Antes de mais, feliz 2020. Saúde da boa, que o resto vem por acréscimo. Este será o meu primeiro post deste novo ano, contudo, ainda referente a leituras de 2019. Mais uns quantos se seguirão, fica já o aviso.
Juro que comecei a escrever no dia 29 de dezembro, mas... convenhamos... a preguiça era demasiada, e fui empurrando com a barriga a atualização deste cantinho. E, as boas intenções de terminar o ano velho com o blogue "em dia" foram-se...
Adiante...
Ainda em dezembro, como disse acima, fui à biblioteca com o Henrique. Era o primeiro dia de férias dele, e precisávamos de leituras novas para os dias que se seguiriam (mal eu sabia que ele iria começar a ficar com febre menos de 24 horas depois).
Acabei por trazer, para mim, O Palácio da Meia-Noite do Zafón. Para quem já leu três dos quatro volumes da série do Cemitério dos Livros Esquecidos, ler este O Palácio da Meia-Noite é dar um passo atrás.
Atenção: não é um mau livro. Não é isso que quero dizer. É um livro certinho. Cumpre a missão. O próprio autor, no prefácio, escreve que este livro está inserido numa trilogia destinada a um público mais jovem. E, creio, que se o tivesse lido antes de A Sombra do Vento, teria tirado muito mais prazer. É um livro engraçado, lê-se bem, mas não é a última Coca-Cola do deserto. MAS... pessoas-ali-nos-seus-16-anos, podem mandar-se a ele sem receios.
Hoje em dia - e ainda há uns dias se conversava cá em casa sobre o assunto - parece que já não há meios termos. Seja em livros, filmes ou séries, há um movimento extremo: ou somos da equipa "ADORO", ou somos da equipa "ODEIO". Quero com isto apenas sublinhar que este livro não me preencheu as medidas.
Li-o rapidamente, até porque não é um livro muito grande (279 páginas), e a história é gira. Mas, lá está: não é A Sombra do Vento, nem O Jogo do Anjo (que da séria do Cemitério dos Livros Esquecidos, acho que é o mais fraco), nem mesmo o Marina...
O Zafón eleva-me as expetativas e depois dá nisto: um post aos soluços, comigo a tentar justificar as três estrelas que lhe dei.
Vamos à história: somos introduzidos na narrativa por alguém que não sabemos ainda quem é e que nos vai contar os acontecimentos do mês de Maio de 1932, em Calcutá. Mas antes de lá chegarmos, vamos conhecer tudo o que se passou 16 anos antes, em Maio de 1916. Um homem, com duas crianças recém-nascidas, está a ser perseguido. Vai ligeiramente adiantado aos seus perseguidores, e consegue, deixá-las a salvo com a avó. Ainda não sabemos bem o que se passa, mas a senhora percebe imediatamente. O homem, o tenente Peake, depois de deixar os bebés, refaz os seus passos, encontra aqueles que o perseguiam e acaba por ser morto.
A ação volta para a casa da avó dos bebés. A mulher identifica-os - uma menina e um menino - com uma medalha e começa a escrever uma carta. A ação volta a saltar. Estamos no dia seguinte, no orfanato de St. Patrick, e Thomas Carter, o diretor daquela instituição, está surpreendido ao ver um bebé, deixado à porta, bem como com a carta que o acompanha, algo incomum em Calcutá, naquela altura. No mesmo dia, recebe a visita de uma misteriosa personagem que pergunta especificamente por um bebé, rapaz, abandonado. Seguindo as instruções deixadas na carta, Thomas Carter faz-se de desentendido, contudo o misterioso homem promete voltar daí a 16 anos.
Passam-se 16 anos. Estamos em Maio de 1932, e um grupo de órfãos de St. Patrick prepara-se para deixar aquele lar. Já têm 16 anos, e é a idade limite para ali permanecerem. No dia da festa de despedida, aparece Aryami Bosé, acompanhada da neta Sheere, que logo simpatiza com Ben, um dos rapazes do orfanato (já estão a ver onde é que isto vai parar, certo?). A senhora é, sem dúvida, avó de Ben. Logo Ben e Sheere são os gémeos que estão a ser procurados, há 16 anos, pela espectral figura de Jawahal.
À boa maneira de Zafón, o autor introduz-nos então num universo fantástico, com perseguições, personagens do além e mistérios incríveis que nos fazem percorrer Calcutá, e a desejar visitar a cidade.
Esta leitura foi a 89.ª do ano de 2019, e contou também para a Maratona Estações Literárias da Phoenix Flight e da Croma dos Livros, na categoria "livro com uma tempestade".
Leio desde que me lembro de mim como gente. E comecei a escrever em blogues há mais de 11 anos. Porque não juntar estes dois amores num único espaço? Aqui, só cabe aquilo que gosto... conheçam as minhas escolhas!
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
sexta-feira, 19 de julho de 2019
Lido: Cisnes Selvagens, de Jung Chang
Mais uma vez, atrasei-me na atualização das leituras realizadas. Desde a última postagem, a 5 de julho, já terminei dois livros, entre os quais este maravilhoso Cisnes Selvagens.
"Precisava" de um livro para a categoria "China" da maratona Volta ao Mundo em 15 Citações. Comecei a ler um de ficção científica - Three Body Problem, de Liu Cixin (e descobri, agora mesmo, que há um filme chinês de 2016, baseado neste livro) - mas não estava a conseguir entrar na história e acabei por o colocar de lado.
Ouvi algures, em alguma altura da minha vida, alguém a falar dos Cisnes Selvagens (a minha memória funciona assim, ultimamente!). Procurei no catálogo da biblioteca e tinham-no. Trouxe-o na visita seguinte e não me arrependi minimamente.
Que livro maravilhoso. Foram 5 estrelas, de caras... seriam mais, se o Goodreads assim o permitisse. Acompanhamos a História da evolução da China dos imperadores até à China de Mao Zedong (estou a usar a forma escrita no livro). A autora conta-nos a história da avó materna, da mãe e a sua própria num tempo que vai desde 1924, quando a avó se torna concubina de um poderoso general, até meados dos anos 70, quando a própria autora ganha uma bolsa de estudos, e sai da China, após a morte de Mao.
É um brutal murro no estômago. Se os livros sobre o Holocausto são de uma brutalidade e deixa-me fisicamente doente ler algumas descrições de como os presos eram tratados e torturados, a arbitrariedade da morte... este, não é menos mau. A forma como certos "opositores" ao regime comunista de Mao eram mortos era completamente louca. Bastava uma denúncia vaga, uma vingança pessoal entre vizinhos que não se davam particularmente bem, ou por ciúmes, por exemplo... era o suficiente para toda uma família ser brutalmente castigada!
As crianças eram, desde o berço, doutrinadas a crer que o presidente Mao era o grande e poderoso de todo o Mundo. E que o Ocidente era um terrível buraco negro de miséria, depravação, fome e pobreza.
Os próprios pais da autora foram torturados, exilados... e mesmo assim, o nome do pai só ficou totalmente limpo de acusações, alguns anos após a sua morte. Só desta forma é que Jung Chang se pode candidatar a uma bolsa em Inglaterra.
Aconselho vivamente esta leitura. É um retrato poderosíssimo de um regime que conhecemos tão, mas tão mal... é uma obra magistral. Lindamente escrita. Sem paninhos quentes. A autora reconhece, várias vezes, a sua ingenuidade e acompanhamos o seu crescimento e o seu "abrir" de olhos à medida que os anos iam passando. O livro, publicado no início dos anos 90, é um documento-testemunho de uma China onde ninguém gostaria de regressar.
Cisnes Selvagenes foi uma leitura a contar para a maratona, como já havia dito, e também para a categoria "Autor que nunca leste" do Book Bingo.
Citação escolhida:
"Ele não precisava de ter morrido. E, no entanto, a sua morte parecera tão inevitável. Não havia lugar para ele na China de Mao, porque tentara ser um homem honesto. Fora traído por algo a que dedicara toda a sua vida, e a traição destruíra-o"
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Lido: O Homem da Areia, de Lars Kepler
Que livraço! Ainda tenho os pelinhos dos braços arrepiados. Remonta a dezembro/janeiro, a última vez que li algo que sequer se assemelhasse a um thriller. E já não me lembro da última vez que li um nórdico.
Comprei, há algumas semanas, este "O Homem da Areia" de Lars Kepler, e se, inicialmente, fiquei "lixada" por me aperceber que faz parte de uma saga, também rapidamente isso se dissipou quando li, algures, que podia ser lido como um "stand-alone", ou seja, faz parte de uma série, mas, se lido individualmente, não faz mossa. E assim foi.
Já estava desacostumada de thrillers nórdicos: aquela crueza nas descrições, aqueles banhos de sangue, aquela "miaúfa" psicológica provocada no leitor, aquela sensação estranha de que podemos ser esventrados a qualquer instante... ahhhh, saudades.
