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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Lido: A Última Ceia, de Nuno Nepomuceno

Depois de ter ouvido críticas fabulosas sobre Nuno Nepomuceno, e o seu "Pecados Santos" (que ainda virá cá para casa, a seu tempo), decidi comprar "A Última Ceia", e assim estrear-me neste autor português.


Posso dizer, sem sombra de dúvida, que foi do dinheiro melhor gasto nas últimas semanas (um destes dias, conto-vos como fui enganada por uma editora que declarou falência, em dezembro). Antes de mais, consegui um exemplar autografado... já aí, começou o meu entusiasmo. E é um autógrafo a sério, escrito a caneta... não é cá um desses autógrafos manhosos em que percebemos à distância que é cópia.


Depois, a história. Começamos com o roubo de uma cópia de "A Última Ceia". À medida que vamos lendo, ficamos a saber que existem três cópias do original de Leonardo da Vinci. Ao longo dos anos, o fresco do mestre italiano tem sofrido muitas agressões (nomeadamente, um bombardeio durante a II.ª Guerra Mundial) e as cópias - uma delas de Giampietrino, um discípulo de da Vinci - conseguem captar toda a essência da obra original, tendo sido essenciais em trabalhos de restauro.

Pouco tempo depois, a 2.ª cópia também é roubada. E é nessa altura que o mundo entra em ebulição, já que os ladrões informam que, daí a um ano, irão roubar a derradeira cópia, a de Giampietrino.

Em paralelo, Sofia, filha de um falecido embaixador italiano em Lisboa, conhece Giancarlo, um milionário italiano. E - isto não é spoiler - vemos que "ali há gato".

Em Lisboa, Afonso Catalão é contactado pelo seu oficial de ligação dos serviços secretos.

Os capítulos são curtos - entre 3 a 6 páginas - e a escrita é entusiasmante. E, tenho de acrescentar, viciante. Ando bastante cansada - o meu sustozinho cardíaco do mês passado não passou disso mesmo, mas mói - e a minha intenção era ir lendo. Devagar. Meia dúzia de páginas por dia. Sem pressões. Impossível!!! Começamos a ficar enredados pela trama e só queremos ir até ao fim.

(aposto que a minha mãe iria adorar o Nuno e os livros dele!)

Gostei muito das personagens. Entretanto, fui ler as sinopses dos livros anteriores do Nuno, e este é o 3.º em que Afonso Catalão aparece. Fiquei com a sensação de querer explorar mais do que já aconteceu com este homem... a angústia, aliás, a melancolia deste professor dizem-me que há tanto mais por saber. Certamente, está mais do que justificado nos livros anteriores, e é aqui que sou "apanhada na curva": tenho de satisfazer a minha curiosidade e obtê-los.

Pelo que fui percebendo aqui e ali, algumas críticas dizem que este livro está um pouquinho abaixo de "Pecados Santos". Mas, uma das "vantagens" de ainda não ter lido nada de Nuno Nepomuceno é esta: não tenho termo de comparação. Para mim, merece 5 estrelas. Descobri muito sobre "A Última Ceia" que desconhecia. E, a partir do momento, em que aprendo com as leituras que realizo, merece 5/5.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Lido: O Francoatirador paciente, de Arturo Pérez-Reverte

No sábado, escrevi sobre a 1.ª desistência do ano e, este livro, por uma unha negra, esteve quase a ser a 2.ª. Perdi a conta às vezes em que bocejei enquanto o lia, mas... ainda bem que o terminei, porque o final é o ponto alto do livro.

Alejandra é especialista em arte e é contactada por um editor de uma grande empresa livreira para uma missão quase impossível: contactar Sniper, um graffiter espanhol - e isto agora vai ser estranho - conhecido pelo seu anonimato. Raros são aqueles que o conhecem e quem já privou com ele, é-lhe de uma lealdade sem precedentes.

De Madrid, passando por Lisboa, Verona e Nápoles... Lexa segue na peugada de Sniper, cuja imagem de marca é a mira telescópica de francoatirador nos seus graffitis. Mas, ao mesmo tempo que procura Sniper, Lexa é seguida de perto por duas personagens, contratadas por um milionário, que pretende vingar o filho adolescente, que morreu ao cumprir um desafio lançado pelo misterioso graffiter. 

Como disse acima, o livro fecha com chave de ouro. Enquanto lia, ia pensando que não sabia como é que Pérez-Reverte havia conseguido construir a reputação que tem, com base nesta amostra. Percebi depois, claro. A construção da narrativa está tão bem conseguida que, quando cheguei ao fim, não me admiraria que a minha cabeça explodisse.

Ao mesmo tempo, "O Francoatirador Paciente" é quase um tratado sobre a arte urbana. Todo o livro está assente em reflexões sobre este género de arte e sobre aqueles que a praticam. Nunca é definida uma posição do autor sobre o facto dos graffiters serem boas ou más pessoas, nem são tecidas considerações sobre a sua opinião pessoal sobre este tipo de arte. Isso é deixado ao cuidado do leitor.

Dei 4 estrelas, porque apesar de ter ficado muito satisfeita com o final, chegar lá, foi, às vezes, penoso. Mas gostei e recomendo a sua leitura.

Deixo apenas dois pequenos excertos que gostei particularmente:

"O graffiti é a obra de arte mais honrada, porque quem a faz não a usufrui. Não tem a perversão do mercado. É um disparo associal que atinge na medula. E ainda que mais tarde o artista acabe por se vender, a obra feita na rua continua ali e nunca se vende. Destrói-se talvez, mas não se vende
-  página 195 - 

"A arte moderna não é cultura, é só moda social
-  página 231 -



O Francoatirador paciente é o 8.º livro que li este ano e conta para o Livropólio - que termina a 14 de fevereiro - no desafio "livro do teu género preferido", e este está classificado como thriller.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Lido: Três Coroas Negras, de Kendare Blake

Históricos, thrillers, policiais... pensava eu que estas eram as minhas águas seguras no que dizia respeito a géneros literários. Os "young adults" que tinha lido não me tinham preenchido as medidas, e fugia, por exemplo, da ficção científica como o Diabo da cruz...

Mas, ultimamente, a minha decisão de experimentar coisas novas tem-me aberto outros horizontes. Já li FC e gostei muito e, há instantes, terminei um de fantasia para YA: Três Coroas Negras, de Kendare Blake.


Fui a medo. Já tinha lido e ouvido críticas muito boas e outras muito más, mas não há nada melhor que sermos nós a avaliar.

