" - já vos oiço a perguntar. Nada temeis. Vou responder.

Neste momento, gostaria muito de participar em vários desafios literários, que pululam no Youtube, junto da comunidade livrólica:
Quero participar no #abrillerBrasil, do canal So happy with Less.
Vou ler um livro de contos brasileiros para a maratona e, de uma só vez, "elimino" dois desafios.

Quero participar no #abrilhistórico, do canal A Miúda Geek.
Está agendada a leitura conjunta com a Cristina do Linked Books, do Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, que, simultaneamente, entra neste desafio e numa das categorias da maratona. Este deverá ser o livro mais moroso, mas logo se vê como corre.

Quero participar no #lusiteratura, do canal da Patrícia.
José Saramago e as suas Intermitências da Morte, entram na categoria "Portugal" da maratona e na "Autor com mais de 35 anos" deste desafio da Patrícia.

Quero participar no #enabrilleemosenespañol, do canal da Ana Lopes
A Ana apresentou, no dia 25, o desafio de ler espanhol em Abril. Como uma das categorias da maratona é "Espanha", escolhi María Dueñas e o seu "O Tempo entre costuras", que consigo inserir neste desafio.  

Portanto, se me der um fanico nas próximas semanas, estas são as razões. 

E, sim, preciso desta t-shirt na minha vida, como de pão para a boca

quarta-feira, 27 de março de 2019

Outra maratona: as minhas escolhas

Terminada a maratona "Livropólio" que terminei num 11.º lugar em 162 participantes, está na hora de abrandar o ritmo. Pensava ela, com boas intenções. 

Pois que, no dia 25, teve início outra maratona literária "A Volta ao Mundo em 15 Citações". Aqui, é proposto lermos uma série de livros cujos autores sejam naturais do país ou conjunto de países designados. Por cada "viagem" (livro), temos de guardar uma "recordação" (citação). 

Já preparei a minha lista de livros a ler, e tentei integrar: aqueles livros que já pretendia ler e aqueles livros que tenho há "n" tempo e que, simultaneamente, possam servir para participar em outros desafio (no dia 1 de abril sai um post, onde falo deles). 

Por coincidência, ou talvez não, 1/3 dos autores que escolhi foram galardoados com o Nobel da Literatura. 

Como estou a terminar um outro livro, ainda não comecei a ler, mas conto iniciar ainda esta semana. Esta maratona termina a 21 de julho. Estas foram as minhas escolhas:

1 América Latina (escolher 1 país) 
Ninguém escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez - já me falaram muito bem deste livro e quero continuar a explorar o amigo Gabo. Prémio Nobel da Literatura em 1982

2 Espanha 
Tempo entre Costuras, de Maria Dueñas - quem o lê, gosta muito. E estou curiosa. Insere-se num dos projetos, para ler autores espanhóis.

3 Reino Unido (ou) Irlanda
A laranja mecânica, de Anthony Burgess - comprei este livro há poucos dias quase por acaso; precisava de ter um determinado valor em livros para usufruir de um desconto e peguei nele. 

4 Itália 
Se isto é um homem, de Primo Levi - há muito tempo que pretendo ler este livro, e está aqui a oportunidade. 

5 Países nórdicos (escolher 1 país) 
Para aqui, ainda não está plenamente decidido. Mas talvez um policial/thriller daqueles de arrepiar os pelinhos da nuca.

6 Japão 
A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata - não tenho muito o hábito de ler autores asiáticos. Porquê? Não sei. Não calha. E este livro anda a "passear" no Kindle quase desde o 1.º dia. Acho que está na hora de o "despachar". Prémio Nobel da Literatura em 1968. 

7 Ex-URSS
Ainda não decidi. Tenho por ler vários autores russos e vários livros. O Doutor Jivago, Anna Karenina, Guerra e Paz, Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov. Ainda estou a meditar nesta "viagem". 

8 País à escolha (Não pode ser repetido)
Neve, de Orhan Pamuk - Turquia - este é outro livro que vive no Kindle desde o princípio dos tempos. Prémio Nobel da Literatura em 2006.