O livro começa a descrever uma cena em que vemos um jovem a caminhar, durante a noite, junto a uma linha de comboio. O sangue congelou nas suas roupas - só Deus sabe como a Suécia pode ser fresquinha à noite! Adiante... logo de seguida somos apresentados a um médico que inicia o seu 1.º dia numa unidade de alta segurança de psiquiatria de um hospital. Todos os olhos dos médicos, assistentes e técnicos estão em Jurek Walter, um assassino impiedoso, apanhado e encarcerado há 13 anos.
Mais tarde viremos a saber que o jovem que vimos na introdução é Mikael, um rapaz que foi raptado, com a irmã, há 13 anos, e que nunca havia sido encontrado. Automaticamente, um dos responsáveis pelo caso do duplo rapto, é alertado: Joona Linna.
Também o comissário teve um passado com este serial killer, e é necessário - urgentemente - encontrar a irmã de Mikael que ainda poderá estar viva, mas gravemente doente.
De arrepiar. O livro tem 500 páginas, mas apenas no 1.º dia, li quase 200; ontem à noite, cheguei às 400 e tal. Os capítulos são extremamente curtos 2/3 páginas (às vezes, uma página e meia), e só queremos saber o que vai acontecer a seguir. Ficamos numa ânsia perfeitamente descontrolada e só queremos ler e ler e ler... muito bom. Estou mesmo muito satisfeita e recomendo a quem gosta de thrillers de cortar a respiração.
Esta leitura conta para a maratona "Volta ao Mundo em 15 Citações" (categoria: países nórdicos) e no Book Bingo (categoria "livro que se passe num lugar onde gostasses de passar férias").
Citação escolhida:
"Passados cinco dias, a Polícia emitiu um alerta. Mas Joona Linna não apareceu e, seis meses depois, as buscas foram suspensas. Apenas Saga Bauer continuou a procurá-lo, porque sabia que ele não estava morto".
Comprei, há algumas semanas, este "O Homem da Areia" de Lars Kepler, e se, inicialmente, fiquei "lixada" por me aperceber que faz parte de uma saga, também rapidamente isso se dissipou quando li, algures, que podia ser lido como um "stand-alone", ou seja, faz parte de uma série, mas, se lido individualmente, não faz mossa. E assim foi.
Já estava desacostumada de thrillers nórdicos: aquela crueza nas descrições, aqueles banhos de sangue, aquela "miaúfa" psicológica provocada no leitor, aquela sensação estranha de que podemos ser esventrados a qualquer instante... ahhhh, saudades.
O livro começa a descrever uma cena em que vemos um jovem a caminhar, durante a noite, junto a uma linha de comboio. O sangue congelou nas suas roupas - só Deus sabe como a Suécia pode ser fresquinha à noite! Adiante... logo de seguida somos apresentados a um médico que inicia o seu 1.º dia numa unidade de alta segurança de psiquiatria de um hospital. Todos os olhos dos médicos, assistentes e técnicos estão em Jurek Walter, um assassino impiedoso, apanhado e encarcerado há 13 anos.
Mais tarde viremos a saber que o jovem que vimos na introdução é Mikael, um rapaz que foi raptado, com a irmã, há 13 anos, e que nunca havia sido encontrado. Automaticamente, um dos responsáveis pelo caso do duplo rapto, é alertado: Joona Linna.
Também o comissário teve um passado com este serial killer, e é necessário - urgentemente - encontrar a irmã de Mikael que ainda poderá estar viva, mas gravemente doente.
De arrepiar. O livro tem 500 páginas, mas apenas no 1.º dia, li quase 200; ontem à noite, cheguei às 400 e tal. Os capítulos são extremamente curtos 2/3 páginas (às vezes, uma página e meia), e só queremos saber o que vai acontecer a seguir. Ficamos numa ânsia perfeitamente descontrolada e só queremos ler e ler e ler... muito bom. Estou mesmo muito satisfeita e recomendo a quem gosta de thrillers de cortar a respiração.
Esta leitura conta para a maratona "Volta ao Mundo em 15 Citações" (categoria: países nórdicos) e no Book Bingo (categoria "livro que se passe num lugar onde gostasses de passar férias").
Citação escolhida:
"Passados cinco dias, a Polícia emitiu um alerta. Mas Joona Linna não apareceu e, seis meses depois, as buscas foram suspensas. Apenas Saga Bauer continuou a procurá-lo, porque sabia que ele não estava morto".
domingo, 30 de junho de 2019
Lido: As Noites das Mil e Uma Noites, de Naguib Mahfouz
Este livro conta para dois desafios: a maratona Volta ao Mundo em 15 Citações, na categoria "Países Árabes" e para o BookBingo, na categoria "livro esquecido na estante há mais de 3 anos". Cabe também no meu desafio pessoal de ler mais Prémios Nobel da Literatura.1.º pensava que tinha o desafio da Volta ao Mundo completo, até um participante ter alertado os gentios que Khaled Hosseini, do Afeganistão, não podia ser, porque este país, se situa... imagine-se no meio da Ásia.
Todo um balde de água fria graças aos senhores americanos para quem, tudo o que não é americano, é árabe. A todo o povo afegão, as minhas desculpas, e confesso publicamente o meu total desconhecimento onde se situa o vosso país.
Até que depois encontrei este meu exemplar de As Noites das Mil e Uma Noites, de um laureado com o Nobel, oriundo do Cairo: Naguib Mahfouz.
O básico dos Contos das Mil e Uma Noites: um sultão, desvairado ao saber da traição da mulher, decide, após matá-la, dormir todas as noites com uma rapariga diferente, matando-a de manhã. E nisto, passam-se alguns anos. Xerazade, filha do vizir, acaba por ser levada ao sultão.
Mas, nisto, sabendo o que a esperava de manhã, começa a contar uma história. De manhã, a história ainda não conheceu o seu fim, e o sultão, curioso, continua a chamá-la, para saber como acaba. Ao fim de alguns anos, Xerazade é tomada como esposa do sultão, que se encontra arrependido dos seus atos no passado.
Este livro pega no momento em que o sultão chama, ao palácio, o pai de Xerazade e lhe comunica que decidiu tomá-la como esposa. Logo, nas primeiras páginas, vemos uma Xerazade não muito convencida que o sultão modificou o seu comportamento, e com receio que o seu ímpeto sanguinário regresse.
Ao mesmo tempo, a cidade vive tempos conturbados, provocados por alguns génios. Muitas mortes acontecem, muitas aventuras e muitas intrigas palacianas se desenrolam em pouco mais de 200 páginas.
Tive um arranque lento. Estava ali qualquer coisa que me impedia de avançar, mas entretanto, deu-se um "clique" qualquer e, indo na página 64, termi
nei num piscar de olhos.
No GoodReads, atribuí 5 estrelas - mas, no meu coração é um 4,5. Muitos nomes, muitas personagens, génios com a mania das grandezas... enfim, complicou um bocado, no início, até ter decidido ignorar os nomes daquela santa gentinha toda, e concentrar-me no resto.
Citação escolhida:
Se salvares a tua alma de ti mesmo, terás pago o seu direito, e se as pessoas se salvarem de ti, então terás pago os seus direitos.
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quinta-feira, 23 de maio de 2019
Próximas leituras
Estou bastante entusiasmada com as minhas próximas leituras. Tenho lido bastante, e quase sempre coisas que me têm dado prazer. E felizmente, que vou conseguindo inserir em projetos e maratonas que andam por aí.
Neste preciso momento em que estou a escrever este texto, tenho ainda em mãos o último livro da trilogia Sevenwaters, da Juliet Marillier. E, como entretanto, terminei Quando Lisboa tremeu, já estou pronta para ir apresentando os meus companheiros das próximas semanitas.
Neste preciso momento em que estou a escrever este texto, tenho ainda em mãos o último livro da trilogia Sevenwaters, da Juliet Marillier. E, como entretanto, terminei Quando Lisboa tremeu, já estou pronta para ir apresentando os meus companheiros das próximas semanitas.
Comecemos com Tolkien. As Aventuras de Tom Bombadil será a minha 2.ª estreia (??!!) deste autor. Li, há muitooooossss anos, A Irmandade do Anel. Há tantos que nem me lembro.
Além de fazer parte do meu projeto pessoal de conhecer J.R.R. Tolkien (comprei no início do ano a trilogia do Senhor dos Anéis, e pretendo também comprar O Hobbit, e este, se gostar muito), As Aventuras de Tom Bombadil serão para integrar no projeto da Isa, do blogue e canal, Jardim de Mil Histórias, "Ler + Biblioteca".
