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domingo, 4 de agosto de 2019

Lido: A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich

Naquele dia, quando fui à biblioteca, a ideia era trazer o Vozes de Chernobyl, mas ao invés, trouxe este. E não me arrependo. Ouvi maravilhas do Vozes de Chernobyl, mas este é outro murro no estômago de todo o tamanho.

Não tive prazer absolutamente nenhum ao ler este livro. Trata-se de um conjunto de centenas de mulheres que combateram na 2.ª Guerra Mundial, integradas no exército russo. E há testemunhos verdadeiramente horríveis.

Estas mulheres eram voluntárias e desempenhavam todo o tipo de papéis, alguns deles associados a homens. Elas foram enfermeiras, médicas, cozinheiras, lavadeiras, mas também franco-atiradoras batedoras, piloto, tratoristas, mecânicas...

Aqui fala-se de tudo: da receção que tiveram, de como eram tratadas, do que sentiam falta, de amor... e também de como foi regressar - algumas delas, não tinham ninguém as esperá-las. O voltar às rotinas depois da guerra, o lidar com os traumas, numa altura em que falar do assunto era tabu, lidar com ferimentos...

Este livro foi editado algures nos anos 80, quando tinha passado menos de 50 anos desde a guerra. Muitas destas mulheres eram adolescentes durante esses tempos; situar-se-iam na casa dos 60 quando foram feitas as entrevistas... e nota-se em cada reticência, em cada hesitação, em cada silêncio, o sofrimento de deixar para trás as mães, pais, e filhos (em alguns casos), sem ter a certeza de os voltar a encontrar.

Morrer ou matar. Era esse o espírito transmitido por Estaline. Aqueles que fossem feitos prisioneiros deviam suicidar-se; era a única alternativa. Voltar, vivo, para casa, era uma desonra e uma traição ao País... significava que se era colaboracionista.

É um livro muito cruel. Chorei em muitas páginas e, sinceramente, não sei se estou pronta para o Vozes de Chernobyl.

Esta foi uma leitura no âmbito do Book Bingo Leituras ao Sol, categoria "autor que gostavas de conhecer".


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Lido: O Destino do Capitão Blanc, de Sérgio Luís de Carvalho

Raramente encontro livros portugueses, sobre a I Guerra Mundial. É problema meu? Ou não há assim tantos? Esclareçam-me, por favor.

Esta leitura foi realizada no âmbito do projeto da Patrícia Rodrigues, Lusiteratura, e uma das categorias de julho era "romance histórico". Já tinha ouvido várias vezes, o nome deste autor. Tenho inclusivamente um dos seus livros cá em casa, mas trata-se de um livro de perguntas e respostas sobre alguns momentos da História de Portugal.

Assim, temos o Capitão Blanc, que é destacado, pouco antes do Armistício de Novembro de 1918, para ir para França para elaborar um relatório político-militar sobre as suas observações em campo, tanto do Corpo Expedicionário Português, como dos Aliados.

Contudo, aquilo que vê, vai muito além do que esperava. Muitas mortes, muita incompetência, muito desleixo... há medida que o tempo passa, as impressões sobre aquela guerra não se alteram, e isso é bastante evidente nos textos que envia para Portugal, já que Blanc é, simultaneamente, correspondente de um jornal, ligado à ala sidonista.

Todas as experiências que Blanc passa em França alteram de uma maneira inexplicável toda a sua percepção. E, já em Portugal, tinha havido uma nova mudança no Governo, e o seu relatório não é acolhido da forma que ele julgava.

As descrições do autor são de arrepiar. São tão bem escritas, tão vívidas, que cheguei a sentir-me francamente mal-disposta. O final foi inesperado. Não era de todo o que eu esperava, e fiquei desiludida. Atenção: a culpa não é do autor, é minha! O senhor não estava ali para fazer "fan service", entenda-se!

Curiosidade: não conheço o autor, foi a 1.ª vez que li algo dele, mas dá-me a ideia que ele deve ser meu "vizinho". Um dos personagens, o ordenança do Capitão Blanc, é um soldado, o Teles. Um rapaz extremamente cansado da guerra, oriundo de Colares. E mesmo o nosso Capitão Blanc tem várias memórias de quando era mais novo e passava temporadas em casa de uma tia, em Sintra. Fiquei com o feeling que tanta referência a Sintra quererá dizer alguma coisa... quem souber, por favor, deixe aí nos comentários: Sérgio Luís de Carvalho reside em Sintra?

Para quem não conhece a intervenção portuguesa na I Guerra Mundial - aconselho a começar por aqui.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Lido: Chamava-se Sara, de Tatiana de Rosnay

Terminei este livro quase há 10 dias... e ainda não publiquei nada sobre ele... vergonha!!

(terminei outro, já depois deste, e a publicação do post sai amanhã... juro!!)

Gostei imenso deste "Chamava-se Sara". Situa-se em dois tempos: os tempos modernos, onde conhecemos Julia Jarmont, uma jornalista norte-americana, casada com um arquitecto francês, e a viver em França há cerca de 25 anos. É-lhe entregue a investigação do que se passou em julho de 1942, durante a rusga da polícia francesa, aos judeus daquele país. O episódio ficou conhecido como Vel d'Hiver: centenas de judeus franceses foram transportados para o Vélodrome d' Hiver, um recinto desportivo, para daí serem deportados para os campos de concentração nazis.

No decurso da sua investigação, Julia descobre que uma família judia viveu na casa da avó do marido... aquela que iria ser a sua futura casa. Daí, o seu interesse pelo tema cresceu ainda mais e fez de tudo para conseguir descobrir mais sobre esse assunto, para, de alguma forma, conseguir alcançar uma certa paz de espírito.

O 2.º momento passa-se exatamente durante essa rusga. Uma criança, que viremos a saber que se trata de Sara, é levada com os pais para o Vélodrome e depois levada para um campo de concentração. Porém, antes de sair de casa consegue esconder o seu irmãozinho, Michael. De alguma forma, consegue fugir e é acolhida por uma família francesa que, praticamente a adopta.

Este livro é o cruzamento íntimo destas duas narrativas. Gostei muito da escrita da autora, que ainda não conhecia. E, mais uma vez, a realidade consegue dar um pontapé "nos tintins" da ficção. A maldade durante este período horrível da História da Humanidade devia ser um "abre-olhos" para tudo aquilo que, hoje, se passa no quintal ao lado do nosso.

O sofrimento, a dor, a separação, a tortura, a miséria, a fome... ninguém devia passar por uma coisa destas. Fosse nos anos 40 do século passado, ou à beira dos anos 20 do nosso século XXI.