9 E.U.A. (ou) Canadá
Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway - vai ser leitura conjunta com a Cristina do blogue e canal Linked Books. Integra-se também no desafio do Abril Histórico. Prémio Nobel da Literatura em 1954

10 Portugal 
As Intermitências da Morte, de José Saramago - é uma releitura. Foi o 2.º livro de Saramago que li, e aquele que me entusiasmou para ler mais. Tinha-lhe perdido o rasto, julgava que estava encaixotado para todo o sempre, até que mo devolveram. E a paixão voltou. Serve para o desafio Lusiteratura. Prémio Nobel da Literatura em 1998.

11 França 
Também estou muito indecisa. Tenho vários que podem entrar nesta categoria. Portanto, para já, fica em aberto. 

12 Brasil 
Úrsula e outras histórias, de Maria Firmina dos Reis - são contos brasileiros do século XIX (creio... peço desde já desculpas, se estiver equivocada). Este livro está disponível, de forma gratuita, no site da Amazon. Com ele, consigo participar no desafio dos contos e do Ler Brasil.

13 Países árabes (escolher 1 país) 
Outra categoria em stand by. Estou inclinada para ler O Menino de Cabul, de Khaled Hosseini, mas não sei ainda.

14 Países africanos (escolher 1 país) 
Hibisco Roxo, de Chimamanda - esta autora anda nas bocas do mundo. E eu quero saber porquê. Das sinopses dos livros, este foi aquele que me interessou mais. 

15 China
O problema dos três corpos, de Liu Cixin - nesta escolha, fiz batota. Não me ocorria nenhum escritor chinês, então googlei "escritores chineses" e fui parar a uma página qualquer que elencava o nome de alguns autores chineses. Pesquisei-os e Liu Cixin foi o que me pareceu mais interessante. Este livro é o primeiro de uma trilogia. E o autor, de acordo com a Wikipédia, foi nove vezes campeão do Prêmio Galaxy (o de maior prestígio literário de ficção científica da China). 

Provavelmente, esta lista deverá sofrer alterações. Ainda tenho de inserir livros, e a probabilidade de alterar as minhas escolhas é imensa. Mas ficam, para já, estas intenções. 

terça-feira, 26 de março de 2019

Lido: O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez

Tenho tido sorte com as leituras que tenho feito; é isso, ou então os meus critérios alteraram-se. A verdade é que O Amor nos Tempos de Cólera de "Gabo" foi mais uma leitura de 5 estrelas.

Fiz um forcingzinho para terminar de ler as últimas páginas, apesar de estar já bastante cansada. Trata-se d'O Romance de "Gabo". Mais do que de amor, é um livro sobre a existência e a condição humanas, sobre o destino...

Florentino Ariza, um jovem apagado, apaixona-se por Fermina Daza. Durante algum tempo, cerca de 3 anos, correspondem-se, mas, um dia, a magia que Fermina sentia, desaparece. Casa-se, viaja pelo mundo, tem filhos, envelhece, sem se aperceber que Florentino mantém, dentro de si, a chama apaixonada dos tempos de adolescente.

A promessa que lhe fizera mantém-se, apesar do tempo: ele amá-la-à para sempre.E eis que, entretanto, se passaram 53 anos. 

Não vou alongar-me. Aliás, não quero alongar-me.

Nos últimos dias, discutiu-se o momento em que nós, leitores, desistimos de uma leitura. Há tanto para ler. Seriam precisas mil vidas para conseguir ler tudo aquilo que é produzido; contudo, acho que há uma altura para cada um dos livros que nos passam pelas mãos. E acho que só agora, com 36 anos, o momento do meu encontro com "Gabo" é uma reunião feliz. Já havia lido outros livros dele, mas tinham-se apagado da memória. Este ano, já reli "Memória das Minhas Putas Tristes" e foi maravilhoso.

Agora com O Amor nos Tempos de Cólera deu-me para rir, revirar os olhos, enervar-me, assustar-me e comover-me. Não chorei, mas vontade não faltou. É uma obra soberba. Quase conseguimos sentir, cheirar, visualizar aquilo que as personagens sentem, cheiram ou visualizam.

"Fermina Daza continuou imóvel até de madrugada, a pensar em Florentino Ariza, não como na sentinela desolada do Parque dos Evangelhos cuja recordação já não lhe suscitava nem uma luzinha de nostalgia, mas como era então, decrépito e manco, mas real: o homem que esteve sempre ao alcance da sua mão e não soube reconhecer."