Como é linda a puta da vida, de Miguel Esteves Cardoso é para ler, algures, em junho, no âmbito do projeto da Patrícia Rodrigues, do blogue e canal O Prazer das Coisas, Lusiteratura. As categorias para o mês de junho são "livro escrito por um homem" e "clássico português". Tenho Saramagos ainda por ler, e um Lobo Antunes, mas estou mais inclinada para o MEC. Este livro já cá mora desde 2013/2014, sensivelmente, e nunca o li. Sei apenas que são crónicas que ele escreveu para o Público.
E, terminando, a descrição dos livros da foto: As Noites das Mil e Uma Noites, de Naguib Mahfouz. Funny story - para a maratona da Volta ao Mundo, havia escolhido o Khaled Housseini para a categoria "países árabes". E aqui está a parte engraçada: o Afeganistão não é um país árabe. Malditos americanos que, com a mania, de bombardearem tudo, acabam por estragar a geografia de uma pessoa. Ali, num cantito do lado este (sensivelmente, mais metro, menos metro), o Afeganistão, por acaso, até tem fronteira com... a China. É um país asiático, meus amigos. E ninguém teve a hombridade de me chamar a atenção. Assim, fui dar uma nova volta aos meus livros, e encontrei este, que, por acaso, até contribui para o meu projeto pessoal de ler mais Nobel da Literatura - 1988.
Agora não há confusão: Cairo, no Egito = país árabe.
Quero ler também o 2.º volume de O Conde de Monte Cristo e o 2.º volume da trilogia das Três Coroas Negras.
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sexta-feira, 17 de maio de 2019
Lido: O Conde de Monte Cristo - volume I, de Alexandre Dumas
No último Dia Mundial do Livro, tinha prometido a mim mesma não comprar livros. Tenho dezenas de obras que ainda não li, e mais um punhado deles que gostaria de reler, portanto... não iria comprar livros. Ponto final.
Guess? Não foi ponto final.
Acabei por comprar os dois volumes de O Conde de Monte Cristo (editora Relógio D'Água) que estavam na Wook com desconto de 20%. Chegaram no dia seguinte. E foi assim, a minha história.
Queria ler esta obra... sei lá... desde há muito. E já terminei o volume I. O resuminho básico da obra: Edmond Dantès é um jovem marinheiro, com cerca de 19 anos, que regressa de uma viagem. Ao atracar, informa o armador que o capitão morreu durante a viagem. O senhor Morrel dá-lhe a entender que este infortúnio poderá levar a que Edmond se torne, ele, capitão do barco. Danglars, guarda-livros do barco que não gosta de Edmond, informa Morrel que Edmond os fez "perder tempo" com uma paragem na Ilha de Elba, local onde Napoleão estava exilado.
Edmond vai visitar o pai e a noiva, mais do que feliz, com a notícia da promoção iminente. E logo começam os preparativos para o casamento.
Assim, começa a obra. Sendo O Conde de Monte Cristo um clássico, já várias vezes levado aos ecrãs de cinema, sabemos que isto não é assim tão linear.
Uma tramóia entre várias pessoas que, por variados motivos não gostam de Edmond, leva a que o jovem marinheiro seja encarcerado durante alguns anos no Castelo de If, uma fortaleza/prisão no meio de uma ilha. Aí, acaba por conhecer o Abade Faria que toma para si a missão de instruir Edmond, nos anos seguintes de prisão. Antes de morrer, o Abade diz a Edmond o local onde está escondida uma fortuna que fará dele um milionário quando sair de If.
Basicamente, o ingrediente principal daquela que está a ser uma das leituras mais entusiasmantes desde ano, é a vingança. Que como sabemos é um prato que se serve frio.
Neste primeiro volume, começamos a conhecer todos os esquemas que um Edmond mais velho e mais calculista pretende levar a cabo para atingir e destruir os seus inimigos, aqueles que o fizeram perder alguns dos seus melhores anos. Ainda não temos a imagem toda, mas vamos lendo fragmentos, e isso leva-nos a querer mais. O segundo volume está ali, à minha espera.
O Conde de Monte Cristo entra nas minhas leituras da maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações, no desafio "França".
Citação escolhida:
"Por fim, caiu do alto do seu orgulho e dirigiu as suas súplicas não a Deus, mas sim ao homem. Deus é sempre o último recurso. Os infelizes que deveriam começar por Deus, não têm qualquer esperança nele até esgotarem todas as outras hipóteses".
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terça-feira, 14 de maio de 2019
Balanço da maratona literária
Decidi escrever este texto para fazer um pequeno balanço da minha participação, até ao momento, na maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações. A maratona começou a 25 de março e prolonga-se até 21 de julho. Estamos, portanto, sensivelmente a meio (mais dia, menos dia).
Dos 15 desafios principais:
- já completei 11, estão dois em curso e dois ainda por decidir (tenho uma ideia, mas não me quero comprometer inteiramente);
- das 11 leituras concluídas, li apenas duas mulheres (tenho uma 3.ª em curso) e três Nobel da Literatura, e pelo menos sete clássicos/clássicos modernos;
- das 11 leituras completas, li nove livros físicos e dois ebooks.
1 América Latina (escolher 1 país)
Inicialmente pensei ler "Ninguém escreve ao Coronel", de Gabriel García Márquez, mas optei por "A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende - concluído
2 Espanha
Propus-me ler "Tempo entre Costuras", de Maria Dueñas, mas acabei por ler o "Marina" de Carlos Ruiz Záfon - concluído
3 Reino Unido (ou) Irlanda
"A laranja mecânica", de Anthony Burgess - concluído
5 Países nórdicos (escolher 1 país)
Totalmente em aberto
7 Ex-URSS
Tinha ficado em aberto. Escolhi "A morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi - concluído
8 País à escolha (Não pode ser repetido)
Pensei em ler "Neve", de Orhan Pamuk, da Turquia - estou a ler "A Filha da Profecia", de Juliet Marillier (Nova Zelândia), e com ele termino a trilogia Sevenwaters - em curso
9 E.U.A. (ou) Canadá
"Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway - concluído
11 França
Outro desafio que estava por determinar. Estou a ler o 1.º volume de "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas - em curso
12 Brasil
Comecei a ler "Úrsula e outras histórias", de Maria Firmina dos Reis, mas mudei para "Contos Fluminenses", de Machado de Assis - concluído
13 Países árabes (escolher 1 país)
Estava inclinada para "O Menino de Cabul", de Khaled Hosseini, e assim foi - concluído
15 China
Já tenho o ebook de "O problema dos três corpos", de Liu Cixin - mas ainda está em aberto.
1 América Latina (escolher 1 país)
Inicialmente pensei ler "Ninguém escreve ao Coronel", de Gabriel García Márquez, mas optei por "A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende - concluído
2 Espanha
Propus-me ler "Tempo entre Costuras", de Maria Dueñas, mas acabei por ler o "Marina" de Carlos Ruiz Záfon - concluído
3 Reino Unido (ou) Irlanda
"A laranja mecânica", de Anthony Burgess - concluído
5 Países nórdicos (escolher 1 país)
Totalmente em aberto
7 Ex-URSS
Tinha ficado em aberto. Escolhi "A morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi - concluído
8 País à escolha (Não pode ser repetido)
Pensei em ler "Neve", de Orhan Pamuk, da Turquia - estou a ler "A Filha da Profecia", de Juliet Marillier (Nova Zelândia), e com ele termino a trilogia Sevenwaters - em curso
9 E.U.A. (ou) Canadá
"Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway - concluído
11 França
Outro desafio que estava por determinar. Estou a ler o 1.º volume de "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas - em curso
12 Brasil
Comecei a ler "Úrsula e outras histórias", de Maria Firmina dos Reis, mas mudei para "Contos Fluminenses", de Machado de Assis - concluído
13 Países árabes (escolher 1 país)
Estava inclinada para "O Menino de Cabul", de Khaled Hosseini, e assim foi - concluído
15 China
Já tenho o ebook de "O problema dos três corpos", de Liu Cixin - mas ainda está em aberto.
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domingo, 12 de maio de 2019
Lido: A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi
Julgo que foi no início do ano que ouvi falar deste livro e fiquei bastante curiosa. Desde há algum tempo que ando a trabalhar numa lista de livros dos clássicos russos que gostaria mesmo de ler, e este A morte de Ivan Ilitch, apesar de ser uma obra pequenina (91 páginas), colheu grandes elogios.
Citação escolhida:
Ele ouviu estas palavras, e repetiu-as na sua alma. «Acabou a morte! - pensou. - Ela já não existe». Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.
Na minha mais recente visita à biblioteca, trouxe-o. E, realmente, li-o rapidamente, e em apenas dois fôlegos.
A morte de Ivan Ilitch não é spoiler - o título dá-nos uma pista, certo? - e acontece logo nas páginas iniciais. Ivan Ilitch é um juiz, de caráter ambicioso, que um dia começa a sentir-se mal. O livro é, basicamente, uma reflexão sobre escolhas, sobre a condição humana, as relações interpessoais e a morte. O corpo começa a deixar de responder, a definhar... até ao suspiro final. Revemos toda a vida do protagonista e acompanhamos o seu sofrimento, a busca pelo alívio às dores que sente e que Tolstoi consegue transmitir perfeitamente, o isolamento e a angústia.