Houve alguns pormenores que não gostei tanto, mas que não comprometem minimamente a experiência de leitura nem a narrativa - é apenas uma questão pessoal; razão pela qual dei 4 estrelas ao livros em vez de 5.

domingo, 21 de julho de 2019

Lido: Deuses Americanos, de Neil Gaiman

Atrasei a publicação do livro Cisnes Selvagens, e este foi por arrasto... entretanto, o Henrique e eu estivemos meio em baixo, e acabei por me deixar ficar. No Instagram, as leituras têm vindo a estar minimamente atuais - que é como quem diz: tenho lá botado umas figurinhas e rascunhado umas palavras só para saberem que estou viva.

Para o Book Bingo, uma das 16 categorias é "ler um livro aconselhado pela pessoa que vive contigo". Pois que, o meu excelso companheiro é fã de Neil Gaiman. E, há pouco tempo, comprou o 1.º volume da graphic novel dos "Deuses Americanos", da Saída de Emergência que, mais uma vez, prima pela escolha fabulosa do seu catálogo.

Segundo li... algures - e a minha memória continua impecável, como vêem -  a graphic novel é, palavra-por-palavra, igual ao livro, portanto, não estou a perder nada e adorar o traçado dos artistas. Neil Gaiman trabalhou com vários desenhadores que deram vida às suas personagens.

Sinceramente, não sei onde é que o homem vai buscar as ideias para aquilo que escreve, mas quero uma dose diária do que ele toma ao pequeno-almoço. Pôr os Deuses antigos a confrontar os novos... é simplesmente lindo.

Shadow Moon sai da prisão dois dias mais cedo, porque recebe a notícia que a mulher morreu num acidente. Para juntar à dose de desgraça, o amigo que supostamente o iria empregar morreu no mesmo acidente. Sem saber para onde ir, desempregado... Moon é empregado por uma estranha figura, Mr. Wednesday, como guarda-costas. Uma posição lucrativa, e com a política de "não fazer perguntas". E é assim que entra num mundo que nunca imaginou, e onde uma guerra está iminente.

O segundo volume, de acordo com o Facebook da Saída de Emergência, está prestes a sair, e eu estou ansiosaaaaa

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Lido: Cisnes Selvagens, de Jung Chang

Mais uma vez, atrasei-me na atualização das leituras realizadas. Desde a última postagem, a 5 de julho, já terminei dois livros, entre os quais este maravilhoso Cisnes Selvagens.


"Precisava" de um livro para a categoria "China" da maratona Volta ao Mundo em 15 Citações. Comecei a ler um de ficção científica - Three Body Problem, de Liu Cixin (e descobri, agora mesmo, que há um filme chinês de 2016, baseado neste livro) - mas não estava a conseguir entrar na história e acabei por o colocar de lado. 

Ouvi algures, em alguma altura da minha vida, alguém a falar dos Cisnes Selvagens (a minha memória funciona assim, ultimamente!). Procurei no catálogo da biblioteca e tinham-no. Trouxe-o na visita seguinte e não me arrependi minimamente. 

Que livro maravilhoso. Foram 5 estrelas, de caras... seriam mais, se o Goodreads assim o permitisse. Acompanhamos a História da evolução da China dos imperadores até à China de Mao Zedong (estou a usar a forma escrita no livro). A autora conta-nos a história da avó materna, da mãe e a sua própria num tempo que vai desde 1924, quando a avó se torna concubina de um poderoso general, até meados dos anos 70, quando a própria autora ganha uma bolsa de estudos, e sai da China, após a morte de Mao. 

É um brutal murro no estômago. Se os livros sobre o Holocausto são de uma brutalidade e deixa-me fisicamente doente ler algumas descrições de como os presos eram tratados e torturados, a arbitrariedade da morte... este, não é menos mau. A forma como certos "opositores" ao regime comunista de Mao eram mortos era completamente louca. Bastava uma denúncia vaga, uma vingança pessoal entre vizinhos que não se davam particularmente bem, ou por ciúmes, por exemplo... era o suficiente para toda uma família ser brutalmente castigada!

As crianças eram, desde o berço, doutrinadas a crer que o presidente Mao era o grande e poderoso de todo o Mundo. E que o Ocidente era um terrível buraco negro de miséria, depravação, fome e pobreza. 

Os próprios pais da autora foram torturados, exilados... e mesmo assim, o nome do pai só ficou totalmente limpo de acusações, alguns anos após a sua morte. Só desta forma é que Jung Chang se pode candidatar a uma bolsa em Inglaterra. 

Aconselho vivamente esta leitura. É um retrato poderosíssimo de um regime que conhecemos tão, mas tão mal... é uma obra magistral. Lindamente escrita. Sem paninhos quentes. A autora reconhece, várias vezes, a sua ingenuidade e acompanhamos o seu crescimento e o seu "abrir" de olhos à medida que os anos iam passando. O livro, publicado no início dos anos 90, é um documento-testemunho de uma China onde ninguém gostaria de regressar. 

Cisnes Selvagenes foi uma leitura a contar para a maratona, como já havia dito, e também para a categoria "Autor que nunca leste" do Book Bingo. 

Citação escolhida: 
"Ele não precisava de ter morrido. E, no entanto, a sua morte parecera tão inevitável. Não havia lugar para ele na China de Mao, porque tentara ser um homem honesto. Fora traído por algo a que dedicara toda a sua vida, e a traição destruíra-o"

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Lido: O Homem da Areia, de Lars Kepler

Que livraço! Ainda tenho os pelinhos dos braços arrepiados. Remonta a dezembro/janeiro, a última vez que li algo que sequer se assemelhasse a um thriller. E já não me lembro da última vez que li um nórdico.

Comprei, há algumas semanas, este "O Homem da Areia" de Lars Kepler, e se, inicialmente, fiquei "lixada" por me aperceber que faz parte de uma saga, também rapidamente isso se dissipou quando li, algures, que podia ser lido como um "stand-alone", ou seja, faz parte de uma série, mas, se lido individualmente, não faz mossa. E assim foi.

Já estava desacostumada de thrillers nórdicos: aquela crueza nas descrições, aqueles banhos de sangue, aquela "miaúfa" psicológica provocada no leitor, aquela sensação estranha de que podemos ser esventrados a qualquer instante... ahhhh, saudades.

O livro começa a descrever uma cena em que vemos um jovem a caminhar, durante a noite, junto a uma linha de comboio. O sangue congelou nas suas roupas - só Deus sabe como a Suécia pode ser fresquinha à noite! Adiante... logo de seguida somos apresentados a um médico que inicia o seu 1.º dia numa unidade de alta segurança de psiquiatria de um hospital. Todos os olhos dos médicos, assistentes e técnicos estão em Jurek Walter, um assassino impiedoso, apanhado e encarcerado há 13 anos.