A cada geração, nascem trigémeas, herdeiras da coroa da ilha de Fennbirn. Cada uma com uma especificidade, uma
dádiva: controlar os venenos, controlar os elementos e controlar a Natureza. Neste livro, vamos conhecer Katharine, a envenenadora, Mirabella, a elementar e Arsinoe, a naturalista.

As três irmãs, separadas desde crianças, chegam aos 16 anos e são obrigadas a entrar numa competição (fatal, para duas delas) pelo lugar no trono.

Este é o resumo muito simplista deste livro. Porque temos muito mais do que isto. E encontrei várias coisas em comum com a série da Senhora de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Nesta saga, as mulheres são as figuras centrais (uma!), são quem detém o poder concedido por uma Deusa (outra aqui!). O início da competição das irmãs começa após o Festival Beltane (e vão três), três noites rituais: o Desembarque, quando os pretendentes à posição de rei consorte se apresentam, a Caçada, quando as comunidades envenenadora, elementar e naturalista vão caçar e a noite da Aceleração onde as rainhas vão demonstrar os seus poderes perante todos. Começa então "O Ano da Ascensão", onde as rainhas, durante um ano, tentarão matar as outras duas. A que sobreviver fica com a coroa.

É um livro muito fácil de ler. Cada capítulo corresponde a cada uma das três rainhas, à sua preparação e à corte que a acompanha. Mais para o fim, os capítulos tornam-se mais curtos e mais rápidos, até à estocada final que é aquele fim. Um fim que não o é, já que este é apenas o 1.º de três livros (e um 4.º que funciona como prequela desta história).

Gostei mesmo muito, e estou muito expectante para saber se os livros restantes da série irão ser traduzidos para português; seria uma grande decepção se não fossem, porque este início foi fulgurante.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Lido: Uma agulha no palheiro, de J.D.Salinger

Terminei ontem à noite, mais este clássico da literatura: The catcher in the rye / Uma agulha no palheiro de J.D. Salinger. Já tinha lido este livro há muitos muitos anos, m
as já não me lembrava de uma única linha.

Holden Caufield é um adolescente que é expulso do colégio alguns dias antes das férias de Natal. E como todos os adolescentes, odeia tudo à sua volta.

Antes de mais, fica a ressalva: ele já foi expulso de outros colégios. E a família tem posses.

Assim, temendo a reação do pai, Holden opta por voltar para casa apenas no dia em que entraria de férias, altura em que os pais já teriam também recebido a comunicação da escola, e vai para Nova Iorque, para um hotel durante esses diazinhos. Ele, um rapaz que nasceu, ali mesmo, na cidade, já viu tudo, já frequentou todos os estabelecimentos... logo nada lhe suscita qualquer prazer. Passa os dias a beber ou a meter-se em encrencas.

O livro é visto todo na primeira pessoa - Holden - e, enquanto leitores, acedemos à narrativa através da linguagem de um adolescente nova-iorquino, aborrecido com tudo e todos, e sem um objetivo. À medida que o livro vai avançando, apercebemo-nos que a única pessoa por quem ele nutre amor verdadeiro é pela irmã mais nova.

Phoebe é a única capaz de trazer Holden à terra, e é ela que o convence a ficar em Nova Iorque, a enfrentar os pais e a não fugir para o interior.

Essencialmente, este é um livro sobre os dramas da juventude. Localizando o livro à época - 1951 - trata de problemas dos jovens daquele tempo. Não podemos esperar que os nossos adolescentes tenham os mesmos sentimentos, mas, quase se pode dizer que é um livro que rompe com o que seria aceite em famílias de bem.

Holden é, no fundo, um rebelde. Chumba, é expulso de vários colégios, bebe, fala de sexo... os dias em que passa em Nova Iorque, praticamente, sozinho são usados para pensar e tentar formular um sentido para tudo o que acontece. Relembra, muitas vez, o irmão que morreu e que era o seu melhor amigo, e no quanto ele era inteligente e esclarecido.

Não posso dizer que amei de paixão este livro, mas também não odiei. Ficamos assim num 60/40 maroto, a pender para o "gostei".  Uma curiosidade: seria o livro que o assassino de John Lennon transportava consigo, quando esperava pela polícia.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Lido: O Rouxinol, de Kristin Hannah

Não sei por onde começar, sinceramente. O Rouxinol é um livro sobre coragem, amor, força, persistência, ingenuidade... valores que, em muito, ultrapassam o horror da 2.ª Guerra Mundial.

Estamos em França e o território está a ser tomado pela Alemanha nazi. Seguimos a história de duas irmãs Isabelle (a mais nova e impulsiva) e Vianne (a mais velha e mais temerosa).

A determinada altura, Isabelle é recrutada pela Resistência Francesa e assume como sua, a missão de salvar pilotos aliados abatidos e transportá-los, através dos Pirinéus, para a embaixada britânica em Espanha. Nome de código: Rouxinol.

Vianne, por seu turno, vê o marido a ir para a guerra e a ficar sozinha com a filha, Sophie. Até que um oficial alemão fica aquartelado na casa da família. A missão passa, essencialmente, por sobreviver debaixo do mesmo teto que o inimigo. Até ao momento em que também decide fazer algo: salvar crianças judias.

Enquanto isso, a guerra continua a devastar a Europa e a reclamar vidas. Mais ou menos próximas das nossas protagonistas.

De tempos a tempos, temos momentos passados em 1995. Uma das irmãs é convidada para ir a um encontro de sobreviventes e de protagonistas da Resistência. Só quase no final sabemos qual delas é. E é este final que rebenta com as defesas do leitor. Que, por outras palavras, significa que me fartei de limpar lágrimas.

Apesar de alguns pormenores inconsistentes ao longo da narrativa - como por exemplo, uma das protagonistas referir várias vezes o facto de não ter dinheiro, e ter muita dificuldade em comprar comida (não só pela sua escassez), e numa das cenas descritas vai de comboio até sei-lá-onde. Afinal, há dinheiro ou não? - não alteram a mensagem que o livro pretende transmitir.

É um livro muito bom, completo e com uma escrita muito interessante e fácil de seguir. Demorei apenas três dias a ler o livro (504 páginas) e recomendo-o muito a quem estiver interessado em ler sobre a França ocupada, métodos da Resistência, ou apenas uma narrativa de uma perspetiva diferente do habitual.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Lido: O Homem de Giz, de C.J. Tudor

5 estrelas. Foi preciso terminar o 3.º livro do ano para, finalmente, concretizar uma leitura de jeito em 2019.