É um livre fácil de ler, mas não é fácil de apreender. Como já disse, assistimos ao definhar de uma vida humana, e para quem já perdeu pessoas próximas, não é algo que se leia de ânimo leve.
Dei 4 estrelas - daria 4,5, mas já sabemos que o Goodreads não o permite... bad bad, Goodreads!. A razão é simples: o senhor podia ter sido operado, e teria poupado toda a família de uns meses constrangedores e sofríveis. Ivan Ilitch tinha posição, reputação e dinheiro. Consultou "n" médicos e houve um que lhe disse que era possível proceder a uma operação - o problema era no apêndice - e o homem não avançou.
A vida com a mulher era miserável. No final dos seus dias, odiava-a, bem como aos filhos, porque não compreendiam a dor dele, mas era evitável. Mesmo no fim, ainda pensou nisso, mas depois começou novamente com dores, e desistiu, preferindo entregar-se à morte.
Em termos de reflexão para a questão da morte, é uma obra fantástica.
A morte de Ivan Ilitch conta para a maratona literária, no desafio "Ex-URSS" e também para o projeto #lermaisbiblioteca2019 que, descobri agora, foi lançado pela Isa do canal Jardim de Mil Histórias, no final de 2018, durante a minha estadia no "hotel" Fernando da Fonseca a.k.a Hospital Amadora-Sintra.
Goodreads Reading Challenge: 39/45
Ele ouviu estas palavras, e repetiu-as na sua alma. «Acabou a morte! - pensou. - Ela já não existe». Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.
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domingo, 5 de maio de 2019
Lido: Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie
Não sei (ainda) o que pensar deste livro. No momento em que estou a escrever este texto, já o li há um par de horas, e ainda não decidi sequer que classificação dar, no Goodreads. Sinto-me "esmagada" com o sistema de 0 a 5, e considero-o muito limitado.Li a edição em português do Brasil, no Kindle - a portuguesa foi traduzida como A Cor do Hibisco - e, como já disse antes, não me faz qualquer diferença ler as subtilezas das traduções do país-irmão.
Quero falar muito deste livro, mas tenho de ter um método. Tenho ouvido coisas maravilhosas da Chimamanda, antes de tudo o mais. Sobre este livro... aliás, nos últimos livros que tenho lido, tenho ido em modo "tábua rasa", sem saber do que se trata a narrativa... e, este não foi diferente. Tenho a sensação que li uma introdução qualquer, há uns tempos, mas a verdade é que comecei a lê-lo e nada me despertou qualquer familiaridade com o tema.
É um livro escrito sob a perspetiva de Kambili, uma adolescente de 15 anos e protagonista desta história. A família de Kambili é rica. O pai, Eugene, é proprietário de empresas e de um jornal, que faz oposição ao regime. Existe ainda a mãe, Beatrice, e o irmão, Jaja.
Eugene é ultra-conservador e ultra-religioso. Foi educado na religião cristã e impôs à família essa religião e um estilo de vida europeu / branco - cortou, inclusivamente, relações com o próprio pai, devido ao simples facto do velho senhor continuar a adorar os deuses tradicionais nigerianos. Kambili e Jaja vivem, então, rodeados de fartura, contudo, sujeitos a regras muito rigorosas: não podem ver televisão, não podem socializar com os colegas de escola, têm de ser, sempre, os primeiros da turma, não ouvem música, têm horários rígidos de estudo... são obrigados a todo um código moral e ético que, para eles... atenção, sublinho, para eles... é normal.
À medida que vamos lendo, vamos percebendo que Eugene é também um homem muito violento. E ficamos profundamente incomodados com o modo de vida daqueles jovem, à luz das liberdades dos nossos próprios adolescentes.
Um dia, por alturas do Natal, Kambili e Jaja vão passar uns dias em casa de uma tia, irmã do pai, que é professora universitária. Viúva, Ifeoma é mãe de três - Amaka, da mesma idade de Kambili, Obiora, um ano mais novo que Kambili, que assumiu a tarefa de "homem da casa" e Chima, o menino mais pequeno.
Naquela casa, onde nada é abundante, há risos, há música, há jovens com ideias próprias, há conversas às refeições, há televisão, não há horários rigorosos. O confronto com esta nova realidade faz Kambili e Jaja vacilarem. Ele integra-se com uma facilidade relativa, mas Kambili sente, em si, o peso da opressão provocada pelo pai. Ela não ri, não fala das suas angústias, não canta, e vive em permanente sobressalto com a ideia do pai descobrir tudo o que se passa em casa da tia.
A prima Amaka vai representar uma força muito grande, uma força transformadora na vida de Kambili. Também importante é o papel do Padre Amadi, que expande os horizontes da nossa protagonista, e que mostra que o respeito pelas crenças tradicionais nigerianas pode e deve ser um motor junto da comunidade - e não um pecado, como lhe transmite o pai.
Vamos, ao mesmo tempo, assistindo ao relato da situação política na Nigéria. Apesar de Kambili ser uma adolescente, e apesar do seu pai ser dono de um jornal, eles - Kambili e Jaja - têm acesso limitado à informação, apenas uma vez por semana, e claro, não são assuntos que devam ter opinião. Vamos sabendo do que se passa naquele país, através das outras personagens, em especial através da tia.
O Hibisco Roxo é um livro fantástico. Mas não "caí" aos seus pés, como pensei que iria. Fiquei fascinada e nauseada com vários episódios que Kambili foi narrando, mas não fiquei rendida, nem emocionada por aí além - e eu sou moça que chora com farturinha!!!
E é aqui que reside o meu problema. Reconheço que é um livro muito bom, muito bem escrito, mas eu estava à espera do excecional, do fora-de-série... é um sólido 4,5, mas não consigo dar 5 estrelas. Mas 4 também é pouco.
O livro contou para a categoria "Países Africanos" da maratona.
Citação escolhida:
"Eu ri. Rir parecia muito fácil agora. Muitas coisas pareciam fáceis agora. Jaja também estava rindo, assim como Amaka, e todos nós estávamos sentados na grama, esperando Obiora chegar."
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quinta-feira, 2 de maio de 2019
Lido: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
Primeiro livro terminado no mês de maio. Este livro conta para a maratona literária na categoria "América Latina". Antes de optar por A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, pensei em ler mais um livro de Gabriel Garcia Márquez (Ninguém escreve ao Coronel, como já me indicaram várias vezes), depois pensei em Sepúlveda (trouxe da minha biblioteca de juventude, o Diário de um Killer Sentimental). Até que cheguei a Allende.
"Há muito tempo que não leio nada dela", pensei eu. Poderia ter trazido de casa dos meus pais, qualquer um daqueles que a minha mãe comprou em tempos, não fosse terem sido arrumados em parte incerta. Decidi trazer um da biblioteca. Fui lá no dia 27 e, entretanto, já o terminei.
As minhas expetativas eram nulas. Não conhecia rigorosamente nada do enredo. Sabia apenas que foi dos primeiros romances da autora. E gostei imenso. Atravessamos cerca de 65 anos da história da família del Valle e Trueba, num país não nomeado da América Latina. Não é preciso sermos génios para perceber que se trata do Chile, como é óbvio.
Os del Valle, uma família endinheirada, têm 10 filhos, sendo que a mais nova, Clara, tem o dom da clarividência. Esteban Trueba é um jovem ambicioso e trabalhador que sonha casar com Rosa, uma das filhas dos del Valle, apesar da sua condição mais humilde.
Entretanto, Rosa morre, e Esteban, apesar da dor da perda da noiva, acaba por casar, alguns anos depois com a jovem Clara. Desse casamento nascem Blanca e os gémeos Jaime e Nicolau.
Vemos Esteban prosperar economicamente, e a ascender politicamente dentro do Partido Conservador.
Isabel Allende é, especialmente, descritiva nos movimentos políticos emergentes na época e da tentativa de instaurar um governo socialista no país. A figura do Presidente é referida muitas vezes, até ao golpe de estado militar. É fácil para nós assumirmos que o Presidente (sem nome) é o retrato de Salvador Allende e que o novo governante é uma figura militar ditatorial (Pinochet).
O casamento e a relação de Esteban e Clara é marcada por altos e baixos - mais baixos do que altos - muito devido ao mau génio de Esteban, um homem ultra-conservador e dado a ataques de fúria. A personalidade de Clara é o oposto da do marido. De espírito livre, Clara consegue prever acontecimentos do futuro e passa toda a sua vida a registar cada momento familiar no que ela chama "cadernos de anotar a vida" que, no fim, iriam servir para que a neta, Alba, pudesse escrever, cronologicamente, a história da família.