Mais tarde viremos a saber que o jovem que vimos na introdução é Mikael, um rapaz que foi raptado, com a irmã, há 13 anos, e que nunca havia sido encontrado. Automaticamente, um dos responsáveis pelo caso do duplo rapto, é alertado: Joona Linna.

Também o comissário teve um passado com este serial killer, e é necessário - urgentemente - encontrar a irmã de Mikael que ainda poderá estar viva, mas gravemente doente.

De arrepiar. O livro tem 500 páginas, mas apenas no 1.º dia, li quase 200; ontem à noite, cheguei às 400 e tal. Os capítulos são extremamente curtos 2/3 páginas (às vezes, uma página e meia), e só queremos saber o que vai acontecer a seguir. Ficamos numa ânsia perfeitamente descontrolada e só queremos ler e ler e ler... muito bom. Estou mesmo muito satisfeita e recomendo a quem gosta de thrillers de cortar a respiração.

Esta leitura conta para a maratona "Volta ao Mundo em 15 Citações" (categoria: países nórdicos) e no Book Bingo (categoria "livro que se passe num lugar onde gostasses de passar férias").

Citação escolhida:
"Passados cinco dias, a Polícia emitiu um alerta. Mas Joona Linna não apareceu e, seis meses depois, as buscas foram suspensas. Apenas Saga Bauer continuou a procurá-lo, porque sabia que ele não estava morto". 

domingo, 30 de junho de 2019

Lido: As Noites das Mil e Uma Noites, de Naguib Mahfouz

Este livro conta para dois desafios: a maratona Volta ao Mundo em 15 Citações, na categoria "Países Árabes" e para o BookBingo, na categoria "livro esquecido na estante há mais de 3 anos". Cabe também no meu desafio pessoal de ler mais Prémios Nobel da Literatura.

1.º pensava que tinha o desafio da Volta ao Mundo completo, até um participante ter alertado os gentios que Khaled Hosseini, do Afeganistão, não podia ser, porque este país, se situa... imagine-se no meio da Ásia.
Todo um balde de água fria graças aos senhores americanos para quem, tudo o que não é americano, é árabe. A todo o povo afegão, as minhas desculpas, e confesso publicamente o meu total desconhecimento onde se situa o vosso país. 

Até que depois encontrei este meu exemplar de As Noites das Mil e Uma Noites, de um laureado com o Nobel, oriundo do Cairo: Naguib Mahfouz.

O básico dos Contos das Mil e Uma Noites: um sultão, desvairado ao saber da traição da mulher, decide, após matá-la, dormir todas as noites com uma rapariga diferente, matando-a de manhã. E nisto, passam-se alguns anos. Xerazade, filha do vizir, acaba por ser levada ao sultão.
Mas, nisto, sabendo o que a esperava de manhã, começa a contar uma história. De manhã, a história ainda não conheceu o seu fim, e o sultão, curioso, continua a chamá-la, para saber como acaba. Ao fim de alguns anos, Xerazade é tomada como esposa do sultão, que se encontra arrependido dos seus atos no passado.

Este livro pega no momento em que o sultão chama, ao palácio, o pai de Xerazade e lhe comunica que decidiu tomá-la como esposa. Logo, nas primeiras páginas, vemos uma Xerazade não muito convencida que o sultão modificou o seu comportamento, e com receio que o seu ímpeto sanguinário regresse.

Ao mesmo tempo, a cidade vive tempos conturbados, provocados por alguns génios. Muitas mortes acontecem, muitas aventuras e muitas intrigas palacianas se desenrolam em pouco mais de 200 páginas.

Tive um arranque lento. Estava ali qualquer coisa que me impedia de avançar, mas entretanto, deu-se um "clique" qualquer e, indo na página 64, termi
nei num piscar de olhos.

No GoodReads, atribuí 5 estrelas - mas, no meu coração é um 4,5. Muitos nomes, muitas personagens, génios com a mania das grandezas... enfim, complicou um bocado, no início, até ter decidido ignorar os nomes daquela santa gentinha toda, e concentrar-me no resto.

Citação escolhida:
Se salvares a tua alma de ti mesmo, terás pago o seu direito, e se as pessoas se salvarem de ti, então terás pago os seus direitos.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Lido: O Cônsul Desobediente, de Sónia Louro

Já tinha este livro na mira há imenso tempo. Desde o 1.º dia em que me tornei leitora na biblioteca municipal, reparei que estava nas estantes e já o tive na mão, um par de vezes, para o trazer.

Até que chegou o dia.

O que eu sabia de Sousa Mendes era o básico: cônsul algures em França que, desobedecendo, a ordens de Portugal, passou vistos indiscriminadamente, salvando, assim, uma "catrefada" de judeus dos nazis. E era isto. Um apontamentozinho de nada era tudo o que eu sabia. Uma nota de rodapé, no fundo. A nossa disciplina de História é, realmente, muito básicazinha, benz'a Deus...!

Falando do livro. Adorei a escrita da Sónia Louro, e a quantidade de fontes que ela foi "beber" para ser o mais fiel possível aos factos. O livro tinha imensas notas de rodapé que, quando as comecei a ver, ia-me dando um achaque, mas depois percebi que, muitas delas, eram essenciais à boa compreensão do que lia.

Este livro é quase uma biografia, não fora estar romantizada, e dependente de testemunhos de terceiros, já que nenhum dos envolvidos está vivo para contar os factos tal como aconteceram.

Aristides de Sousa Mendes licenciou-se em Direito, com o seu irmão gémeo, César que - fiquei a saber - também fez carreira diplomática... aliás, tanto Aristides, como César apresentaram-se juntos, em Lisboa, no Ministérios dos Negócios Estrangeiros.

A carreira de Aristides foi evoluindo até que chegou a Cônsul de 1.ª Categoria (com "n" repreensões pelo caminho, das mais diversas naturezas), e foi colocado, em 1938, em Bordéus. Até que a invasão nazi acontece em França.

Sentindo-se assoberbado com o número de pedidos de vistos, a ver as tropas alemãs a aproximarem-se, e conhecendo a realidade, Sousa Mendes, durante vários dias, carimba passaportes e permite passagem à revelia daquela que era conhecida como a "Circular 14" que proibia os consulados de passarem vistos, a não ser que o requerente tivesse bilhete de saída de Portugal e autorização de entrada noutro país. O que claramente não acontecia, como é óbvio.

Em 1940, começa o calvário. Sousa Mendes é castigado: um ano com metade do salário e, posteriormente, aposentação. Mas, Aristides tinha 14 filhos (mais uma bastarda que só foi perfilhada depois de Sousa Mendes ter enviuvado de Angelina, e casado com a mãe da menina), e as dificuldades económicas eram mais que muitas.