Ousem ler "fora da caixa". Sejam ousados. Não olhem para os livros como objetos velhos. Observem. Sintam-nos. Criem relações. Nunca vi o filme, e, no entanto, criei-o na minha cabeça. E agora, até tenho receio de o ver, para não apagar da mente, as minhas criações imaginárias. 


domingo, 17 de março de 2019

Ouvido: A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne

A estreia total e absoluta em audiobooks. Esta semana, com o aniversário do pequeno, fiquei "de gatas", cansada como ninguém imagina - corre para ir encomendar o bolo, corre para ir buscar, corre para comprar a prenda, corre para comprar as prendinhas dos colegas que também fizeram anos, corre para comprar balões e saquinhos para as lembranças dos convidados... uma correria.

Contudo, apesar de todo o cansaço - e com duas insónias pelo meio da semana - não queria deixar de ler. Mas, quando pegava num livro, era para o largar logo de seguida. E pensei para comigo "e que tal, Cristina Maria, experimentares ouvir um livro?".

E assim foi. No meu ouvidinho, passei a ouvir, enquanto andava no meu lufa-lufa, as aventuras de Phileas Fogg ao redor do mundo. Sei que tenho este livro em formato físico... algures na minha casa de família. Numa das mil mudanças que fiz no meu antigo quarto, devo tê-lo guardado/encaixotado. Junto de outros livros que agora me "fazem falta" como de pão para a boca (talvez, esteja a exagerar um bocadinho... talvez!).

É um livro curtinho, que "despachei" em 3/4 audições.

A Volta ao Mundo em 80 Dias é um daqueles clássicos que, julgo, dispensa apresentações. Phileas Fogg, um gentleman inglês, aposta, com os seus companheiros, do "club" a que pertence, que conseguirá dar a volta ao mundo em 80 dias. Acompanhado do seu secretário/criado pessoal, Passepartout, Fogg embarca numa viagem inesquecível - seguido de perto pelo inspetor Fix, que o confunde com um ladrão de bancos.

Goodreads Reading Challenge: 26/45




quinta-feira, 14 de março de 2019

Lido: Os três casamentos de Camila S., de Rosa Lobato de Faria


Maravilhoso. Nunca tinha calhado ler Rosa Lobato de Faria, e este livro apaixonou-me. Estamos nos anos 80, e Camilla, uma respeitável senhora de 90 anos, decide começar a escrever as suas memórias, baseada nos seus diários de juventude.

O livro é uma viagem pela vida de Camilla. Órfã, a viver com os velhos, e pouco mais que uma criança, é prometida em casamento a um homem muito mais velho, para que, com a morte dos tios, tenha em quem se apoiar.

A sua mãe-de-leite, uma mulher, descendente de ciganos, profetiza que Camilla só casará com homens cujo apelido começa com a letra "S". Uma noite, apaixona-se por André Sobral, curiosamente, o único homem com quem não casará. Camilla casa (três vezes), tem filhos, netos e bisnetos. Camilla tem alegrias e tristezas. A vida de Camilla está nestas páginas.

Desde o regicídio, 1.ª Guerra Mundial, passando pela instauração da ditadura salazarista, pela Guerra Colonial, e 2.ª Guerra Mundial - são muitos os eventos históricos que Camilla nos conta, com um olhar muito pueril, dado que as senhoras não falam de política.

É um romance, sim. Sabe-se lá há quanto tempo, não lia um romance, mas está escrito de tal forma que dei por mim a chorar nas páginas finais. A forma inocente, pueril, mas, ao mesmo tempo, poética como este livro está construído, é fantástica.

Quando comprei "Os três casamentos de Camilla S.", comprei também "A trança de Inês". E já me recomendaram "Pássaros de Seda" e "Romance de Cordélia". Cara Rosa, lamento tanto, mas tanto não ter tido a presença de espírito de a ler enquanto foi viva. Perdoa-me, Rosa?

(este livro entra na categoria "escrito por figura pública" do desafio #lusiteratura da Patrícia Rodrigues. Saber mais aqui)

Reading Challenge: 25/45