Clara, Blanca e Alba são as três grandes protagonistas desta obra. Todas elas completamente diferentes entre si, mas todas com uma garra tremendas, apesar de privilegiadas.
Esta minha análise é muito superficial. A história não é assim tão linear. O livro é escrito através de dois pontos de vista diferentes: o de Alba, de acordo com o que viveu e escreveu baseado nos cadernos da avó, intercalado com a visão de Esteban que aparece em discurso direto em vários momentos da narrativa.
E temos aqueles momentos quase mágicos de Clara, com as suas "esquisitices", excentricidades como lhe chamam... a mulher que consegue tocar piano com a tampa do teclado fechada, a mulher que consegue prever mortes e tremores de terra, a mulher que consegue mexer objetos com a mente... é de um realismo tão fantástico que, quase somos levados a crer, que efetivamente as coisas possam ter sido assim.
É um livro que recomendo vivamente. É um romance que fala de amor, perseverança, valores morais, valores familiares, vingança, destino, magia, política e vida.
Citação escolhida:
"Há muito tempo que não leio nada dela", pensei eu. Poderia ter trazido de casa dos meus pais, qualquer um daqueles que a minha mãe comprou em tempos, não fosse terem sido arrumados em parte incerta. Decidi trazer um da biblioteca. Fui lá no dia 27 e, entretanto, já o terminei.
As minhas expetativas eram nulas. Não conhecia rigorosamente nada do enredo. Sabia apenas que foi dos primeiros romances da autora. E gostei imenso. Atravessamos cerca de 65 anos da história da família del Valle e Trueba, num país não nomeado da América Latina. Não é preciso sermos génios para perceber que se trata do Chile, como é óbvio.
Os del Valle, uma família endinheirada, têm 10 filhos, sendo que a mais nova, Clara, tem o dom da clarividência. Esteban Trueba é um jovem ambicioso e trabalhador que sonha casar com Rosa, uma das filhas dos del Valle, apesar da sua condição mais humilde.
Entretanto, Rosa morre, e Esteban, apesar da dor da perda da noiva, acaba por casar, alguns anos depois com a jovem Clara. Desse casamento nascem Blanca e os gémeos Jaime e Nicolau.
Vemos Esteban prosperar economicamente, e a ascender politicamente dentro do Partido Conservador.
Isabel Allende é, especialmente, descritiva nos movimentos políticos emergentes na época e da tentativa de instaurar um governo socialista no país. A figura do Presidente é referida muitas vezes, até ao golpe de estado militar. É fácil para nós assumirmos que o Presidente (sem nome) é o retrato de Salvador Allende e que o novo governante é uma figura militar ditatorial (Pinochet).
O casamento e a relação de Esteban e Clara é marcada por altos e baixos - mais baixos do que altos - muito devido ao mau génio de Esteban, um homem ultra-conservador e dado a ataques de fúria. A personalidade de Clara é o oposto da do marido. De espírito livre, Clara consegue prever acontecimentos do futuro e passa toda a sua vida a registar cada momento familiar no que ela chama "cadernos de anotar a vida" que, no fim, iriam servir para que a neta, Alba, pudesse escrever, cronologicamente, a história da família.
Clara, Blanca e Alba são as três grandes protagonistas desta obra. Todas elas completamente diferentes entre si, mas todas com uma garra tremendas, apesar de privilegiadas.
Esta minha análise é muito superficial. A história não é assim tão linear. O livro é escrito através de dois pontos de vista diferentes: o de Alba, de acordo com o que viveu e escreveu baseado nos cadernos da avó, intercalado com a visão de Esteban que aparece em discurso direto em vários momentos da narrativa.
E temos aqueles momentos quase mágicos de Clara, com as suas "esquisitices", excentricidades como lhe chamam... a mulher que consegue tocar piano com a tampa do teclado fechada, a mulher que consegue prever mortes e tremores de terra, a mulher que consegue mexer objetos com a mente... é de um realismo tão fantástico que, quase somos levados a crer, que efetivamente as coisas possam ter sido assim.
É um livro que recomendo vivamente. É um romance que fala de amor, perseverança, valores morais, valores familiares, vingança, destino, magia, política e vida.
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Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o trânsito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas. Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória.
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quarta-feira, 24 de abril de 2019
Lido: Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway
Por quem os sinos dobram antes de mais, "abre" com um fantástico poema (No man is a Island) do poeta inglês John Donne (1572-1631).
Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra;
se um torrão é arrastado para o Mar,
a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a Morte de qualquer homem diminui-me,
porque sou parte do género humano.
E por isso não perguntes
por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti.
Por quem os sinos dobram é um livro com um ritmo lento. Às vezes, demasiado lento. É um livro que contém muitas e profundas reflexões sobre a condição humana, sobre a esperança, a coragem e sobre a morte. Especialmente sobre a morte. Aliás, as citações que destaquei - e foram bastantes - durante a leitura, são quase todas sobre a morte e a sua inevitabilidade.
Robert Jordan é um americano, voluntário na Guerra Civil Espanhola, lutando pelos Republicanos, e cuja missão é fazer explodir uma determinada ponte. Robert integra um bando de guerrilheiros civis que lutam pela causa republicana e que é composto pelo mais absurdo conjunto de gente.
É um livro algo datado, confesso. Não é uma obra que se leia de um só fôlego. É um livro para se ir lendo. Não é, portanto, aconselhado a pessoas que gostam de ação desenfreada a cada página, nem para os leitores da era moderna que esperam ter, constantemente, picos de adrenalina. Como disse antes, é muito rico em reflexões. Deparamo-nos, frequentemente, com páginas inteiras de pensamentos de algumas personagens - especialmente de Robert Jordan.
Fiz esta leitura em conjunto com a Cristina do Linked Books, como referi cada vez que falava deste livro. E saio muito feliz com esta primeira experiência de leitura conjunta: a Cristina e eu tínhamos um ritmo semelhante de leitura e, quando trocávamos as nossas opiniões, destacávamos pormenores diferentes de situações que lêramos antes. Pude "saborear" a minha leitura, e completar com a interpretação da Cristina de outros momentos.
Não é um livro 5 estrela, porque acho que está envelhecido, mas é um livro interessante. Costumo dizer que se um livro me ensina qualquer coisa, dou o tempo por bem empregue e trata-se de um livro que cumpriu uma das suas (muitas) missões. Eu sabia zero da Guerra Civil Espanhola. Agora, sei um bocadinho mais que antes.
Esta leitura foi a 35.ª do ano e contou para a maratona literária e para o projeto #abrilhistórico da Miúda Geek.
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terça-feira, 23 de abril de 2019
Leituras de maio
Com abril quase a terminar, está na hora de pensar o que vou ler nas próximas semanas.
A Patrícia Rodrigues, com o seu projeto Lusiteratura, já divulgou as categorias do mês de maio (o link remete para o canal dela):
- Autor que nunca tenhas lido
- Autor com o mesmo nome ou apelido que o teu
Tenho participado desde março, em pelo menos uma categoria... mas, para este mês, e estas categorias, não tenho grandes ideias. Tenho um livro de António Lobo Antunes. Nunca li este autor, mas comecei há uns tempos, as primeiras páginas, e não consegui avançar. E há também a autora Cristina Carvalho que também nunca morou por estas bandas e tem uns títulos interessantes. E ainda a Dulce Maria Cardoso (também sou Maria). Veremos...
De resto, estou a participar na maratona Volta ao Mundo em 15 Citações, e estou indecisa por onde continuar.
Tenho um livro do Sepúlveda já designado para a categoria América Latina, mas não estou muito para aí virada. Talvez traga qualquer coisa de Isabel Allende da biblioteca, na próxima ida.
Para a categoria Países Africanos, estou decidida a ler Chimamanda Ngozi Adichie, mas estou indecisa entre A coisa à volta do teu pescoço e A cor do hibisco.
Se em abril, tinha muito para onde me virar - tinha em mão, cinco livros - para este mês de maio, tenho duas mãos cheias de indecisões.
A Patrícia Rodrigues, com o seu projeto Lusiteratura, já divulgou as categorias do mês de maio (o link remete para o canal dela):
- Autor que nunca tenhas lido
- Autor com o mesmo nome ou apelido que o teu
Tenho participado desde março, em pelo menos uma categoria... mas, para este mês, e estas categorias, não tenho grandes ideias. Tenho um livro de António Lobo Antunes. Nunca li este autor, mas comecei há uns tempos, as primeiras páginas, e não consegui avançar. E há também a autora Cristina Carvalho que também nunca morou por estas bandas e tem uns títulos interessantes. E ainda a Dulce Maria Cardoso (também sou Maria). Veremos...
De resto, estou a participar na maratona Volta ao Mundo em 15 Citações, e estou indecisa por onde continuar.