Ao longos dos anos, lemos as mais variadas tentativas de Sousa Mendes e da família de tentarem reverter o castigo que acabou, indiretamente, por afetar toda a gente: os filhos não encontravam colocação para trabalhar e foram forçados a emigrar, o irmão também teve dificuldades...

E é tudo isto, e muito mais que Sónia Louro nos apresenta. Sou sincera: várias vezes, me senti de peito apertado ao ler tudo o que se passava com esta família. Só nos anos 80, com Mário Soares é que começou a ser feita justiça a este homem. O último reconhecimento, em 2016, foi a elevação, a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade por Marcelo Rebelo de Sousa, 

Sousa Mendes morreu, na mais completa miséria, em 1954... 

(leitura a contar para o Book Bingo Leituras ao Sol - livro, cujo título, tenha as letras S-O-L)

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Lido: O Prisioneiro do Céu, de Carlos Ruiz Zafón

Estou a sentir que estou a ir demasiado depressa na leitura desta saga. Só falta um para terminar, e não sei se o meu pobre coração aguenta. 

O Prisioneiro do Céu não foi o meu preferido da saga dos Cemitérios Esquecidos. A Sombra do Vento, até ao momento, está nos píncaros. Senti que, apesar de responder a muita coisa, este livro está uns quantos pontos abaixo dos livros anteriores. Parece ter sido escrito um pouco depressa demais, e sem tanto cuidado nos detalhes como A Sombra do Vento ou O Jogo do Anjo. 

Voltamos à família Sempre. Daniel continua a ajudar o pai, na livraria. Casado com Bea, têm um bebé. Fermín está prestes a casar com Bernarda. Tudo parece bem. Até que o passado de Fermín volta para o atormentar. 

Num dia em que se encontra sozinho na livraria, Daniel recebe uma estranha figura que compra um exemplar - caríssimo - de O Conde de Monte Cristo e o manda entregar, acompanhado de uma nota misteriosa, ao próprio Fermín. 

Esse facto alarma Fermín que fica ainda mais esquivo e preocupado do que antes. Até que Daniel o obriga a falar e descobre coisas incríveis que envolvem a morte da sua mãe, David Martín, protagonista de O Jogo do Anjo, Fermín e uma figura proeminente do Governo espanhol.

Como disse antes, este livro parece ter sido um bocado a despachar, contudo, não perdeu aquela aura de fantasia gótica dos livros anteriores. Claro que esse momento está reservado para quando entramos no Cemitério dos Livros Esquecidos, que voltamos a visitar nesta obra. Espero, com todas as minhas forças, que as pontas que ficaram desatadas conheçam um encerramento em O Labirinto dos Espíritos. 

Daqui a algum tempo, irei certamente comprar a saga, já que tenho lido os livros da biblioteca (excepto o 1.º que foi em ebook). Recomendo vivamente que façam o mesmo. Conselho de amiga. 

terça-feira, 25 de junho de 2019

Lido: Um Trono Negro, de Kendare Blake

Estou ligeiramente atrasada na publicação dos meus livros lidos. Tenho neste momento, duas postagens em atraso, portanto... aqui vai uma e amanhã sai a outra (fica já programadinha, como manda a Lei do Senhor, para não voltar a acontecer).

A verdade é só uma: esqueci-me. Completamente. Entre trabalho, preparar as coisinhas para a festa de final de ano do Henrique, a ida à Feira do Livro, organizar (minimamente) as leituras das semanas seguintes... etc, etc, etc...
nem sequer tirei foto!

* * *

Na segunda parte da obra que que começou com "Três Coroas Negras", voltamos a seguir as trigémeas, após a cerimónia que deu início à Aceleração.

Katherine, considerada por muitos, a rainha mais fraca, de repente, re-surge com uma força inimaginável. Arsinoe que, no livro anterior, descobriu possuir outro dom, está a trabalhar para conseguir dominar a melhor forma de vencer as irmãs. Mirabella, antes considerada a rainha com melhor hipótese de ganhar o trono, descobre que há uma conspiração contra ela - dentro da sua própria casa.

A rainha envenenadora pretende livrar-se a todo o custo das irmãs e coroar-se, mas vai enfrentar a oposição de Arsinoe e Mirabella que, ainda assim, acham que é possível haver uma rainha sem haver mortes.

Foi outra leitura fabulosa. Estou a adorar seguir esta saga. A escrita de Blake é muito fluída e a história está muito bem construída; nota-se que foi pensada ao detalhe. Mesmo as personagens secundárias, como Jules, Petyr, Billy ou Joseph... assumem papéis importantíssimos no desenrolar da trama, não se "sujeitando" a simplesmente ver a ação passar à frente deles.

Foram as 5 estrelas mais fáceis de dar, de sempre. As expetativas para o próximo volume são muito altas.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Lido: O Templo de Borkudan, de Helder Martins

Há umas semanas, fui contactada, através do Instagram, pelo autor. Perguntou-me se gostaria de receber um exemplar do seu livro "O Templo de Borkudan - Crónicas de Tellargya" (2013), o primeiro de uma trilogia. Por se tratar de um autor nacional, a dar os primeiros passos, aceitei a oferta. Terminado o livro, passo a escrever a minha opinião, em duas partes distintas: história e forma.

1.ª parte: a história
Não conheço o Helder, nem alguma vez, tinha ouvido falar deste livro. Helzar é um jovem mago, que frequenta uma Academia de artes arcanas, e possui poderes que, na maior parte das vezes, não são reconhecidos pelos seus pares. Tem uma vida muito monótona, até ao dia em que conhece um dragão. Batiza-o de Drinus, pois este ser, não tem qualquer memória, nem sequer do seu próprio nome. Durante cerca de três anos, Drinus é o pequeno segredo de Helzar.
Um dia, a aldeia em que vive é completamente queimada. Muitos dos seus habitantes são mortos, ou acabam por morrer devido ao incêndio. Entre as vítimas, está a mãe de Helzar... assassinada às mãos de Tunnroch.
Para salvar a irmã, Helzar informa Drinus que têm de ir ao Templo de Borkudan, supostamente buscar um mapa que lhes indicará que direção tomar. Mas, a jornada é tudo menos simples, e a chegada ao mítico Templo revelará segredos inimagináveis.
A ideia de uma aventura épica, num mundo em que a magia e a permanente luta entre o bem e o mal são protagonistas agrada-me muito.
O livro é pequeno - 185 páginas - e tem de tudo: partes muito interessantes e rápidas e outras um pouco mais lentas, mas a parte final - as últimas 35/40 páginas são muito sumarentas e fizeram-me querer ir à 2.ª parte. Fiquei com água na boca para saber... só para dar dois exemplos... as origens de Drinus, ou a importância dos poderes de Helzar num mundo de magia.