O Homem de Giz fazia parte da minha "wishlist" de aniversário do ano passado. Dos 10 que a constituíam, já li 5, e todos foram excelentes. Este livro foi considerado, por vários booktubers, um dos melhores livros de 2018 e realmente não desilude. A história está muito bem escrita e os personagens são bem construídos.

A ação do livro é contada a dois tempos: em 1986 e em 2016 pelo narrador Ed Adams. Ed e os amigos, quando ainda estão na pré-adolescência, encontram um cadáver. Esse facto altera, em muito, toda a dinâmica do grupo e da comunidade. Contudo, esta morte não é única - e outros eventos marcam estes jovens e os seus familiares.

Neste livro, para quem gosta de ler, bem como de assistir a filmes e séries, é possível encontrar alguns pontos em comum com "Stranger Things": a ação nos anos 80, a menina "arrapazada" do grupo de rapazes, as bicicletas, os segredos que os unem, o mistério principal...

Não quero falar muito de O Homem de Giz, apenas que, o final me surpreendeu bastante. Ao fim de 35 anos, 10 meses e alguns dias, ainda consigo ter a capacidade de me surpreender com um livro. O Homem de Giz não é um thriller, mas também não é um livro de terror. Há também quem diga que tem o seu quê de Stephen King, mas ainda não li o suficiente para me pronunciar sobre esta comparação.

O Homem de Giz tem, sim, uma carga muito elevada de tensão psicológica e que nos faz ler até não conseguirmos terminar - comecei e terminei em menos de 24 horas. E, como já disse antes, o final... apanhou-me na curva!

Muito bom. E, sem dúvida, é bom começar 2019 desta forma... até já esqueci os dois anteriores: para mim, o ano novo começou agora.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Lido: Fórmula Mortal, de Colleen Cross

Fórmula Mortal pertence à Série de Aventuras de Suspense e Mistério com a Investigadora Katerina Carter.

O livro começa com um crime. Um homem, cansado da sua vida, e que odeia a mulher, planeou o seu assassinato e o da filha ambos. Com mais ou menos sobressaltos, cumpre este seu objetivo.

A ação passa rapidamente para outro ambiente completamente diferente. Kat prepara-se para sair de fim-de-semana com o namorado jornalista, Jace, para uma ilha, onde, nos anos 20 e 30 do século XX, uma seita esteve acomodada. Com o passar dos anos, os mitos em torno da Fundação Aquariana, que tinha Brother XII como principal rosto, crescem e muito se fala de um tesouro escondido, no valor de muitos milhões de dólares em ouro, que Brother XII não teria conseguido transportar consigo quando precisou fugir.

Quando está prestes a sair, entra Gia, a sua melhor amiga, com o novo namorado (bilionário), Raphael. Desde esta primeira apresentação, Kat desconfia que algo não está bem. A assusta-se ainda mais quando se apercebe que Gia investiu todo o seu dinheiro num produto que, supostamente, teria enriquecido Raphael. Este feeling, e muitos outros pequenos detalhes, fazem-na procurar mais e mais até se deparar com um segredo que irá colocar tudo em perspetiva.

Este livro podia ter chegado às 4 estrelas se a autora não tivesse cometido o mesmo erro de tantos outros que grassam nas estantes das livrarias: ninguém liga puto às desconfianças da personagem principal. Kat é investigadora na área de fraudes empresariais. Desde o início, alerta a amiga para o facto do suposto negócio ter contornos que carecem de explicação. Porra, é a sua área de especialidade e ninguém lhe dá crédito? Nem a amiga, nem o namorado de há anos, ou o tio... não fosse este cliché já mais que batido, Kat evitava meter-se numa série de sarilhos que quase lhe custam a vida.

Gostei. É um thriller ligeirinho. Nada de absolutamente estonteante, a meio, eu já tinha descoberto o que aquele grupo de tapadinhos ainda não tinha percebido, mas é uma leitura engraçada. Não recomendo a quem já está habituado a thrillers. É bom para iniciar neste género, por exemplo.

Apanhei-o na Amazon, para o Kindle, numa altura em que era oferecido.

Link: https://www.amazon.com.br/F%C3%B3rmula-Mortal-investigativo-Aventuras-Investigadora-ebook/dp/B075W9FF41

sábado, 5 de janeiro de 2019

Lido: A Morte, de Neil Gaiman

Já aqui falei do 1.º livro que li já em 2019, mas esqueci-me de referir a última leitura de 2018. Escolhi um livro de BD - A Morte, de Neil Gaiman (com desenhos de Mike Dringenberg).


A Morte é uma jovem gótica, mas bastante amorosa. Não conheço a saga Sandman, criada por Gaiman, mas percebi que a Morte é uma das personagens que surge na série, e que é precisamente uma das irmãs do Mestre dos Sonhos.

Nesta pequena colectânea, encontramos duas histórias distintas: na 1.ª, O Alto Custo da Vida,temos um adolescente deprimido, que imagina a sua própria morte, que encontra por mero acaso a Morte. Esta, que só visita a Terra um dia por século, vive esse dia com a intensidade de quem sabe que é único. Nesse mesmo dia, a Morte cruza-se com uma mulher, com 250 anos, que perdeu o coração e incube-a de o encontrar.

Na 2.ª história, Morte: O Melhor Momento da tua vida, seguimos a cantora Foxglove, no início da sua carreira. Foxglove é homossexual, e tem a sua vida familiar com Hazel e o filho, mas nada disso pode ser revelado aos fãs. Todo o confronto moral e pessoal, e profissional é quase palpável ao longo da história. Aqui, o papel da Morte é quase subtil, mas de enorme peso.

São duas histórias realmente muito boas. As qualidades de Gaiman como argumentista são mais que reconhecidas, e o desenho que acompanha ambas as histórias é lindíssimo, intenso e tocante.

Não costumo ler BD, nem graphic novels, mas gostei muito, e depois disto quero muito explorar a saga Sandman.

Este volume termina com duas pequenas histórias: A Roda, de homenagem às vítimas do 11 de Setembro, e A Morte fala sobre a Vida, onde a personagem Morte dá conselhos sobre sexo seguro, e a sua importância para evitar a propagação de doenças e gravidezes prematuras.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Lido: O Último Judeu, de Noah Gordon.

Li, em 2010, "O Físico" deste autor. E, daquilo que me lembro, gostei bastante. Já vi o filme e continuo a preferir o livro. 