(comecei, ontem, dia 22 de abril, o livro Se Isto é um Homem, de Primo Levi (categoria Itália), que, de certeza, termino antes do fim do mês, e portanto, não deverá transitar para maio)
Tenho um livro do Sepúlveda já designado para a categoria América Latina, mas não estou muito para aí virada. Talvez traga qualquer coisa de Isabel Allende da biblioteca, na próxima ida.
Para a categoria Países Africanos, estou decidida a ler Chimamanda Ngozi Adichie, mas estou indecisa entre A coisa à volta do teu pescoço e A cor do hibisco.
Se em abril, tinha muito para onde me virar - tinha em mão, cinco livros - para este mês de maio, tenho duas mãos cheias de indecisões.
(a.j.u.d.e.m-m.e.)
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sexta-feira, 19 de abril de 2019
Lido: Contos Fluminenses, de Machado de Assis
Esta leitura foi um "três em um": cumpri o desafio 12 "Brasil", da maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações e participei em duas propostas para este mês - #abrillerbrasil da Raquel do So Happy with Less e o #abrilcontosmil da Mafalda.
De Machado de Assis, já tinha lido O Alienista e A Pianista - novelas que gostei imenso. Então, tendo encontrado na Amazon este conjunto de contos do autor, decidi avançar com esta leitura.
Não sou uma rapariga de contos. Pronto, está confessado. Mas como queria participar neste dois projetos, dei o corpo às balas. Não amei o livro, mas também não dei o tempo como perdido. Em pouco mais de 2h30, terminei este livro que era composto por sete contos:
- Miss Dollar
- Luís Soares
- A Mulher de Preto
- O Segredo de Augusta
- Confissões de uma Viúva Moça
- Linha Reta e Linha Curva
- Frei Simão
O meu problema com os contos é que as personagens ficam muito pela rama, e não temos tempo de gostar ou antipatizar com os protagonistas. Gostei muito dos livros anteriores: eram livros curtinhos, mas com um desenvolvimento q.b.. Os contos, quando damos por eles, já acabaram e ficamos com um ligeiro travo amargo na boca, do género "acaba assim?". Por isso é que não invisto tanto de mim neste género.
Nestes contos, publicados em 1870, temos muitas histórias de amor, mas pejadas de mal-entendidos, falhas de comunicação e um bocadinho de humor pelo meio. Os que mais gostei foram Luís Soares, O Segredo de Augusta e Frei Simão. Os outros quatro estão sólidos na segunda posição do meu afeto.
Este livro está disponível gratuitamente, basta "googlar" o nome et voilà!
No âmbito destes dois projetos, comecei a ler também "Úrsula e outras obras", de Maria Firmina dos Reis - a primeira escritora negra da literatura brasileira. Li apenas "A escrava", um conto abolicionista, e desde já, um dos temas mais frequentes desta autora. Gostei imenso deste conto, mas optei por deixar este livro para outra ronda.
De Machado de Assis, já tinha lido O Alienista e A Pianista - novelas que gostei imenso. Então, tendo encontrado na Amazon este conjunto de contos do autor, decidi avançar com esta leitura.
Não sou uma rapariga de contos. Pronto, está confessado. Mas como queria participar neste dois projetos, dei o corpo às balas. Não amei o livro, mas também não dei o tempo como perdido. Em pouco mais de 2h30, terminei este livro que era composto por sete contos:
- Miss Dollar
- Luís Soares
- A Mulher de Preto
- O Segredo de Augusta
- Confissões de uma Viúva Moça
- Linha Reta e Linha Curva
- Frei Simão
O meu problema com os contos é que as personagens ficam muito pela rama, e não temos tempo de gostar ou antipatizar com os protagonistas. Gostei muito dos livros anteriores: eram livros curtinhos, mas com um desenvolvimento q.b.. Os contos, quando damos por eles, já acabaram e ficamos com um ligeiro travo amargo na boca, do género "acaba assim?". Por isso é que não invisto tanto de mim neste género.
Nestes contos, publicados em 1870, temos muitas histórias de amor, mas pejadas de mal-entendidos, falhas de comunicação e um bocadinho de humor pelo meio. Os que mais gostei foram Luís Soares, O Segredo de Augusta e Frei Simão. Os outros quatro estão sólidos na segunda posição do meu afeto.
Este livro está disponível gratuitamente, basta "googlar" o nome et voilà!
* * *
No âmbito destes dois projetos, comecei a ler também "Úrsula e outras obras", de Maria Firmina dos Reis - a primeira escritora negra da literatura brasileira. Li apenas "A escrava", um conto abolicionista, e desde já, um dos temas mais frequentes desta autora. Gostei imenso deste conto, mas optei por deixar este livro para outra ronda.
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quinta-feira, 18 de abril de 2019
Lido: O Caçador de Pipas / O Menino de Cabul, de Khaled Hosseini
Khaled Hosseini é, oficialmente, uma pessoa má. Não consigo ler nenhum livro dele, sem me desfazer em lágrimas.No ano passado, li o livro Mil Sóis Resplandecentes, o 2.º romance deste autor afegão-americano. E fiquei com imensa vontade de ler o seu best-seller O Menino de Cabul. Trouxe, contudo, da biblioteca, a edição brasileira, com o título O Caçador de Pipas.
Estou desfeita por dentro. Que livro fabuloso. Começamos com um jovem, em 2001, a receber uma chamada telefónica e a informar a esposa que tem de viajar para o Paquistão. A partir daí, seguimos Amir a contar a sua história. E recuamos a Cabul, nos anos 70, quando tudo ainda era tranquilo e normal.
Amir é uma criança privilegiada. Tem 12 anos, vive com o pai (a mãe faleceu após o parto) numa casa enorme, e tem os empregados Ali, e o seu filho Hassan. Ficamos mais tarde a saber que Ali havia sido acolhido, em criança, pelo avô de Amir, e criado quase como um irmão do pai de Amir, apesar de ser de uma etnia considerada menor.
Amir e Hassan crescem juntos, mas o 1.º não compreende os cuidados que o seu próprio pai tem para com o filho do empregado. Juntos, os dois rapazes entram, habitualmente, em competições de lançamento de papagaios de papel (as pipas), e no dia em que Amir vence uma competição, vê o seu amigo a ser abusado sexualmente por outro rapaz. Amir, cobardemente, não interfere, foge, e, incomodado com o facto de não ter sido capaz de defender o amigo, egoistamente, arranja uma forma de Ali e Hassan saírem lá de casa.
Entretanto, a situação política do Afeganistão altera-se radicalmente, e Amir e o pai conseguem fugir para os Estados Unidos, onde seguem com a sua vida. Amir forma-se, casa-se e torna-se um autor com alguma fama. Contudo, o passado volta a bater-lhe à porta e Amir é obrigado a fazer o que nunca fez: tomar uma decisão, que vai ser transformadora e redentora pela traição que protagonizou em criança.
Adorei. Além da história estar profundamente bem escrita, Hosseini escreve sobre as transformações no Afeganistão de uma maneira tão descomplicada que, qualquer pessoa, entenderá as repercussões que teve junto das pessoas. Algumas descrições são brutais. Há uma parte em que o vilão conta como entrou numa casa e simplesmente disparou sobre todas as pessoas que lá viviam; incluiu a descrição de como "cortou" ao meio uma criança, com as balas. A maldade dos talibã. A dor que provocaram. Sentimos isso. E ficamos incomodados.
Ainda não vi o filme, porque queria ler primeiro o livro. Entretanto, já vi o trailer. E voltei a chorar.
Este livro conta para a maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações, desafio 13 "Países árabes", e é 33.º livro concluído em 2019.
Citações escolhidas - e há muitas neste livro:
"Sabia que Hassan e você mamaram do mesmo leite? Sabia disso, Amir agha? Ela se chamava Sakina. Era uma linda hazara de olhos azuis, nascida em Bamiyan, e cantava para vocês velhas cantigas de casamento. Dizem que as pessoas que mamam do mesmo leite são como irmãs. Sabia disso?"
* * *
"Senti uma onda de tristeza. Estar de volta a Cabul era como ir ao encontro de um velho amigo que tínhamos esquecido, e ver que a vida não tinha sido boa para com ele; que se tinha tornado um indigente, um sem-teto."
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terça-feira, 16 de abril de 2019
Lido: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata
Tirando Murakami, não me recordo de alguma vez ter lido algum autor japonês. E de Yasunari Kawabata, tentei ler "Terra de Neve" há alguns anos, mas, por alguma razão que já não recordo, coloquei-o de lado.
Como falar de A Casa das Belas Adormecidas?? Nesta obra, seguimos Eguchi, um homem de 67 anos que vai, pela primeira vez, ao espaço conhecido por Casa das Belas Adormecidas. Ali, homens, podem dormir com jovens raparigas, nuas, que estão sob a influência de alguma droga que as deixa completamente adormecidas.
Os homens são deixados, perfeitamente, à vontade e podem o que lhes aprouver com estas raparigas - há algumas regras, mas subtis.