2.ª parte: a forma
Detetei várias gralhas no livro. Não sou escritora, nem tenho pretensões de o vir a ser. Não conheço o processo criativo que cada autor, nem quais os passos a dar para publicar um livro, mas claramente, o trabalho de revisão deste livro foi colocado num plano secundário - o que é uma pena, porque esta história merecia um bocado mais de esforço por parte da editora (partindo do princípio que seria a editora a entidade responsável por esta parte).
Sou também uma doidinha das vírgulas. Se tivesse sido eu a rever o escrito, tinha sugerido mais um milhão delas. Fizeram-me falta em alguns parágrafos mais longos.

Nota extra: adorei a capa. O segundo volume da trilogia, A Asa da Consequência (2016), também tem uma capa muito bonita.

Sobre o autor:
(retirado do site da Chiado Books)
Helder Manuel Carreira Martins nasceu a 10 de Março de 1986, no Barreiro e reside em Alhos Vedros, concelho da Moita do distrito de Setúbal. A sua formação profissional, no âmbito das Técnicas de Apoio à Gestão, não impede que seja um apaixonado pelo mundo fantástico. O Templo  de  Borkudan  é  a  sua  primeira  experiência  nesta área,  depois  de  ter  tido  um início como hobbie.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Lido: O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafón

Como explicar esta situação? Li este livro em dois dias. Assim mesmo. Decidi, na minha última visita à biblioteca, na passado dia 30 de maio, trazer o 2.º livro da saga do Cemitério dos Livros Esquecidos e comecei logo a ler.

Na 6.ª feira, não tinha muito trabalho, e li mais. Irritei-me durante a tarde - com questões que nada têm a haver com livros e leitura - e para ver se a neura passava, li mais um bocado. E quando dei por mim, já tinha ultrapassado o meio. No sábado, depois de alguns afazeres, estive a ler. E mais um bocadinho antes de dormir. E era quase 1 da madrugada quando pensei que, talvez, fosse boa ideia deitar-me... a faltarem 20 páginas para o final. Terminei no domingo, dia 2 de junho, obviamente.

(Entretanto, este post já está a sair tarde e más horas, porque, mais uma vez, a vida e o trabalho intrometem-se no meio das minhas leituras)

O Jogo do Anjo não é uma continuação de A Sombra do Vento. Funciona, sim, como uma prequela, já que os acontecimentos são anteriores aos do 1.º livro da saga. São livros independentes. Não é necessário ler um para entender o outro, mas complementam-se e partilham personagens e o ambiente fantástico e gótico de uma Barcelona, no início dos anos 20, do século XX.

A escrita de Zafón é irrepreensível. Não há uma vírgula fora do lugar. Não há uma rua que não tenha saída.

Neste livro, que, como já disse, é anterior aos acontecimentos de A Sombra do Vento, conhecemos David Martín, um jovem e desconhecido escritor, que trabalha num jornal barcelonês, a fazer trabalhos de pouca montra. Um dia, é desafiado a escrever um texto ficcionado para o jornal onde trabalha e aí se nota o seu talento para a escrita.

Martín é muito ajudado por Pedro Vidal, um homem bastante rico, filho do principal accionista do jornal e pretenso escritor. Nesta obra, conhecemos também Cristina, filha do motorista de Vidal. Um dia, David é contratado para escrever um conjunto de obras, mas sob pseudónimo: A Cidade dos Malditos, um conjunto de escritos de crime e terror, que colhe bastante sucesso e lhe permite uma vida mais cómoda.

David descobre, entretanto, que tem uma doença terminal. Sem esperança, é contactado por uma estranha figura, Andréas Corelli, que, em troca pela sua saúde, o desafia a escrever um livro que irá revolucionar todo o Mundo.

Como não podia deixar de ser, nada é tão linear e tão simples como parece à primeira vista. O livro termina já depois do nascimento de Daniel Sampere - o protagonista de A Sombra do Vento. O avô dele é um dos grande aliados de David, como veremos ao longo da obra.

Adorei. Zafón é um daqueles nomes da literatura que quero conhecer mais e melhor.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Lido: A Filha da Profecia, de Juliet Marillier

Desta vez, a maratona literária levou-me a "passear" com uma autora oriunda da Nova Zelândia. Mas não foi uma viagem nova: já tinha lido os dois primeiros da trilogia Sevenwaters.


Em A Filha da Profecia, continuamos, portanto, a viagem mística e fantástica iniciada com Sorcha, e continuada no segundo volume com a sua filha Liadan. A protagonista deste volume é Fainne, sobrinha de Liadan (e neta de Sorcha). Fainne é educada fora do ambiente de Sevenwaters e afastada de todos os conflitos que envolvem os bretões; a jovem apenas conhece o ambiente de Kerry, onde reside apenas com o pai, o ex-druida Cíaran, ele próprio filho de Sevenwaters.

Assistimos ao regresso de Lady Oonagh, a feiticeira responsável pelos eventos do primeiro volume, e somos envolvidos numa história de contornos ainda mais envolventes do que nos primeiros livros, na minha opinião.

A determinado momento voltamos a Sevenwaters - contudo, não é lá que se passa a maior parte da ação - mas não deixamos de nos sentir aconchegados, como quando regressamos ao nosso quarto de infância. O líder de Sevenwaters é Sean, irmão gémeo de Liadan, e por só ter filhas, aquele domínio está prometido a Johnny, filho de Liadan e Bran - cuja concepção e nascimento acompanhámos no 2.º volume.  Johnny é um guerreiro nato e o líder que os tempos conturbados precisam.

Temos, tal como nos outros livros, um romance. Aqui, o nosso par é Darragh, um jovem nómada, cuja família, costuma acampar em Kerry, durante o Verão. A ligação desta família a Sevenwaters é subtil, mas existe.

Fainne é uma protagonista forte, mas, ao mesmo tempo é algo insegura do alcance dos seus poderes. Pessoalmente, acho que este livro é ainda melhor do que os anteriores. A presença da magia é mais forte, e o enredo mais complexo. O final é fabuloso.

Não creio que vá avançar para a segunda trilogia. Segundo ouvi e li, não está ao mesmo nível desta e prefiro uma excelente experiência, a uma média ou menos boa.

Livro 1 - A Filha da Floresta
Livro 2 - O Filho das Sombras

Uma trilogia "despachada" em três meses. A ânsia era muita, pelos vistos...

Citação escolhida:
" (...) aprendi que um bretão e um irlandês derramam o mesmo sangue e sentem a mesma dor. O dia mostrara-me que a guerra traz ao de cima tudo o que há de mais bravo num homem. Ela deixa que a sua coragem brilhe. Em tempos de conflito, um homem simples pode tornar-se num herói."

sábado, 25 de maio de 2019

Lido: As aventuras de Tom Bombadil, de J.R.R. Tolkien

Não adorei. Tenho de ser honesta, senão não estou aqui a fazer nada.