Estamos no final do século XV, em Toledo. Um menino é roubado e assassinado. O menino, filho mais velho de um artesão judeu, havia sido escolhido pelo pai para transportar até ao mosteiro local, o sagrado cálice onde iria ser depositada uma relíquia de Santa Ana. 

Um médico, cristão-novo, foi contactado para descobrir mais pormenores sobre este crime. Além das evidências que apontam para um membro da Inquisição estar envolvido, nada mais descobre, e prefere recuar, do que se envolver mais profundamente no caso. 

Algum tempo depois, iniciam as expulsões de todos os judeus que se recusem a converter-se. Helkias Toledano, o artesão judeu, consegue arranjar forma de ir embora, com os dois filhos, mas na véspera, é atacado por um grupo de populares e morto. O filho mais novo embarca rumo a um destino desconhecido com um tio, mas o do meio, Yonah, fica para trás.

Fugindo sempre à Inquisição, Yonah consegue sobreviver a duras provas, às vezes, sozinho, noutras vezes, contando com a preciosa ajuda de amigos que vai fazendo durante o seu percurso de vida. Mais tarde, já adulto, torna-se um reputado médico, sob o nome falso de Rámon Callicó, mas professando sempre, em segredo, a religião que o pai lhe havia transmitido - razão pela qual o livro se chama "O Último Judeu", porque todos os judeus em Espanha, na altura, ou fugiram, ou se converteram ou foram mortos: Yonah seria o último judeu no território. 

"O Último Judeu" é um bom livro. Não é genial, mas é realmente bom, excelentemente documentado e com uma prosa muito simples de acompanhar. Houve umas partes, algo semelhantes ao "O Físico". Neste, o protagonista queria mesmo tornar-se físico e lutou toda a vida para alcançar este objetivo. Em "O Último Judeu", Yonah torna-se aquilo que o destino lhe traçou, até chegar a médico. As tais semelhanças que encontrei foram exatamente aqui, no aprendizado da profissão. Se me tivessem apresentado os livros com excertos colados de um e do outro, não saberia distinguir. 

E é uma lição de História. Talvez pela idade, vou procurando, cada vez mais, livros que sejam mais do que isso e me transmitam ensinamentos concretos, sobre alturas concretas da História Mundial. Já com "A Mão de Fátima", li sobre a perseguição aos muçulmanos. Agora, os judeus no século XV. Este ano, li muito sobre o Holocasto. O anterior, "Mataram a Cotovia", sobre os anos 30, no sul dos EUA. Aliás, fui ver nos meus arquivos e é preciso recuar até setembro para encontrar um post sobre um livro que não tenha uma componente histórica (estou a excluir o "Dune", por se tratar de um género completamente diferente). 

Mas nada disto invalida que seja o bom livro que é, quero deixar essa ressalva. 

sábado, 29 de dezembro de 2018

Lido: Mataram a Cotovia, de Harper Lee

Como pude desleixar-me a este nível, senhores? Como?? Há muito tempo - mesmo muito tempo - que o livro "Mataram a Cotovia", de Harper Lee, estava na minha wishlist.

Contudo, a minha postura perante os clássicos tem sido sempre na onda do "eles, dali, não saem". E a verdade, é que há clássicos que envelhecem bem, e mesmo passado, meio século, continuam brilhantes.

"Mataram a Cotovia" tem-se tornado, ao longo dos anos, aquele livro que, quando o olhava, pensava no dia em que o leria. Há anos que o "namorava", há anos que passava a mão pela capa, há anos que via o título da edição portuguesa ser alterado... há anos...

Cinco dias foi o espaço de tempo entre pegar nele e terminá-lo. Pelo meio, houve a Consoada e o Dia de Natal, em que nem sequer lhe toquei. Por isso, na prática, foram apenas três dias. Ao longo de todos estes anos, nunca li a sinopse, nem sobre o que se tratava exatamente... tinha um feeling que ia gostar! E, às vezes, nesta coisa dos livros, gosto de confiar nos meus instintos.

Estamos no sul dos Estados Unidos da América, depois da Grande Depressão de 1929. As pessoas ainda tentam respirar, depois do crash económico e, as aparências são tudo. Scout e Jem são dois irmãos, filhos de Atticus, um advogado viúvo. Os dois miúdos são educados, por um lado, de forma bastante relaxada, mas ao mesmo tempo, têm conhecimentos acima da média, devido à curiosidade instigada pelo pai.

Um dia, conhecem Dill, o sobrinho de uma vizinha, e as férias de Verão tornam-se subitamente mais entusiasmantes, quando o jovem os instiga a conhecer o misterioso vizinho da casa ao lado que, reza a lenda, não sai de casa há mais de 25 anos. A vivência dos irmãos torna-se, assim, mais interessante - um interesse que se prolonga pelo ano letivo - e a nós, leitores, que também nos sentimos impelidos a ir lá bater à porta.

Ao mesmo tempo, Atticus está envolvido, profissionalmente, num caso bastante complexo. Um jovem negro é acusado de ter violado uma jovem branca. Estamos a meio dos anos 30, nos Estados Unidos - não esqueçam. A defesa do réu, Tom Robinson, absorve Atticus e faz vir ao de cima os preconceitos da comunidade de Maycomb. Scout e Jem são alvo de bullying, por parte dos colegas, por causa do pai ter aceite o caso.

O livro é todo narrado por uma Scout já crescida, que, no início do livro, ainda não tem 6 anos. Jem terá 9, quase 10 anos. E termina quando Jem parte o braço, pouco antes de fazer 13 anos. Temos todo este período de tempo em que lemos sobre o preconceito, a ignorância, a vivência de pequenas cidades sulistas, a interferência da religião... ao mesmo tempo que assistimos ao crescimento dos irmãos Finch.
Atticus é um exemplo. Naquela altura, ter ficado viúvo, com dois filhos pequenos, ter de lidar com essa tragédia pessoal e, simultaneamente, manter as suas convicções e a sua moral, e esforçar-se por transmiti-las aos filhos... é de aplaudir!

Gostei muito muito de "Mataram a Cotovia". É um livro muito simples de ler, com uma linguagem muito acessível, mesmo a descrever coisas tão feias como aquelas que Scout testemunha e nos conta. A nossa narradora quando nos começa a contar a história já é crescida, mas dá-nos a perspetiva dela enquanto criança que vivenciou os acontecimentos. E acho que este é um dos pormenores que tornam "Mataram a Cotovia" tão interessante.

Se ainda não leram, vão ler. A sério. Não façam como eu.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Lido: A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón

Que livro espetacular, senhores! Não é o melhor que li este ano, mas está no Top 10, garantidamente. Mais um livrinho que estava no Kindle a "apanhar pó", e que acabei por lê-lo em dois dias. Simplesmente, não conseguia parar de ler.

A Sombra do Vento é um livro sobre um livro e sobre um autor. Enquanto lia, dei por mim a pensar no 2666 do Roberto Bolaño - logo, na primeira parte, onde os professores italiano, espanhol e francês e a professora inglesa procuram, incessantemente, o rasto de Archimboldi, desde as suas origens.

Aqui temos Daniel Sempere, um jovem barcelonês, órfão de mãe, que é levado pelo pai, proprietário de uma livraria, ao Cemitério dos Livros Perdidos, um local quase místico para onde são transportados os livros que vão sendo esquecidos ao longo dos anos. Daniel encontra "A Sombra do Vento", de Julián Carax. O fascínio que sente por aquela obra, leva-o a tentar procurar saber mais sobre o autor.

E é aí que tudo começa a correr mal. Em busca do paradeiro de Carax, Daniel é envolvido numa rede complexa de intrigas, de mentiras e logros, numa cadeia de segredos engendrados ao pormenor. Contudo, Daniel não está sozinho. É sempre acompanhado por Fermín Romero de Torres, o comic relief deste livro, que tendencialmente, pode tornar-se ligeiramente obscuro.

Mas, A Sombra do Vento torna-se tão viciante e, ao mesmo tempo, tão enervante que só queremos saber onde tudo irá desembocar.

Adorei, adorei, adorei...

E agora, sou "obrigada" a ler o que resta da série "O Cemitério dos Livros Esquecidos" (uma tetralogia que continua com O Jogo do Anjo, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos).

Ainda não tinha lido nada deste autor espanhol, mas estou fascinada com o estilo de escrita. É atraente e viciante, é bem escrito, sem ser pedante ou presunçoso, não tem falinhas mansas, nem é condescendente com o leitor... é uma escrita honesta e limpa.

Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993. Em 2001 publicou este A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. As suas obras já foram traduzidas em mais de 40 línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. Actualmente, Carlos Ruiz Zafón reside em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Lido: A Mão de Fátima

Já andava a ler A Mão de Fátima há meses. As minhas "férias" forçadas no hospital deram um "boost" às minhas leituras, por falta de melhor que fazer. Cerca de 14 horas, por dia, sem fazer nada... é significativo, convenhamos.

A Mão de Fátima é interessantíssimo. Só andava a "engonhar", porque se trata de um livro realmente muito grande (920 páginas), com muitos factos, muitas personagens, e um personagem principal que tinha bicho carpinteiro e deve ter percorrido - ora de burro, ora a cavalo, ora a pé - toda a Andaluzia.

Para o Livropólio, maratona literária que termina a meio de fevereiro, considerei A Mão de Fátima como um romance histórico.

Lembram-se quando disse, sobre As Flores de Lótus do José Rodrigues dos Santos, que era um autêntico tratado histórico?! A Mão de Fátima, nesse aspeto, é igual. Hernando é o nosso protagonista. Fruto de uma violação de um padre católico a uma adolescente muçulmana, nunca foi  querido pelo padrasto, nem pela sua própria comunidade, que o apelidava de "nazareno".
Os padres católicos de Alpujaras tomaram-no sob sua proteção, mas, ao mesmo tempo, o alfaqui (o sábio daquela comunidade) Hamid ensinava-lhe os preceitos e as tradições muçulmanos. Hernando cresceu assim, entre duas religiões.

Rebenta uma revolta muçulmana contra os opressores católicos, e Hernando está entre os revoltosos. Durante esse tempo, salva e conhece a jovem Fátima, por quem se apaixona. Contudo, os dois não terão a vida facilitada, dado que o padrasto, Brahim, também a tem debaixo de olho, mais por despeito do que qualquer outra razão.

Nas sombras, na ilegalidade, Hernando continua a professar a sua fé muçulmana, mesmo quando é forçado a apregoar a sua cristandade. Assistimos ao crescimento de um adolescente até à sua 3.ª idade, com todas as quedas e todos os conflitos, e à coleção de inimigos que foi colhendo no seu percurso.

A Mão de Fátima dá-nos imensos detalhes sobre a revolta muçulmana, e sobre a História desta religião em território espanhol. Gostei muito. Havia partes em que o autor podia ter atalhado e encurtado caminho? Sim, havia. Creio que muito foi dito, muito foi contado, muito foi descrito... atenção que é um livro fabuloso, mas li demasiadas descrições de paisagens que podia ter sido excluídas ou detalhes que podiam ser encontrados em livros de História, que seriam dispensáveis num romance.

Por outro lado, foram as descrições dos massacres que me colavam a retina às "páginas" (li no Kindle): a crueldade que, ambos os lados da barricada, empregavam quando se tratava de lidar com o outro... foi assim qualquer coisa.
Hoje, fala-se muito dos níveis extremos de violência e preconceito, mas, na minha humilde opinião, o fenómeno de "aldeia global" é que veio tornar as coisas mais conhecidas, porque nos séculos XIV, XV e XVI, os enforcamentos públicos, as imolações, decapitações, tortura gratuita - e isto já sem ir à parte da escravatura e das violações... ó senhores, sem comentários!!!

Gostei, verdadeiramente, muito deste livro. Só não dei 5 estrelas, porque é um livro que, se não estivermos verdadeiramente concentrados nele, escapa-nos sempre algo. É muito grande, e como disse antes, muitos personagens que vão entrando e saindo, outros morrem (de morte natural ou assassinados, é "indiferente), muita História, muitos factos... a história de amor está lá, presente numa parte substancial do livro, mas, houve alturas em que, sinceramente, quase me esquecia dela, com tudo o que se "passava" à minha "volta".

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Lido: Duna, de Frank Herbert

Quis o destino, o karma, uma conjugação cósmica do alinhamento dos planetas, o aquecimento global... estejam à vontade para escolher... que eu passasse uma semana internada, no Amadora-Sintra. Hotel agradável, mas não recomendo o serviço de restauração.

Enfim, tempinho de sobra foi algo que não me faltou. Claro está que aproveitei para ler. Terminei o Dune, de Frank Herbert - o 2.º volume da edição portuguesa, publicado pela Saída de Emergência, e terminei o A Mão de Fátima, de Ildefonso Falcones.

Vou escrever em posts separados, para não tornar estas reviews cansativas. Comecemos então por Dune, de Frank Herbert.

Considerações iniciais:
- compreendo a saga do Dune. Percebo o porquê da existência da trilogia, e das trilogias anterior e posterior aos acontecimentos, mas gostei de como terminou este livro: sem arestas para limar, nem arcos em aberto. É um mundo novo, e, como tal, tem de ser explorado antes e depois, obviamente. Mas o Dune, só por sim, vale muito a pena ler.

- para o Livropólio, a maratona literária em que estou a participar desde 5 de outubro (e até meio de fevereiro), considerei os dois volumes da edição portuguesa, como um único, porque é assim "lá fora". O Dune é um livro, o 1.º de uma trilogia que se completa com "O Messias de Duna" (também já disponível na Saída de Emergência" e "Os Filhos de Duna" (que apenas encontrei disponível na FNAC, expedido do Brasil). 

- raramente leio ficção científica, mas tenho de reconsiderar as minha opções no futuro. São muitos os factores que me levam a, habitualmente, não escolher FC, e, está na altura de repensar alguns deles. Thumbs up para Dune.

Dune é O clássico da ficção científica. Estamos muito além do futuro que conhecemos e há muito que outros planetas foram habitados. A família Atreides é nomeada para governar Arrakis, um planeta inóspito, que desde há muito vinha estado sob governo de uma outra família poderosa, a Casa Harkonnen, rivais dos primeiros.

Logo, à chegada, Paul Atreides sofre um atentado e, por pouco, não morre. Consegue salvar-se graças aos ensinamentos da mãe, Lady Jessica, uma Bene Gesserit (uma ordem social/religiosa/política) e concubina do Duque Atreides.

Arrakis, apesar de ser conhecido como Duna, devido à sua aridez, é também bastante apetecível, graças ao facto de ser o único planeta produtor de "melange", a mais importante e valiosa especiaria do universo.

Este livro explora questões políticas, questões religiosas, questões ecológicas/ambientais, questões sociais e raciais... são várias camadas que podemos explorar neste livro.


sábado, 17 de novembro de 2018

Lido: As Flores de Lótus, de José Rodrigues dos Santos

Antes de mais, este livro assinala um momento "importante" para mim: alcancei a marca de 40 livros lidos em 2018 - o número de livros que me havia proposto ler no GoodReads. Alcancei o meu objetivo e isso deixa-me muito satisfeita.

À direita, na foto, está a capa original do livro.
À esquerda, a capa falsa, vista com mais frequência nos escaparates 

Agora, falemos do livro. É algo complicado, vou ser sincera. José Rodrigues do Santos elaborou, com este livro, um compêndio

da História Mundial, com salpicados de romance histórico. Temos um narrador que nos introduz à história de Artur Teixeira, um menino que vive com os pais, algures em Moçambique. Aos 10 anos, separa-se dos pais, e fica aos cuidados do Colégio Militar, em Lisboa.

Ao mesmo tempo que acompanhamos o crescimento de Artur, assistimos à queda da Monarquia, à instabilidade política nacional, à entrada de Portugal na Grande Guerra, à revolução de 1928, à entrada de Salazar no governo português...

Depois, conhecemos a família japonesa Satake. E da família russa Skuratov. E dos chineses Yang .

Cada uma das 4 famílias representa uma história e cada história é a representação de um momento da grande História Mundial. Tomamos conhecimento - pelos olhos de cada uma das crianças de cada família - às convulsões políticas e às revoluções desde o início do século XX.

Não é um mau livro. Mas é denso. Tal como disse acima, é um compêndio de História e um excelente resumo da ascensão de regimes de caráter totalitário, um pouco por todo o mundo. Em algumas vezes, senti-me perdida. A determinado momento, estava a ler um extenso monólogo na parte chinesa, sobre o comunismo. Há momentos complicados de conseguir seguir. Muitas conversas de caráter filosófico e político, muitas explicações, muitos nomes... historicamente, está aqui um pequeno mimo. Como romance, o leitor tende a dispersar e a "pedir" que a "lengalenga" acabe rapidamente.

Os capítulos não são muito longos. Uma ou outra vez, lá calha um mais compridinho, mas nada que assuste. O livro está dividido em 3 partes, que nos são introduzidas por uma página especial com excertos de Basho Matsuo (poeta japonês), Wang Changling (poeta chinês) e Li Ho (escritor chinês).

O livro - que faz parte de uma trilogia - deixa-nos no final dos anos 20, do século XX, às portas da Depressão de 1929, conforme nos alerta o narrador.

É inevitável estabelecermos paralelismos com a atual situação económico-política, nomeadamente, no que toca aos discursos de apologia à violência e da ascensão de movimentos extremistas. É um livro que recomendo, mas, com a salvaguarda: não esperem um romance típico. É quase uma aula de História, com elementos ficcionais lá pelo meio.





domingo, 4 de novembro de 2018

Lido: O Amante Japonês, de Isabel Allende

Maratona Literária: ler um livro com flores na capa - neste, é uma gardénia... muito importante no decorrer da ação.

Devem ser raros os livros com flores na capa que não sejam um romance, ou de botânica... este tem um "cheirinho" de botânica e a história de um amor que nasceu durante a 2.ª Guerra Mundial.

Alma e Ichimei apaixonam-se quando ainda são crianças... e pouco mais tarde, numa altura em que ser japonês, nos Estados Unidos da América, era pior do que ser nazi, surge a primeira separação que, no fim, mostra que o amor é mais forte do que as convenções sociais ou do que o preconceito.

Aproveitei este fim-de-semana de chuva para começar a ler este livro de Isabel Allende. Por alguma razão, durante muito tempo, rejeitei Allende. Estava farta de histórias de amor, talvez. Mas, com este "O Amante Japonês", chorei.

Pelo meio conhecemos Irina, uma jovem moldava com um passado tão tumultuoso e traumático que, ainda hoje, em adulta, sente, na pele, as dores de quando era criança. Seth, neto de Alma, tem uma passagem, por este livro, mais subtil. Não é o herói romântico desta história, mas é um homem de gestos por amor.

Vale a pena ler O Amante Japonês. Nele lemos sobre guerra, pedofilia, homossexualidade, cancro, VIH/SIDA, síndrome de Down, dor, perda, amor, amizade... é um romance muito completo e cheio de detalhes e de pequenas passagens de uma poesia maravilhosa.

A própria estrutura do livro é muito descomplexada... alternamos entre pedaços do passado de Alma, com a visão de Seth e de Irina, com bocadinhos de outros personagens que, não tendo um papel fundamental, são essenciais para que as linhas se cruzem e formem um quadro completo.

Excerto de uma carta de Ichimei:

"Afirmámos muitas vezes que amarmo-nos é o nosso destino, amámo-nos em vidas anteriores e continuaremos a encontrar-nos em vidas futuras. Ou talvez não exista passado nem futuro e tudo aconteça simultaneamente nas infinitas dimensões do universo. Nesse caso, estamos unidos constantemente, para sempre."

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Lido: Heidi, de Johanna Spyri

Ler Heidi, além de ser um dos desafios da maratona literária em que participo, é, simultaneamente, um passeio às minhas memórias de criança.

Vi, pela primeira vez, a Heidi numa cassete de vídeo que os meus pais compraram. Não me recordo ao certo que idade teria quando o vídeo veio "morar" para nossa casa, mas lembro-me que os meus pais compraram várias cassetes para mim e para o meu irmão.

Mais tarde - e até já escrevi por aqui - por volta dos 10 anos, a minha mãe comprou-me a coleção da Condessa de Ségur, e nesta série, vinham mais alguns títulos clássicos, como o David Copperfield de Charles Dickens (uhhhh, eu a dar uma de intelectual - li Dickens com 10 anos - sou tão culta, uhhhh!!!) e este livro da Heidi.

No passado fim-de-semana, fui à casa onde cresci e de onde saí há 8 anos. Ainda lá estão muitos dos meus livros: Uma Aventura, O Clube das Chaves... e os meus livros da Editorial Pública. Depois de muito pensar, trouxe a Heidi comigo, para cumprir, o desafio 11 do Livropólio - Ler um livro infantil ou juvenil.

Heidi, aos 5 anos, é largada em casa do avô. A tia Dete arranjou emprego em Frankfurt e não pode mais ocupar-se da pequena orfã. Se, ao princípio, parece estranho à pequena ser largada junto daquele velho com ar rezingão, depressa, entre ambos, nasce uma afinidade e um amor, difíceis de mensurar.

A juntar à alegria de viver nas montanhas, em liberdade, Heidi conhece Pedro, o jovem pastor, e ficam amigos.

Algum tempo depois - cerca de 3 anos - Dete regressa para levar Heidi. Há uma outra família que  precisa de uma companheira para Clara, uma menina que está confinada a uma cadeira de rodas. Chegadas a Frankfurt, Heidi, sem mais explicações, é "despejada" em casa do senhor Sesemann, para acompanhar Clara.

Depois de muitos altos e baixos, e de muitas inocentes travessuras, Heidi começa a ficar doente de saudades das montanhas. E o tratamento é simples: regressar para casa do avô. Rapidamente, a menina recupera a saúde e a alegria. Os capítulos finais contam como Clara voltou a andar depois de uma temporada revigorante junto de Heidi e do avô, no planalto, e da amizade improvável entre as famílias.

Uma nota: não considerei este livro no meu Reading Challenge do GoodReads. Li-o, em pouco mais de duas horas (são 192 páginas, apenas), e seria quase batota, porque, se não fosse "obrigada" pelo Livropólio, certamente não o releria.




sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Lido: A Túlipa Negra, de Alexandre Dumas

Há poucas semanas, vi, na Netflix, a série Os Três Mosqueteiros - fiz aqui uma brevíssima referência a esta série ao falar do ator Tom Burke (que interpreta o Athos), que atualmente, "é" Cormoran Strike da série de Robert Galbraith.

Ver Os Mosqueteiros fez-me ter vontade de ler clássicos.

E uma das grandes vantagens do Kindle é conseguir ter na mala vários clássicos, e puder-me "esticar" com o número de livros que posso ir lendo.

Por outro lado, podia ter começado a ler Os Três Mosqueteiros, já que estava imbuída do espírito, mas, como aderi à maratona literária Livropólio, tenho objetivos a cumprir. Optei por A Túlipa Negra, do mesmo Alexandre Dumas.

A Túlipa Negra conta-nos a história de Cornélio, um jovem botânico que pretende vencer uma competição de túlipas: 100 mil florins a quem apresentasse uma flor negra, sem imperfeições.
Vítima de inveja de um vizinho e de um mal-entendido, Cornélio é preso e sentenciado à morte. No dia em que é detido, conhece Rosa, a filha do carcereiro e os dois jovens caiem de amores um pelo outro.

Já com o carrasco prestes a decapitá-lo, Cornélio é salvo da morte, por ordem do príncipe, mas sentenciado a prisão perpétua.

Pelo meio, o vizinho invejoso continua a querer ultrapassar Cornélio - a qualquer preço - e a relação com a bela Rosa sofre altos e baixos.

É uma história de amor intemporal, que se passa em 1672, brilhantemente escrita, porque temos um narrador que nos conta a história como se toda a ação se passasse diante dos seus olhos. Fala com o leitor, como se estivéssemos sentados no mesmo sofá. Cria proximidade e empatia com o leitor, sem serem forçadas. São apenas 223 páginas que se lêem num piscar de olhos, apesar do formalismo dos diálogos - Cornélio e Rosa, apaixonados, passam todo o tempo a tratar-se por "menina Rosa" e "senhor Cornélio".

Dei 5 estrelas no Goodreads. Achei que uma história tão simples, mas tão amorosa, e que ao mesmo tempo nos consegue instruir sobre o clima político da época - é uma história para 5 estrelas.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Lido: O Padrinho, de Mario Puzo

Já terminei "O Padrinho", do italiano Mario Puzo. A minha edição foi, literalmente, herdada da minha tia-avó Luísa, e data algures dos anos 70. É uma edição tão velhinha - literalmente, segura por fita cola - e já me acompanha há cerca de 7 anos.

Por alguma razão, ainda não o tinha lido, mas graças à minha decisão de participar numa maratona literária, peguei nele e consegui terminá-lo em apenas uma semana.

Nesta altura do campeonato, poucas devem ser as pessoas que não tenham visto o filme O Padrinho, de Francis Ford Coppola (ou a trilogia - mas, vá, o 1.º filme), e posso dizer que não me recordo de uma passagem livro-filme tão bem feita. Já vi o filme há muito tempo, e juro que as imagens estavam a correr na minha cabeça, enquanto lia.

O casamento de Connie, Michael e Kay, Sonny e Freddo, a figura imponente de Marlon Brando como Don Corleone, o chefe de uma das mais respeitadas famílias de Nova Iorque.

Em O Padrinho, seguimos a família Corleone com todos os seus altos e baixos: a influência juntos dos agentes judiciários, a guerra entre as famílias, a morte de Sonny, Don Corleone no hospital depois de ter sido alvejado, a sua semi-aposentadoria e consequente ascensão de Michael, como o novo Don.