Neste livro, acompanhamos cinco visitas de Eguchi a esta casa, e todas as impressões que o homem tem das raparigas. Amor, ternura, sensualidade, paixão... estas e outras sensações são despertadas, muitas vezes, acompanhadas de memórias antigas das mulheres que passaram na vida de Eguchi: a mãe, a esposa, as três filhas, as namoradas, a mulher a quem deu o 1.º beijo...
Mais do que um livro que explora o corpo das mulheres, que estão ali, simplesmente adormecidas, e com a garantia que não acordarão, é um livro que fala da velhice, da inevitabilidade da morte, de erotismo... Eguchi, apesar de desperto, recusa-se a abusar dos corpos virgens das moças. Observa-as, toca-as, cheira-as... como li no texto introdutório é a revelação do "corpo da mulher em seu mais subtil esplendor".
É um livro pequenino e lê-se rapidamente. Insere-se na categoria 6 "Japão da maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações.
Citação escolhida:
Curiosidade:
no tal texto introdutório que já citei, lemos que este livro "apresenta um inegável parentesco com Diário de um velho louco de Junichiro Tanizaki", e sabemos que A Casa das Belas Adormecidas inspirou Gabriel García Márquez a escrever Memórias das Minhas Putas Tristes.
Como falar de A Casa das Belas Adormecidas?? Nesta obra, seguimos Eguchi, um homem de 67 anos que vai, pela primeira vez, ao espaço conhecido por Casa das Belas Adormecidas. Ali, homens, podem dormir com jovens raparigas, nuas, que estão sob a influência de alguma droga que as deixa completamente adormecidas.
Os homens são deixados, perfeitamente, à vontade e podem o que lhes aprouver com estas raparigas - há algumas regras, mas subtis.
Neste livro, acompanhamos cinco visitas de Eguchi a esta casa, e todas as impressões que o homem tem das raparigas. Amor, ternura, sensualidade, paixão... estas e outras sensações são despertadas, muitas vezes, acompanhadas de memórias antigas das mulheres que passaram na vida de Eguchi: a mãe, a esposa, as três filhas, as namoradas, a mulher a quem deu o 1.º beijo...
Mais do que um livro que explora o corpo das mulheres, que estão ali, simplesmente adormecidas, e com a garantia que não acordarão, é um livro que fala da velhice, da inevitabilidade da morte, de erotismo... Eguchi, apesar de desperto, recusa-se a abusar dos corpos virgens das moças. Observa-as, toca-as, cheira-as... como li no texto introdutório é a revelação do "corpo da mulher em seu mais subtil esplendor".
É um livro pequenino e lê-se rapidamente. Insere-se na categoria 6 "Japão da maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações.
Citação escolhida:
"Contudo, a primeira noite naquela casa não o marcou pelas recordações repugnantes. Era evidente que havia pecado, mas sentia que, nos seus 67 anos de vida, nunca tivera com uma mulher uma noite tão casta como aquela."
no tal texto introdutório que já citei, lemos que este livro "apresenta um inegável parentesco com Diário de um velho louco de Junichiro Tanizaki", e sabemos que A Casa das Belas Adormecidas inspirou Gabriel García Márquez a escrever Memórias das Minhas Putas Tristes.
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domingo, 14 de abril de 2019
Lido: As Intermitências da Morte, de José Saramago
Habitualmente, quando falo de Saramago - além de quase fazer uma reverência - dou sempre como referência o livro Intermitências da Morte.Este livro foi publicado nos idos de 2005, e devo tê-lo lido por volta dessa mesma altura. Quase 15 anos, portanto. A memória que guardava dele é que era engraçado. Que falava do tema "morte", mas com sentido de humor. No início do mês, devolveram-mo. Julgava eu que o meu querido Saramago estaria, algures, encaixotado. Estava emprestado. Há mais anos do que aqueles suficientes para me lembrar.
Quando o voltei a pôr nas prateleiras, foi como se revisse um velho amigo, depois de anos de separação. E inspirada por um booktuber do Brasil, decidi que, este ano, iria relê-lo.
Calhou a Patrícia Rodrigues - do blogue (e canal) O Prazer das Coisas - ter desenvolvido o projeto Lusiteratura, que pretende promover os autores nacionais. E, em abril, uma das categorias era "Autor com mais de 35 anos". O senhor faleceu com 88 anos, portanto, creio que se encaixa. Ao mesmo tempo, com a maratona da Volta ao Mundo, dá para "inserir" no desafio Portugal. Esta releitura é, então, um 3 em 1 mais do que apropriado.
Do que se trata As Intermitências da Morte? Um dia, num país nunca identificado, no 1.º de janeiro, ninguém morreu. Várias pessoas ficaram no limbo entre a morte e não morte, e simplesmente, com o passar dos dias, ninguém morria... simplesmente.
Toda esta anormalidade criou um caos enorme neste país: as indústrias ligadas à morte, como os agente funerários estavam à beira do colapso, os hospitais e lares tinham mais doentes e utentes do que a capacidade real, as famílias desesperavam, porque os seus entes ficavam em sofrimento perpétuo.
Tratava-se de uma pequena amostra da morte (assim mesmo: com letra minúscula) de como seria se ninguém morresse. Passados alguns meses, a morte retomou a sua atividade com ligeiras alterações ao seu modus operandi, mas deparou-se com um contratempo que a obrigou a fazer algo inesperado.
As Intermitências da Morte foi o 2.º livro que li de Saramago, e ficou-me sempre na memória as trocas e baldrocas desta narrativa escrita de forma tão fantasiosa... sim, porque este livro quase pode ser considerado do género fantástico, se formos rigorosos.
Este livro fala de amor, de esperança, de caos, de tristeza... mas à boa maneira de Saramago. Não se assustem com José Saramago, por favor. Este livro é minúsculo - tem 214 páginas - e é um pedaço de literatura portuguesa tão bem construído, que toda a gente devia ter um exemplar em casa.
Citação selecionada:
"A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."
Goodreads Reading Challenge: 31/45
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sexta-feira, 12 de abril de 2019
As leituras esquizofrénicas do mês - update
Cristina Maria... podias ter mais juizinho? Podias. Vamos lá fazer uma pequena atualização da coisa:
1 - Por Quem os Sinos Dobram - leitura conjunta com a Cristina do Linked Books. Estamos quase quase a meio do livro;
2 - Alice no País da Maravilhas - é a leitura que ando a fazer ao Henrique, aos fins-de-semana, por ser mais denso do que os livrinhos que lhe leio habitualmente. Já passei, ligeiramente, o primeiro terço do livro;
3 - As Intermitências da Morte - é uma releitura que me apeteceu fazer, e que, por acaso, "casa" bem com um dos projetos literários que por aí pulula. Estou ligeiramente a menos de metade do livro;
4 - A Casa das Belas Adormecidas - é uma leitura escolhida para a maratona Volta ao Mundo. Já li, sensivelmente, 1/4 do livro, porque, em casa, só leio livros físicos, e o Kindle é apenas para quando tenho de sair.
5 - O Caçador de Pipas a.k.a O Menino de Cabul - trouxe da biblioteca também para a maratona. É a edição em português do Brasil, por não ter localizado a edição portuguesa. Mas não me faz grande diferença, sinceramente. Estou mesmo mesmo no começo.
Nunca tive muita dificuldade em ler mais do que um livro ao mesmo tempo; basta-me ter um "calendário" (mesmo que mental) de quando e onde ler cada um deles, para conseguir não misturar tudo na minha mente. Mas confesso que, este número de livros, é a 1.ª vez - e não me parece nada saudável...
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domingo, 7 de abril de 2019
Lido: Marina, de Carlos Ruiz Zafón
Nota prévia: leitura efetuada para a maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações e para o desafio #enabrilleemosenespañol, da Ana Lopes, do blogue e canal O sabor dos meus livros.Em dezembro, li o primeiro livro da tetralogia de O Cemitério dos Livros Esquecidos, A Sombra do Vento, e tinha adorado. E, desde aí, fiquei com a intenção de ler os restantes livros de Zafón. Este sábado, decidi tornar-me leitora da Biblioteca Municipal de Sintra, e, numa vista rápida pelas estantes, encontrei este Marina, e tive de o trazer. Prazo de entrega do livro: 29/04/2019. O tempo que demorei a lê-lo? 24 horas.
É tão viciante que enerva. Começamos com o narrador (que mais tarde, viremos a saber que se chama Óscar) a dizer que em Maio de 1980 esteve desaparecido 7 dias e 7 noites. Até que foi encontrado, por um polícia, a vaguear pela estação de comboio. Na página seguinte, começa a ação, propriamente dia. Estamos em Setembro de 1979, e o nosso jovem narrador afirma ter 15 anos e que reside num internato. Todos os dias, quando terminam as aulas, e até à hora de jantar, costuma vaguear por uma zona de Barcelona, composta por mansões abandonadas.