Metade do livro são poemas - a parte mais penosa, para mim. E a outra metade são três pequenas novelas, que, sem dúvida, gostei muito mais.

Tentei intercalar, mas cada vez que começava a ler um poema, desatava a bocejar, independentemente das horas do dia.

As novelas - O Ferreiro de Wootton Major, O Lavrador Giles de Ham e A Folha de Niggle - foram uma leitura muito mais agradável, e dentro daquilo que estava à espera.

A primeira passa-se em Woottoon Major, uma pequena localidade, que tem um hábito a cada 24 anos: reúnem todas as crianças de uma determinada idade e é-lhes servido um bolo especial, em que cada criança recebe uma pequena prenda. Numa dessas ocasiões, uma das crianças recebe (por engano?? - quem sabe?!) uma estrela mágica que revoluciona toda a sua vida e as próximas gerações da sua família.

O Lavrador Giles de Ham é um pouco parecida com a história do Alfaiate Valente: um lavrador que, erradamente, é considerado um herói por ter afugentado um gigante, é chamado para livrar a vila de um dragão. Plot twist no final.

Sobre o último conto, A Folha de Niggle: Niggle é pintor e, ao mesmo tempo, uma pessoa que não é capaz de dizer "não" a qualquer pedido que lhe seja feito. Um dia, a meio de uma grande obra, é levado para um local desconhecido e a sua resistência é posta à prova. Outro plot twist no final. Mais ou menos, vá...

As 4 estrelas que dei foram, essencialmente, por causa dos contos / novelas.  Como disse antes, logo no início, não adorei este livro, mas gostei - foi uma leitura muito interessante, e onde consegui distinguir aquelas coisinhas que fazem de Tolkien a grande referência na literatura de fantasia. Aquelas subtilezas onde o nosso amigo George R.R. Martin (entre outros) foi beber.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Lido: Quando Lisboa tremeu, de Domingos Amaral

Há muito que estava interessada em ler Domingos Amaral. Não me perguntem porquê. Os títulos dos livros dele são sempre muito interessantes, e aborda diversos temas da História, seja ela mais contemporânea, ou não. 

Então, quando a Patrícia Rodrigues lançou o vídeo das categorias de maio do projeto #Lusiteratura, depois de muito pensar, optei por este Quando Lisboa tremeu. A premissa era simples: durante o terramoto de 1755, em Lisboa, um grupo de sobreviventes acaba, devido à força das circunstâncias, formar um grupo muito pouco comum. 

Temos Santamaria, um pirata, acompanhado pelo seu companheiro árabe, duas freiras, um rapaz de 12 anos que acredita à viva força que a sua irmã gémea continua viva debaixo dos escombros da sua casa, e um comerciante inglês. 

Todos eles procuravam algo mais das suas vidas, e o terramoto - e o caos que se seguiu - permitiu que tivessem a oportunidade de encontrar esse "algo mais". E, de alguma forma, as suas vidas estão ligadas entre si. 

Dei-lhe 3 estrelas. Não é um mau livro, atenção. Lê-se bem, confirma-se que Domingos Amaral sabe trabalhar com as palavras, tem uma linha de imaginação muito interessante, mas sinto que faltou qualquer coisa, que se perdeu qualquer coisa, entre as idas e vindas dos personagens. 

Uma coisa que me fazia revirar os olhos, confesso, eram as linhas de diálogo das personagens. Uma das freiras falava com sotaque do Norte, havia - de tempos a tempos - outra personagem brasileira, o inglês misturava o português com a sua língua nativa, o árabe não conjugava verbos... por isso, sim, as linhas de diálogo eram um autêntico "corta-entusiasmo". 

Irei, certamente, ler mais Domingos Amaral, e espero, muito sinceramente, que este pormenor que considero um erro estratégico, não se replique. Entendi a intenção dele, mas não gostei. E por causa disso, Quando Lisboa tremeu não irá ser um livro que considere memorável. 

Leitura simpática, sim. Tema interessantíssimo, sem dúvida. Mas encanitei com as falas. Condenem-me!

Esta foi a minha 41.ª leitura de 2019. Tinha posto 45 livros como meta para este ano, no Goodreads Reading Challenge, mas, entretanto, já editei este número e apontei as baterias para os 60. 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Lido: O Conde de Monte Cristo - volume I, de Alexandre Dumas

No último Dia Mundial do Livro, tinha prometido a mim mesma não comprar livros. Tenho dezenas de obras que ainda não li, e mais um punhado deles que gostaria de reler, portanto... não iria comprar livros. Ponto final. 

Guess? Não foi ponto final. 

Acabei por comprar os dois volumes de O Conde de Monte Cristo (editora Relógio D'Água) que estavam na Wook com desconto de 20%. Chegaram no dia seguinte. E foi assim, a minha história. 

Queria ler esta obra... sei lá... desde há muito. E já terminei o volume I. O resuminho básico da obra: Edmond Dantès é um jovem marinheiro, com cerca de 19 anos, que regressa de uma viagem. Ao atracar, informa o armador que o capitão morreu durante a viagem. O senhor Morrel dá-lhe a entender que este infortúnio poderá levar a que Edmond se torne, ele, capitão do barco. Danglars, guarda-livros do barco que não gosta de Edmond, informa Morrel que Edmond os fez "perder tempo" com uma paragem na Ilha de Elba, local onde Napoleão estava exilado. 

Edmond vai visitar o pai e a noiva, mais do que feliz, com a notícia da promoção iminente. E logo começam os preparativos para o casamento. 

Assim, começa a obra. Sendo O Conde de Monte Cristo um clássico, já várias vezes levado aos ecrãs de cinema, sabemos que isto não é assim tão linear. 

Uma tramóia entre várias pessoas que, por variados motivos não gostam de Edmond, leva a que o jovem marinheiro seja encarcerado durante alguns anos no Castelo de If, uma fortaleza/prisão no meio de uma ilha. Aí, acaba por conhecer o Abade Faria que toma para si a missão de instruir Edmond, nos anos seguintes de prisão. Antes de morrer, o Abade diz a Edmond o local onde está escondida uma fortuna que fará dele um milionário quando sair de If. 

Basicamente, o ingrediente principal daquela que está a ser uma das leituras mais entusiasmantes desde ano, é a vingança. Que como sabemos é um prato que se serve frio. 

Neste primeiro volume, começamos a conhecer todos os esquemas que um Edmond mais velho e mais calculista pretende levar a cabo para atingir e destruir os seus inimigos, aqueles que o fizeram perder alguns dos seus melhores anos. Ainda não temos a imagem toda, mas vamos lendo fragmentos, e isso leva-nos a querer mais. O segundo volume está ali, à minha espera. 