É muito bem escrito. Quando leio livros tão antigos - e O Padrinho foi lançado em 1969 - tenho medo que "envelheçam" mal e que não me cativem. Talvez ter lido antes o livro da história da Cosa Nostra e de já ter visto o filme, me tenha pré-preparado para a obra de Puzo. Estou muito satisfeita comigo mesma e com o facto de ter ultrapassado qualquer que fosse a barreira que me separava deste pedaço de literatura.

sábado, 6 de outubro de 2018

Lido: Cosa Nostra - Um Século de História da Máfia, de Eric Frattini

Há umas semanas, deu, no National Geographic, um documentário sobre Salvatore "Toto" Riina, il capo di tutti capi da Cosa Nostra siciliana, falecido quase há um ano.

Ver esse documentário, inspirou-me a ler um livrinho que já morava cá por casa há bastante tempo, escrito por Eric Frattini, jornalista, analista político, romancista, conferencista (entre outras coisas). O meu excelso esposo comprou-o, há para lá de muito tempo, já o leu e recomendou-mo, mas ainda não tinha sentido o chamamento, confesso.

Neste livro, Eric Frattini conta como surgiu, nos Estados Unidos, o crime organizado, ano-por-ano, desde 1895 até aos nossos dias: desde a Mão Negra até à Cosa Nostra como a "conhecemos". A verdade é que, ver Os Intocáveis, Os Soprano, Broadwalk Empire ou The Good Fellas poderá dar-nos a impressão de saber muito sobre o assunto... nope... nada mais errado, meus amigos!

O livro, em si, tem 366 páginas, mas cerca de 100 são anexos com glossário, breves biografias de alguns nomes citados, bibliografia e outros documentos consultados, a descrição das cimeiras da Cosa Nostra ao longo dos anos, e a descrição das famílias com atualização até aos nossos dias. É um trabalho de investigação muito profunda e extremamente bem documentado.

Cosa Nostra - Um Século de História da Máfia é um livro de 2012, editado pela Bertrand, editora de grande parte dos (muitos) livros já escritos por Frattini e publicados no nosso país.

Quem pegar nele não se iluda: não é romanceado, nem floreado... tem 24 páginas de fotografias e algumas delas mostram explicitamente, alguns cadáveres. A descrição de alguns assassinatos é muito gráfica - por exemplo, a dos dois irmãos que eram assassinos da Cosa Nostra e que eles próprios foram alvejados e enterrados vivos.

Um dos últimos grandes julgamentos de um Don, John Gotti, em 1992, mereceu um capítulo muito detalhado com excertos das transcrições de depoimentos, que culpabilizaram Gotti e sentenciaram a prisão perpétua.

Soberbo!

(agora, há fortes possibilidades de ir ler O Padrinho, de Mário Puzo - até porque aceitei o desafio lançado numa comunidade livrólica, para uma maratona que decorre até Fevereiro, e tenho de ler um livro que deu origem a um filme)

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Lido: O Tatuador de Auschwitz, de Heather Morris

Ao longo dos anos, já li muitos livros cujo ambiente se localizava em Auschwitz-Birkenau, ou nos arredores. 2018 tem sido o ano em que mais livros, sobre este tema, tenho lido.

Antes de mais, é baseado em testemunhos reais. O nosso personagem principal - o tatuador Lale, existiu realmente. E, de acordo com o que li, cerca de 95% do livro, é verídico.
O Tatuador de Auschwitz, por si só, não é um livro que explora a guerra, ou que fala dos horrores daquele campo de concentração. No fundo, é um romance.

No GoodReads, classifiquei-o com 3 estrelas. Vou tentar justificar-me: parece estranho alguém classificar com um "é bonzinho, vá", um livro que descreve o sofrimento de alguém que sobreviveu a Auschwitz, mas a verdade é que não não é um livro bem escrito.

Mas já lá vou.

O Tatuador de Auschwitz conta-nos a história de Lale, um jovem na casa dos 20, natural da Eslováquia, que se voluntaria para o transporte para os campos de concentração, na esperança, de assim, poupar a restante família.
Pouco depois de lá chegar, contrai tifo, e acaba por sobreviver graças à ajuda de Pepan, o homem responsável por tatuar, nos recém-chegados, os números pelos quais iriam ser conhecidos a partir de então. Pepan, francês, toma Lale como seu assistente. Pouco depois, Pepan desaparece e Lale torna-se o tatuador oficial de Auschwitz-Birkenau, com todos os benefícios que essa posição lhe traz, como um quarto individual, reforço na alimentação, maior liberdade de movimentos, dispensa dos trabalhos pesados, etc...

Nessa função, conhece Gita e apaixona-se. Ao mesmo tempo, consegue construir uma rede de troca de dinheiro e jóias, vindas dos blocos conhecidos como "Canadá", onde iam parar os pertences dos prisioneiros, por comida ou medicamentos, vinda do exterior. Desta forma, ia distribuindo comida por quem precisava ou como pagamento de favores.

Em 1945, com a libertação do campo, acabam por se reunir passado alguns meses e casam em outubro desse mesmo ano. E viveram juntos até à morte de Gita em 2003. Nesse ano, Lale conheceu Heather Morris, e considerou que era o momento certo para contar a história de ambos
. As entrevistas duraram mais três anos, até à morte de Lale em 2006.

É explícito, no fim do livro, naquelas partes que quase ninguém lê, que Heather Morris havia pensado a obra que apresentou como o guião para um filme, e que, ao fim de contas, deu um livro. Os diálogos, a constante troca da narração entre a 1.ª e a 3.ª pessoas... parecem muito estranhos. E já para não falar que a descrição das condições do campo dá quase a sensação que Lale estava num campo de férias um "tudo ou nada" mórbido e não num campo de extermínio nazi. Falta mais emoção - a autora esperava transmitir isso em ecrã, mas, em livro, não resultou e perdeu-se muito na adaptação do guião.

Percebi, nas entrelinhas, que Heather queria mostrar que, ali, em condições extremas, era possível haver amor, haver camaradagem e companheirismo, solidariedade... contudo, pela rama, o que fica é que Lale era um homem a quem a sorte sorria muito mais do que a outros em circunstâncias iguais ou semelhantes. O livro foi aclamado e tem muito boas críticas - e ainda bem! - mas, sinceramente, não me conquistou em pleno, porque senti, ao longo de toda a leitura, que faltava mais qualquer coisa.