Não resiste ao apelo de entrar numa dessas mansões, atraído por música. Nessa mansão decrépita, assusta-se com um vulto e foge. Apenas quando está a caminho do internato, se apercebe que trouxe um relógio avariado. Essa ideia continua a atormentá-lo, até que se decide voltar, uma semana depois, para o entregar. E é nesse regresso que conhece Marina, uma jovem que vive com o pai, Gérman, o responsável pelo susto de uma semana antes.
Marina e Óscar tornam-se amigos, e a rapariga leva-o a um cemitério meio esquecido da cidade, para observarem uma estranha figura, totalmente trajada de negro. Os dois seguem-na à saída do cemitério. E esse momento, quase sobrenatural, leva-os a uma estufa, onde encontram aquilo que parecem partes de marionetas, que os atacam e perseguem.
E é aqui que começa a parte emocionante do livro, que os faz recuar até décadas atrás, e a perseguir fantasmas do passado. Houve aqui algumas semelhanças com A Sombra do Vento, não nego, mas a narrativa está tão bem escrita, tão fluída, tão cativante que é quase impossível despegar os olhos desta história. Até à última página.
Citação que destaco:
"Às vezes, as coisas mais reais apenas acontecem na imaginação, Óscar - disse ela. - Só recordamos o que nunca aconteceu." - página 92
Goodreads Reading Challenge: 30/45
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terça-feira, 2 de abril de 2019
Lido: A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
Terminei, na segunda-feira, dia 1 de abril, o livro que deu origem ao filme de Kubrick, A Laranja Mecânica, a contar para a maratona Volta ao Mundo - desafio 3: ler um livro do Reino Unido ou Irlanda. Anthony Burgess, o autor, era britânico, nascido em Manchester.
Nota prévia: nunca vi o filme e sabia muito vagamente do que se tratava.
Como falar de A Laranja Mecânica? O livro foi publicado no início dos anos 60, e fala de uma sociedade, inglesa, num futuro próximo.
Alex, o protagonista, é o presumível líder de um grupo, composto por Georgie, Lerdo e Peter (este último o mais reservado da quadrilha). Dividido em três grandes partes (cada uma com sete capítulos), a narrativa é-nos contada por Alex, com recurso a um tipo de calão, muito específico, usado pelos jovens daquele espaço-temporal da obra, o "nadsate".
(felizmente, que o livro tem um dicionário, pois há palavras que conseguimos entender o que significam, através do contexto, mas há outras impossíveis)
Alex e o seu bando costumam passar as noites a beber "leite mais qualquer coisa" e a praticar atos de ultra-violência (a expressão usada na obra é exatamente esta): espancamentos, roubos, violações, destruição de propriedade privada... tudo o que possam imaginar.
Um dia, Alex passa dos limites no seu autoritarismo e, após um assalto particularmente violento, é deixado pelos companheiros, propositadamente, para ser apanhado pela polícia. Depois de dois anos preso - Alex já com cerca de 17 anos - é submetido a um tratamento de condicionamento (aqui, lembrei-me muito da experiência de Pavlov com os cães) e libertado. A terceira parte do livro é tudo o que decorre da libertação.
Não quero pormenorizar muito, portanto, de forma, muito resumida, é este o enredo de A Laranja Mecânica. Temos, neste livro, uma nota introdutória que explica o processo da escrita, bem como o facto da edição britânica ter um final diferente da edição americana, e conta como, nos anos 70, o autor Anthony Burgess se enfureceu com Kubrick, na sequência da famosa adaptação cinematográfica que, aparentemente, teve demasiadas liberdades artísticas, que não agradaram o autor (que suponho não deva ter sido consultado para essas alterações).
Gostei muito desta leitura, e dei 4 estrelas. A dificuldade inicial em entrar no calão e o facto de me obrigar a consultar o dicionário a cada 10 segundos não me deixa dar as 5 estrelas. Depois, quando já estamos cientes do significado de algumas das palavras mais usadas, o ritmo de leitura aumenta, mas até lá, é meio complicado. Mas é uma obra fabulosa e adoro a simplicidade da capa da edição da Alfaguara.
Citação que destaco:
Goodreads Reading Challenge: 29/45
Nota prévia: nunca vi o filme e sabia muito vagamente do que se tratava.
Como falar de A Laranja Mecânica? O livro foi publicado no início dos anos 60, e fala de uma sociedade, inglesa, num futuro próximo.
Alex, o protagonista, é o presumível líder de um grupo, composto por Georgie, Lerdo e Peter (este último o mais reservado da quadrilha). Dividido em três grandes partes (cada uma com sete capítulos), a narrativa é-nos contada por Alex, com recurso a um tipo de calão, muito específico, usado pelos jovens daquele espaço-temporal da obra, o "nadsate".
(felizmente, que o livro tem um dicionário, pois há palavras que conseguimos entender o que significam, através do contexto, mas há outras impossíveis)
Alex e o seu bando costumam passar as noites a beber "leite mais qualquer coisa" e a praticar atos de ultra-violência (a expressão usada na obra é exatamente esta): espancamentos, roubos, violações, destruição de propriedade privada... tudo o que possam imaginar.
Um dia, Alex passa dos limites no seu autoritarismo e, após um assalto particularmente violento, é deixado pelos companheiros, propositadamente, para ser apanhado pela polícia. Depois de dois anos preso - Alex já com cerca de 17 anos - é submetido a um tratamento de condicionamento (aqui, lembrei-me muito da experiência de Pavlov com os cães) e libertado. A terceira parte do livro é tudo o que decorre da libertação.
Não quero pormenorizar muito, portanto, de forma, muito resumida, é este o enredo de A Laranja Mecânica. Temos, neste livro, uma nota introdutória que explica o processo da escrita, bem como o facto da edição britânica ter um final diferente da edição americana, e conta como, nos anos 70, o autor Anthony Burgess se enfureceu com Kubrick, na sequência da famosa adaptação cinematográfica que, aparentemente, teve demasiadas liberdades artísticas, que não agradaram o autor (que suponho não deva ter sido consultado para essas alterações).
Gostei muito desta leitura, e dei 4 estrelas. A dificuldade inicial em entrar no calão e o facto de me obrigar a consultar o dicionário a cada 10 segundos não me deixa dar as 5 estrelas. Depois, quando já estamos cientes do significado de algumas das palavras mais usadas, o ritmo de leitura aumenta, mas até lá, é meio complicado. Mas é uma obra fabulosa e adoro a simplicidade da capa da edição da Alfaguara.
Citação que destaco:
"A bondade vem de dentro, 6655321. A bondade é algo que se escolhe.
Quando um homem perde a capacidade de escolha, deixa de ser homem." - página 132
Goodreads Reading Challenge: 29/45
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segunda-feira, 1 de abril de 2019
Em abril
"E como vai ser o teu abril, Cristina Maria?" - já vos oiço a perguntar. Nada temeis. Vou responder.
Neste momento, gostaria muito de participar em vários desafios literários, que pululam no Youtube, junto da comunidade livrólica:
Neste momento, gostaria muito de participar em vários desafios literários, que pululam no Youtube, junto da comunidade livrólica:
Quero participar no #abrillerBrasil, do canal So happy with Less.
Vou ler um livro de contos brasileiros para a maratona e, de uma só vez, "elimino" dois desafios.
Vou ler um livro de contos brasileiros para a maratona e, de uma só vez, "elimino" dois desafios.
Quero participar no #abrilhistórico, do canal A Miúda Geek.
Está agendada a leitura conjunta com a Cristina do Linked Books, do Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, que, simultaneamente, entra neste desafio e numa das categorias da maratona. Este deverá ser o livro mais moroso, mas logo se vê como corre.
Está agendada a leitura conjunta com a Cristina do Linked Books, do Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, que, simultaneamente, entra neste desafio e numa das categorias da maratona. Este deverá ser o livro mais moroso, mas logo se vê como corre.
Quero participar no #lusiteratura, do canal da Patrícia.
José Saramago e as suas Intermitências da Morte, entram na categoria "Portugal" da maratona e na "Autor com mais de 35 anos" deste desafio da Patrícia.
Quero participar no #enabrilleemosenespañol, do canal da Ana Lopes
José Saramago e as suas Intermitências da Morte, entram na categoria "Portugal" da maratona e na "Autor com mais de 35 anos" deste desafio da Patrícia.
Quero participar no #enabrilleemosenespañol, do canal da Ana Lopes
A Ana apresentou, no dia 25, o desafio de ler espanhol em Abril. Como uma das categorias da maratona é "Espanha", escolhi María Dueñas e o seu "O Tempo entre costuras", que consigo inserir neste desafio.
Portanto, se me der um fanico nas próximas semanas, estas são as razões.
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| E, sim, preciso desta t-shirt na minha vida, como de pão para a boca |
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