O Conde de Monte Cristo entra nas minhas leituras da maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações, no desafio "França". 

Citação escolhida:
"Por fim, caiu do alto do seu orgulho e dirigiu as suas súplicas não a Deus, mas sim ao homem. Deus é sempre o último recurso. Os infelizes que deveriam começar por Deus, não têm qualquer esperança nele até esgotarem todas as outras hipóteses". 

terça-feira, 14 de maio de 2019

Balanço da maratona literária

Decidi escrever este texto para fazer um pequeno balanço da minha participação, até ao momento, na maratona literária Volta ao Mundo em 15 Citações. A maratona começou a 25 de março e prolonga-se até 21 de julho. Estamos, portanto, sensivelmente a meio (mais dia, menos dia).

Dos 15 desafios principais:
 - já completei 11, estão dois em curso e dois ainda por decidir (tenho uma ideia, mas não me quero comprometer inteiramente);
- das 11 leituras concluídas, li apenas duas mulheres (tenho uma 3.ª em curso) e três Nobel da Literatura, e pelo menos sete clássicos/clássicos modernos;
- das 11 leituras completas, li nove livros físicos e dois ebooks.

1 América Latina (escolher 1 país)
Inicialmente pensei ler "Ninguém escreve ao Coronel", de Gabriel García Márquez, mas optei por "A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende - concluído

2 Espanha
Propus-me ler "Tempo entre Costuras", de Maria Dueñas, mas acabei por ler o "Marina" de Carlos Ruiz Záfon - concluído

3 Reino Unido (ou) Irlanda
"A laranja mecânica", de Anthony Burgess - concluído

5 Países nórdicos (escolher 1 país)
Totalmente em aberto

7 Ex-URSS
Tinha ficado em aberto. Escolhi "A morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi - concluído

8 País à escolha (Não pode ser repetido)
Pensei em ler "Neve", de Orhan Pamuk, da Turquia - estou a ler "A Filha da Profecia", de Juliet Marillier (Nova Zelândia), e com ele termino a trilogia Sevenwaters - em curso

9 E.U.A. (ou) Canadá
"Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway - concluído

11 França
Outro desafio que estava por determinar. Estou a ler o 1.º volume de "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas - em curso

12 Brasil
Comecei a ler "Úrsula e outras histórias", de Maria Firmina dos Reis, mas mudei para "Contos Fluminenses", de Machado de Assis - concluído

13 Países árabes (escolher 1 país)
Estava inclinada para "O Menino de Cabul", de Khaled Hosseini, e assim foi - concluído

14 Países africanos (escolher 1 país)
"Hibisco Roxo", de Chimamanda - concluído

15 China
Já tenho o ebook de "O problema dos três corpos", de Liu Cixin - mas ainda está em aberto.

domingo, 12 de maio de 2019

Lido: A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi

Julgo que foi no início do ano que ouvi falar deste livro e fiquei bastante curiosa. Desde há algum tempo que ando a trabalhar numa lista de livros dos clássicos russos que gostaria mesmo de ler, e este A morte de Ivan Ilitch, apesar de ser uma obra pequenina (91 páginas), colheu grandes elogios. 

Na minha mais recente visita à biblioteca, trouxe-o. E, realmente, li-o rapidamente, e em apenas dois fôlegos. 

A morte de Ivan Ilitch não é spoiler - o título dá-nos uma pista, certo? - e acontece logo nas páginas iniciais. Ivan Ilitch é um juiz, de caráter ambicioso, que um dia começa a sentir-se mal. O livro é, basicamente, uma reflexão sobre escolhas, sobre a condição humana, as relações interpessoais e a morte. O corpo começa a deixar de responder, a definhar... até ao suspiro final. Revemos toda a vida do protagonista e acompanhamos o seu sofrimento, a busca pelo alívio às dores que sente e que Tolstoi consegue transmitir perfeitamente, o isolamento e a angústia. 

É um livre fácil de ler, mas não é fácil de apreender. Como já disse, assistimos ao definhar de uma vida humana, e para quem já perdeu pessoas próximas, não é algo que se leia de ânimo leve. 

Dei 4 estrelas - daria 4,5, mas já sabemos que o Goodreads não o permite... bad bad, Goodreads!. A razão é simples: o senhor podia ter sido operado, e teria poupado toda a família de uns meses constrangedores e sofríveis. Ivan Ilitch tinha posição, reputação e dinheiro. Consultou "n" médicos e houve um que lhe disse que era possível proceder a uma operação - o problema era no apêndice - e o homem não avançou. 

A vida com a mulher era miserável. No final dos seus dias, odiava-a, bem como aos filhos, porque não compreendiam a dor dele, mas era evitável. Mesmo no fim, ainda pensou nisso, mas depois começou novamente com dores, e desistiu, preferindo entregar-se à morte. 

Em termos de reflexão para a questão da morte, é uma obra fantástica. 

A morte de Ivan Ilitch conta para a maratona literária, no desafio "Ex-URSS" e também para o projeto #lermaisbiblioteca2019 que, descobri agora, foi lançado pela Isa do canal Jardim de Mil Histórias, no final de 2018, durante a minha estadia no "hotel" Fernando da Fonseca a.k.a Hospital Amadora-Sintra. 

Goodreads Reading Challenge: 39/45

Citação escolhida:
Ele ouviu estas palavras, e repetiu-as na sua alma. «Acabou a morte! - pensou. - Ela já não existe». Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.

domingo, 5 de maio de 2019

Lido: Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

Não sei (ainda) o que pensar deste livro. No momento em que estou a escrever este texto, já o li há um par de horas, e ainda não decidi sequer que classificação dar, no Goodreads. Sinto-me "esmagada" com o sistema de 0 a 5, e considero-o muito limitado.

Li a edição em português do Brasil, no Kindle - a portuguesa foi traduzida como A Cor do Hibisco - e, como já disse antes, não me faz qualquer diferença ler as subtilezas das traduções do país-irmão.

Quero falar muito deste livro, mas tenho de ter um método. Tenho ouvido coisas maravilhosas da Chimamanda, antes de tudo o mais. Sobre este livro... aliás, nos últimos livros que tenho lido, tenho ido em modo "tábua rasa", sem saber do que se trata a narrativa... e, este não foi diferente. Tenho a sensação que li uma introdução qualquer, há uns tempos, mas a verdade é que comecei a lê-lo e nada me despertou qualquer familiaridade com o tema.

É um livro escrito sob a perspetiva de Kambili, uma adolescente de 15 anos e protagonista desta história. A família de Kambili é rica. O pai, Eugene, é proprietário de empresas e de um jornal, que faz oposição ao regime. Existe ainda a mãe, Beatrice, e o irmão, Jaja.

Eugene é ultra-conservador e ultra-religioso. Foi educado na religião cristã e impôs à família essa religião e um estilo de vida europeu / branco - cortou, inclusivamente, relações com o próprio pai, devido ao simples facto do velho senhor continuar a adorar os deuses tradicionais nigerianos. Kambili e Jaja vivem, então, rodeados de fartura, contudo, sujeitos a regras muito rigorosas: não podem ver televisão, não podem socializar com os colegas de escola, têm de ser, sempre, os primeiros da turma, não ouvem música, têm horários rígidos de estudo... são obrigados a todo um código moral e ético que, para eles... atenção, sublinho, para eles... é normal.

À medida que vamos lendo, vamos percebendo que Eugene é também um homem muito violento. E ficamos profundamente incomodados com o modo de vida daqueles jovem, à luz das liberdades dos nossos próprios adolescentes.

Um dia, por alturas do Natal, Kambili e Jaja vão passar uns dias em casa de uma tia, irmã do pai, que é professora universitária. Viúva, Ifeoma é mãe de três - Amaka, da mesma idade de Kambili, Obiora, um ano mais novo que Kambili, que assumiu a tarefa de "homem da casa" e Chima, o menino mais pequeno.

Naquela casa, onde nada é abundante, há risos, há música, há jovens com ideias próprias, há conversas às refeições, há televisão, não há horários rigorosos. O confronto com esta nova realidade faz Kambili e Jaja vacilarem. Ele integra-se com uma facilidade relativa, mas Kambili sente, em si, o peso da opressão provocada pelo pai. Ela não ri, não fala das suas angústias, não canta, e vive em permanente sobressalto com a ideia do pai descobrir tudo o que se passa em casa da tia.

A prima Amaka vai representar uma força muito grande, uma força transformadora na vida de Kambili. Também importante é o papel  do Padre Amadi, que expande os horizontes da nossa protagonista, e que mostra que o respeito pelas crenças tradicionais nigerianas pode e deve ser um motor junto da comunidade - e não um pecado, como lhe transmite o pai.

Vamos, ao mesmo tempo, assistindo ao relato da situação política na Nigéria. Apesar de Kambili ser uma adolescente, e apesar do seu pai ser dono de um jornal, eles - Kambili e Jaja - têm acesso limitado à informação, apenas uma vez por semana, e claro, não são assuntos que devam ter opinião. Vamos sabendo do que se passa naquele país, através das outras personagens, em especial através da tia.

O Hibisco Roxo é um livro fantástico. Mas não "caí" aos seus pés, como pensei que iria. Fiquei fascinada e nauseada com vários episódios que Kambili foi narrando, mas não fiquei rendida, nem emocionada por aí além - e eu sou moça que chora com farturinha!!!
E é aqui que reside o meu problema. Reconheço que é um livro muito bom, muito bem escrito, mas eu estava à espera do excecional, do fora-de-série... é um sólido 4,5, mas não consigo dar 5 estrelas. Mas 4 também é pouco.

O livro contou para a categoria "Países Africanos" da maratona.

Citação escolhida: 
"Eu ri. Rir parecia muito fácil agora. Muitas coisas pareciam fáceis agora. Jaja também estava rindo, assim como Amaka, e todos nós estávamos sentados na grama, esperando Obiora chegar."

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Lido: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Primeiro livro terminado no mês de maio. Este livro conta para a maratona literária na categoria "América Latina". Antes de optar por A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, pensei em ler mais um livro de Gabriel Garcia Márquez (Ninguém escreve ao Coronel, como já me indicaram várias vezes), depois pensei em Sepúlveda (trouxe da minha biblioteca de juventude, o Diário de um Killer Sentimental). Até que cheguei a Allende.

"Há muito tempo que não leio nada dela", pensei eu. Poderia ter trazido de casa dos meus pais, qualquer um daqueles que a minha mãe comprou em tempos, não fosse terem sido arrumados em parte incerta. Decidi trazer um da biblioteca. Fui lá no dia 27 e, entretanto, já o terminei.

As minhas expetativas eram nulas. Não conhecia rigorosamente nada do enredo. Sabia apenas que foi dos primeiros romances da autora. E gostei imenso. Atravessamos cerca de 65 anos da história da família del Valle e Trueba, num país não nomeado da América Latina. Não é preciso sermos génios para perceber que se trata do Chile, como é óbvio.

Os del Valle, uma família endinheirada, têm 10 filhos, sendo que a mais nova, Clara, tem o dom da clarividência. Esteban Trueba é um jovem ambicioso e trabalhador que sonha casar com Rosa, uma das filhas dos del Valle, apesar da sua condição mais humilde.

Entretanto, Rosa morre, e Esteban, apesar da dor da perda da noiva, acaba por casar, alguns anos depois com a jovem Clara. Desse casamento nascem Blanca e os gémeos Jaime e Nicolau.

Vemos Esteban prosperar economicamente, e a ascender politicamente dentro do Partido Conservador.

Isabel Allende é, especialmente, descritiva nos movimentos políticos emergentes na época e da tentativa de instaurar um governo socialista no país. A figura do Presidente é referida muitas vezes, até ao golpe de estado militar. É fácil para nós assumirmos que o Presidente (sem nome) é o retrato de Salvador Allende e que o novo governante é uma figura militar ditatorial (Pinochet).

O casamento e a relação de Esteban e Clara é marcada por altos e baixos - mais baixos do que altos - muito devido ao mau génio de Esteban, um homem ultra-conservador e dado a ataques de fúria. A personalidade de Clara é o oposto da do marido. De espírito livre, Clara consegue prever acontecimentos do futuro e passa toda a sua vida a registar cada momento familiar no que ela chama "cadernos de anotar a vida" que, no fim, iriam servir para que a neta, Alba, pudesse escrever, cronologicamente, a história da família.

Clara, Blanca e Alba são as três grandes protagonistas desta obra. Todas elas completamente diferentes entre si, mas todas com uma garra tremendas, apesar de privilegiadas.

Esta minha análise é muito superficial. A história não é assim tão linear. O livro é escrito através de dois pontos de vista diferentes: o de Alba, de acordo com o que viveu e escreveu baseado nos cadernos da avó, intercalado com a visão de Esteban que aparece em discurso direto em vários momentos da narrativa.

E temos aqueles momentos quase mágicos de Clara, com as suas "esquisitices", excentricidades como lhe chamam... a mulher que consegue tocar piano com a tampa do teclado fechada, a mulher que consegue prever mortes e tremores de terra, a mulher que consegue mexer objetos com a mente... é de um realismo tão fantástico que, quase somos levados a crer, que efetivamente as coisas possam ter sido assim.

É um livro que recomendo vivamente. É um romance que fala de amor, perseverança, valores morais, valores familiares, vingança, destino, magia, política e vida.

Citação escolhida:
Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o trânsito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas. Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória.