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segunda-feira, 2 de março de 2020

Lido: A mulher que prendeu a chuva, de Teolinda Gersão

Há cerca de duas ou três semanas, uma associação cultural de Sintra anunciou que iria promover um encontro com a autora Teolinda Gersão. Por um lado, tinha imensa vontade de ir, para a conhecer. Mas, por outro lado, como nunca tinha lido nada, não iria ser uma participante ativa na conversa, e isso iria tirar toda a piada possível ao evento.

Optei por não ir, mas acabei por trazer da biblioteca, uma das suas obras que "caía que nem uma luva" na maratona Estações Literárias: A mulher que prendeu a chuva. Trata-se de um livro de  contos. Paniquei, porque não sou uma rapariga de contos, e, inconscientemente, ia deixando este livrinho para último.

Que sacramental estupidez. O livro é ótimo. Claro que tem uns contos melhores do que outros, mas, no geral é muito bom. Aquele que dá título ao livro, foi um dos meus preferidos. São pequenos contos sobre coisas mundanas: um homem viúvo que cai na rotina da aposentadoria, as vizinhas que deixam de se falar, a avó que sai com o neto, perde os óculos e desnorteia-se, o marido que ignora a esposa, e mata-a quando ela encontra um novo amor, um estrangeiro em Lisboa que ouve, através da porta, uma história macabra... qualquer coisa trivial pode dar origem a uma pequena narrativa sem se perder nada pelo caminho, e com uma escrita descomplicada e escorreita.

Ter descoberto Teolinda foi tão bom como quando terminei o meu 1.º livro de Rosa Lobato de Faria. No caso da Rosinha, não me perdoo: tinha-me sido aconselhada ainda no ensino secundário, mas fiz ouvidos moucos e foi preciso chegar aos 30 e tal anos para a ler pela primeira vez. Com Teolinda Gersão, fico imensamente feliz por a ter lido, neste momento. A senhora já conta com 80 anos e nunca se sabe quando a perderemos.

Um pormenor muito giro da edição que li: a biblioteca recebe doações, e não é raro, ler um livro com a indicação que foi oferta de...
Este exemplar foi oferecido pelo ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, à Biblioteca Municipal de Sintra e conta com uma dedicatória da autora ao PR e à Primeira-Dama, Maria José Ritta. Um detalhe delicioso.

Por ser um livro tão fácil de ler e tão pequeno, consegui inseri-lo também no #24Horas1Livro.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Lido: O Deus das Moscas, de William Golding

Desde o ano passado que andava de olho neste livro. Tive a possibilidade de assistir ao ensaio de imprensa da peça O Deus das Moscas, adaptado e produzido por uma companhia de teatro sintrense, no magnífico cenário da Quinta da Ribafria, também em Sintra.

Desde o instante em que as atrizes - sim, o encenador trocou, e em vez de ser um elenco masculino, eram só raparigas - começaram a representar, senti que tinha de ler este livro.

Não é um livro minimamente fácil de ler. Creio, aliás, que, se não fosse pela peça, ter-me-ia escapado um ou outro momentos da ação. Apesar de conhecer a história, e saber precisamente do que se tratava, não deixei de me sentir enjoada e emocionada com alguns momentos.

A ação começa com um acidente de avião. Ralph surge. É um adolescente, sobrevivente da queda do avião. Mas logo surge outro rapaz, que começará a ser chamado de Piggy. Aos poucos e poucos vão aparecendo vários adolescentes, e crianças. Após terem-se juntado todos, decidem que devem organizar-se para criar abrigos, acender uma fogueira para chamar a atenção e procurar comida. Um outro rapaz, Jack, nomeia o seu grupo do coro, como os caçadores, mas logo percebemos que ele tem uma postura que antagoniza Ralph e Piggy, este último visto como o elo mais fraco.

Há medida que o tempo vai avançando, vemos que o suposto grupo organizado é tudo menos isso. Os rapazes preferem estar na praia do que criar abrigos, e deixam apagar o fogo, precisamente na altura em que um navio passa ao largo da ilha onde eles estão perdidos.

Mas não é só isso. Os mais pequenos garantem ter visto uma besta, uma criatura e isto é o suficiente para que as coisas se tornem ainda mais complicadas.

O Deus das Moscas é um livro que nos faz pensar sobre a verdadeira natureza do Homem. Em tempos idos, nas aulas de Filosofia... lembro fragmentos esta discussão: Jean-Jacques Rousseau disse-nos que o Homem é bom por natureza e que é a sociedade que o corrompe; enquanto que, para Hobbes, o Homem é, naturalmente, mau. E este livro mostra-nos o bom e o mau que cada rapaz, deixado à sua sorte, seria capaz de fazer.

Não vou entrar em pormenores da narrativa, por motivos óbvios: prefiro que seja cada um de vocês a descobrir. Mas posso dizer que tudo descamba, como seria de prever. Apesar de alguma boa vontade, os rapazes falham redondamente. E, no final, um oficial da Marinha britânica parece ficar desiludido quanto ao falhanço de rapazes ingleses em se auto-governar.

Trata-se de uma obra que coloca, preto-no-branco, o progressivo processo de decadência: estar bem, no alto, e, aos poucos, cair até não restar sequer uma centelha de Humanidade.

Mas tem de ser lido, pessoas. A sério. Sei que escrevo isso muitas vezes, mas quando o escrevo, não é ao desbarato. Tenho-me esforçado em escolher bons livros, e no meio desses "bons livros", existem aqueles que são de uma qualidade superior, por esta ou aquela razão. E este é um desses. Mas, ao embarcarem nesta leitura, foquem-se. Que seja o único livro que lêem. Como disse no início: não é um livro simples, mas é tremendo.

Este livro foi escolhido para o projeto Estações Literárias, da Ana "Phoenix Flight" e da Andreia "Croma dos Livros", e para o meu projeto pessoal de ler mais Nobel da Literatura.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Lido: O Coelho Pedro e outras histórias, de Beatrix Potter

Há poucos meses, pouco depois do verão, creio, passei pela Europa-América, aqui em Mem Martins... foi a minha última visita à histórica editora que pouco tempo passado declarou insolvência.

Nesta visita, um dos livros que trouxe foi O Coelho Pedro e outras histórias de Beatrix Potter, um clássico da literatura infantil. Este pequeno livrinho reúne alguns dos contos escritos pela autora britânica.

Eu sou fã do Pedro, e apesar de estar mais familiarizada com os nomes que se usam hoje - o esquilo, para mim, é o Trinca Nozes, e não Trinca Trinca... ou a ratinha que se chama Migalha e não Janota - não me incomodei minimamente, e li estas historinhas como se fosse a 1.ª vez. Em algumas delas, foi mesmo.

Não há muito a dizer sobre este pequeno volume. São 12 histórias daquele universo animado de Pedro e as irmãs, o primo Benjamin, o senhor Raposo, o sapo Jeremias, entre outros. Eu sou, aliás, aquela pessoa que, quando saiu o filme, praticamente insistiu com o filho para irmos ver ao cinema.

Inseri este livro na lista do projeto #24horas1livro. 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Lido: Sou Um Crime: Nascer e crescer no apartheid, de Trevor Noah

É uma tarefa muito ingrata, esta: escrever a minha opinião sobre um livro sobre a vida de uma pessoa que passou por coisas que, eu, nem nos meus pesadelos, alguma vez, imaginei.

Ficção é ficção. Um romance, mesmo que, por vezes, possa ser inspirado em casos reais, em pessoas de carne e osso, não é a mesma coisa que um livro escrito em voz própria. "Sou um Crime" não é, ao contrário do livro da Malala, para crianças.

Há uns anos, quando o Trevor Noah substituiu o Jon Stewart no "The Daily Show", pensei quem seria aquele miúdo com a mania que era engraçado. Não perdi muito mais do meu precioso tempo a pensar nele, vou ser sincera.

Neste intervalo, entre 2015 e anteontem, data em que terminei de ler o "Sou um Crime", vi os espetáculos da Netflix: Afraid of the Dark e Son of Patricia e já tinha mais umas luzes sobre quem era o Trevor, mas ainda assim não estava preparada para aquilo que li.

Não conhecia um tusto do apartheid. Chego a essa triste conclusão. Até me tenho por uma pessoa que percebe umas coisitas sobre o nosso mundo, mas senti-me perfeitamente ignorante sobre aquilo que desconhecia (e ainda desconheço) sobre este regime segregativo.

Mesmo com o fim do apartheid, as coisas não foram fáceis. Trevor nasceu em 1984, dez anos antes da eleição de Mandela como presidente de África do Sul, evento esse que marcou o fim de uma era. Com um pai branco (um suíço-alemão) e uma mãe negra, Trevor nasceu mestiço. Mulato. Não era carne nem peixe. E, acima de tudo, a sua mera existência era ilegal: estava, literalmente, escrito - legislado - que brancos e negros não se podiam misturar. Essa miscigenação era crime.

Mas a mãe, Patricia, era daquelas tramadas e que nunca se resignava. E acho que foi essa a chave para que Trevor Noah hoje - de acordo com alguma pesquisa que fiz - valesse 13 milhões de dólares. A mãe, contra tudo e todos, tentou pô-lo a estudar em boas escolas, aconselhava-o... em várias descrições, Trevor conta que a mãe lhe batia, mas, ele escreve que foi "por amor". Que preferia ser ela a discipliná-lo, do que a polícia. Porque os mulatos, os mestiços, os "de cor" eram os renegados da sociedade. A admiração que este homem tem pela mãe e pela sua resiliência, a sua coragem... é quase palpável.

E este livro fala um pouco sobre tudo: a sua incapacidade de se sentir confortável com brancos, e com negros, a fome, a pobreza, a miséria, a discriminação, a violência doméstica, mas sempre com um humor latente.

Pessoalmente, acho que "Sou um Crime" deve ser lido. Especialmente, agora... mais do que nunca. Po
r favor.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Lido: Eu sou Malala, de Malala Yousafzai (e Patricia McCormick)

O que sabia sobre Malala é o que a generalidade das pessoas sabe: uma miúda, que foi alvo de uma tentativa de homicídio por parte dos talibã, e que entretanto recebeu um Nobel da Paz. Ponto final.

E Malala é exatamente isso: uma miúda, que foi alvo de uma tentativa de homicídio por parte dos talibã, e que entretanto recebeu um Nobel da Paz. Mas também é a irmã de Khushal e Atal. E teve a sorte de ter Ziauddin Yousafzai, como pai, e Toor Pekai Yousafzai, como mãe - duas pessoas que, dentro das suas possibilidades, incentivaram a filha a lutar pelo que acreditava.

A versão que li de "Eu sou Malala" foi a edição juvenil. Encontrei-a na biblioteca municipal, e pensei "porque não?". É, portanto, uma versão mais "soft" e simplificada da vida desta jovem paquistanesa.

Malala, que, este ano, completará 23 anos, tinha apenas 15, quando um homem armado disparou à queima-roupa sobre ela. A razão? Ela era, desde 2009, o rosto visível da luta das raparigas pelo direito à educação, após os talibã terem encerrado (e feito explodir) alguns estabelecimentos escolares na região onde vivia.

Neste livro, Malala - que fala sempre na 1.ª pessoa - explica um pouco do contexto político e religioso à época, e faz descrições de como era a sua vida em família e na comunidade. Fala especialmente do pai, e do seu papel enquanto educador e ativista - o pai foi, aliás, fundador de várias escolas na região.

Este livro só "peca" por ser algo superficial. Mas atenção, e faço questão de o sublinhar, esta é a versão juvenil. Se eu fosse adolescente, certamente que ficaria relativamente bem informada, em termos de contextualização política.

Malala, hoje, é estudante universitária. Frequenta a Universidade de Oxford e estuda Filosofia, Política e Economia... rumo ao desejo de se tornar uma líder mundial.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Lido: Demência, de Célia Correia Loureiro

Algures no ano passado, a Cristina do blogue e canal Linked Books e a Silvéria do canal The Fond Reader lançaram as bases do "Demência on the road" - um sistema de empréstimo, em rede, do livro Demência da jovem autora Célia Correia Loureiro.

Já havia bastantes pessoas que tinham esta obra e diziam maravilhas. De repente, toda a gente queria lê-lo. A Cristina tinha um exemplar extra e assim nasceu esta rede de empréstimo.

Na semana passada, chegou até mim. E resumindo, li-o em três noites. Chorei baba e ranho, e, no fim, pespeguei-lhe com 5 estrelas. Que livro tão bom.

Temos a história de Olímpia, uma mulher na casa dos 60, que começa a dar sinais de que algo não está bem. Vive numa aldeia pequena, e num fósforo, tudo se sabe. Uma vizinha telefona para Letícia, a nora, na esperança que esta possa fazer alguma coisa para ajudar a sogra. Mas, e é aqui que... como se diz: a porca torce o rabo. Letícia matou o marido, Fernando, único filho de Olímpia.
Fernando era violento, e num dia de especial violência, Letícia atingiu-o com a arma que ele próprio havia empunhado para acabar com a vida da mulher.
Sem emprego, e sem grandes alternativas, até porque tem duas filhas do casamento com Fernando, Letícia vai para casa da sogra, conhecendo de antemão todas as dificuldades que iria enfrentar: lidar com o ódio de Olímpia e da comunidade da aldeia que a vê como uma mera assassina.

Mas, nem tudo é mau e duas personagens masculinas vêm ajudar a limpar o passado e a esclarecer muitos pontos cinzentos de tempos idos: Sebastião, um septuagenário, amigo de sempre de Olímpia, e Gabriel, grande amigo de Fernando, mas que sempre amou Letícia.

Violência doméstica e doenças do foro mental... uma mulher, que quase era morta, ousou enfrentar o seu agressor que era filho da mulher que agora vai amparar. Uma aldeia acusadora.
Uma mulher que perde o seu único filho. Uma mulher doente que não tem mais família que a ajude. São muitos os dilemas e os traumas que são colocados em "apenas" 464 páginas, porque quando se termina esta leitura, parecem muito menos do que na realidade.

A Célia escreve muito bem. E o mais incrível é saber que a primeira edição de Demência tem quase 10 anos - quando a Célia tinha pouco mais de 20 anos.
É um livro brutal, que anda para trás, para o passado de Letícia, e ainda para a meninice e juventude de Olímpia... é contado, portanto, em vários períodos temporais, perfeitamente identificados e necessários para que o leitor consiga entender todas as perspetivas dos nossos intervenientes.

"Demência" foi relançado, no ano passado, pela Coolbooks e, na minha singela opinião, é um livro que deve ser lido e relido. Um daqueles livros que podemos comprar sem hesitações e ostentar na estante de casa.

Foi a minha 15.ª leitura de 2020.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Lido: O Paraíso segundo Lars D., de João Tordo

Li, em novembro (mas o post só saiu em dezembro), o meu 1.º João Tordo - O Bom Inverno - e, na altura, disse que gostaria de ler mais dele. Aproveitando que "precisava" de um livro que se passasse no Inverno para a maratona Estações Literárias, peguei nesta pequena obra. Pequena, em número de páginas.

Sei que é o 2.º livro de uma trilogia - a própria etiqueta da biblioteca o diz - mas O Luto de Elias Gro, ou não existe, ou não estava disponível. Este até se passa no Inverno, portanto, o pior que me podia acontecer era começar a ler e não gostar. Perdida por 100...

Antes de passar à minha opinião, devo confessar que, após a leitura, fui ver opiniões sobre este livro e quase todas dizem que O Luto de Elias Gro é melhor e que este não foi arrebatador como o seu antecessor... portanto, talvez,não tenha sido mau começar por ele, porque gostei bastante.

Temos Lars, um escritor quase septuagenário que vive com a mulher, com, aproximadamente, a mesma idade. A vida dos dois, reformados, é rotineira, sem surpresas... temos toda uma primeira parte narrada pela esposa de Lars, onde ela acaba por conhecer um vizinho, mais novo, estudante de Teologia, com quem desenvolve uma relação de amizade. Ela não lho revela diretamente, mas sabemos que Lars desapareceu.

Depois, a 2.ª parte da perspetiva de Lars, doente, que um dia, ao aproximar-se do carro, vê, lá dentro, uma jovem mulher adormecida. A juventude dela desperta em Lars um furacão de sentimentos e sensações há muito adormecidos.

Não criei uma especial empatia com o nosso Lars, mas adorei a mulher dele. A lucidez da idade, a sabedoria que passava despercebida, a rotina dos gestos que vem com uma placidez tão própria, mas ao mesmo tempo, tudo isto, misturado com uma conformidade em relação ao marido...

É um livro completamente diferente de O Bom Inverno. Se não fosse o nome "João Tordo" estar escrito na capa, diria que os livros eram de autores diferentes. O Bom Inverno é de 2010, e este é de 2015. É incrível o que uns míseros cinco anos fazem na maturidade da escrita...

A leitura faz-se muito muito bem. Li o livro em pouco mais de 36 horas. São apenas 207 páginas, com uma paginação muito limpa, com espaçamentos decentes e um tamanho de letra apropriadíssimo - deve ser apanágio da editora.

Como disse antes, li este, antes de O Luto de Elias Gro... que espero que seja a próxima leitura deste autor... e pelas críticas, será uma leitura brilhante.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Lido: Essa Gente, de Chico Buarque

Este livro foi prenda de Natal da minha sogra. Bastante recente nas minhas estantes, portanto, e nem teve tempo de aquecer lugar na fila de espera. Era uma leitura que eu queria realmente fazer desde que o livro saiu, já que nunca tinha lido nada de Chico Buarque, e só o conheço pela música.

Seguimos Manuel Duarte, um escritor que atravessa uma fase bastante negra da sua carreira: não ter nada para apresentar ao seu editor. Aliás, o primeiro texto que temos acesso, é uma carta que ele escreve, a pedir um adiantamento, à editora.

O que se segue é um conjunto de textos que, numa primeira vista, parecem completamente desconexos entre si, até que começamos a juntar as peças deste puzzle que Buarque nos serve, e começamos a ver a imagem geral.

Divorciado, com dívidas, duas ex-mulheres, um filho, e uma tendência inenarrável para se meter em confusões, Duarte tenta arrancar, pelas ruas, a inspiração necessária, para escrever. O que ele vê, e analisa, com uma lupa de escritor decadente, é uma sociedade que se vai desfazendo, aos poucos, e se deixa diluir nas aparências - como iremos ver ser o caso de ambas as ex-mulheres.

Li, algures, que este livro é classificado como uma tragicomédia, e não poderia concordar mais. Diz-nos a Infopédia, o que é uma tragicomédia:
"Subgénero dramático, cultivado principalmente do século XVI ao século XVIII, que se caracteriza pela união de características dos subgéneros da tragédia (assunto e personagens), com as da comédia (linguagem, incidentes e desfecho)".

Temos Duarte, por exemplo, que se vê obrigado a fazer pequenos favores a uma das ex-mulheres, como passear o cão, porque está prestes a ser despejado do apartamento onde reside, e precisa reatar uma relação com ela.
Mas, por outro lado, ela sempre foi a sua revisora, e uma peça fundamental nos seus sucessos editoriais passados, e é a própria editora que lhe implora que ela reveja as primeiras páginas do novo livro.

O final é inesperado, confesso. Não estava à espera daquele desfecho, o que tornou esta minha 1.ª experiência com Buarque muito interessante. Dizem que o número 13 dá azar, mas não posso concordar... 13.ª leitura do ano, que contou para a maratona Estações Literárias, e para o #24Horas1Livro. A edição é excelente: letra decente para quem está, perigosamente, perto dos 40 anos e usa óculos desde a faculdade, espaçamento e paginação muito "clean".
O próprio estilo do livro é muito atraente: textos curtinhos, como se fossem cartas, páginas de diário, recados... o que torna a leitura muito fluída e nada cansativa.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Lido: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

Apercebi-me que nunca tinha lido este clássico da literatura infanto-juvenil. Vi os mais recentes filmes do Tim Burton, vi a animação da Disney há mais anos que me consigo lembrar, li outras versões mais infantis e conheço as referências, mas nunca tinha lido... incrível, não é?

No ano passado, comprei, no Jumbo, uma versão com ilustrações de John Tenniel. Foi super-barato, três euros, ou qualquer coisa que o valha. Esteve na minha TBR para a 1.ª edição do #24Horas1Livro da Silvéria, mas acabei por não o ler. 


Li este ano, para o mesmíssimo projeto, por coincidência.

Não vale a pena estar a elaborar um texto extenso sobre Alice no País das Maravilhas, por se tratar de uma obra mais do que conhecida, seja lá qual for a sua adaptação.

Alice é uma menina que, de aborrecida, acaba por adormecer. Subitamente, acorda e vê passar um coelho branco. Não seria estranho, caso o coelho não estivesse vestido e a lamentar o seu atraso, enquanto olha para um relógio.
E é desta forma que Alice dá por si a entrar no mundo fantástico do País das Maravilhas, onde a hora do chá não termina, devido a um relógio avariado, e onde se joga "croquet" usando flamingos, e onde os soldados são cartas que pintam rosas que nasceram com a cor errada... um mundo onde os gatos sorriem e onde as criaturas dançam para secar.

Gostei imenso como é óbvio. E tu, sim, tu que me estás a ler, agora mesmo... experimenta. Não te vais arrepender. A não ser que comas uma bolacha que te faça crescer demais e que os teus membros estejam demasiado longe da cabeça para que consigas ter uma leitura agradável... 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Lido: O segredo dos Bragança, de Ricardo Correia

Conheci a literatura do Ricardo através de O Regresso do Desejado, que terminei de ler, literalmente, na véspera do encontro de Leiria. O Ricardo ia lá estar, e fiz questão de conhecer a obra.

Gostei imenso da mistura de ficção com factos históricos e devo confessar que me fez ficar curiosa com certos pormenores da nossa História, e fez-me pesquisar mais e procurar outras fontes de informação.

O Segredo dos Bragança foi o 1.º livro do Ricardo Correia e está igualmente interessante. Em 1905 (ou seja, três anos antes do Regicídio), Portugal está a ser acometido de várias insurreições populares, resultantes da crise que teve início com a questão do Mapa Cor-de-Rosa, que levou a que Inglaterra nos olhasse de lado.

Contudo, a "chave" para ação começa em 1890, com Francisco Costa, Mestre de uma Irmandade de espiões ao serviço da Coroa.

Nestes 15 anos, Francisco esteve desaparecido, presumivelmente morto; no entanto, tudo fazia parte de um plano maior, cujo objetivo seria introduzir espiões nas fileiras inglesas, para descobrir informações sobre um suposto tesouro que Dona Catarina - casada com Carlos II de Inglaterra - havia tido acesso e escondido pelo bem de Portugal.

Se há alturas em que a ação parece que não leva a lado nenhum, há outras alturas em que tudo acontece. Por vezes, tive de voltar atrás na leitura para assimilar os desenvolvimentos.

É um romance bem escrito e que se lê sem dificuldades. A linguagem é perfeitamente acessível, e as personagens são interessantes. O exercício que o Ricardo faz de misturar ficção com História, às vezes, pode parecer de tal forma verosímil que colocamos em questão aquilo que realmente sabemos: juro que tive de ir pesquisar para ver se encontrava alguma pista que me confirmasse se Francisco Costa e a Irmandade existiram efetivamente. 

Leitura 11 de 2020, a contar para a maratona Estações Literárias, bem como para o projeto #portuguesebom da Maria João Covas e da Maria João Diogo. 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Lido: Outros Belos Contos de Natal (vários autores)

Este livro não aparece no Goodreads, portanto não está lá contabilizado. Mas foi a 10.ª leitura do ano.

Andava atrapalhada com uma das categorias da maratona Estações Literárias e não conseguia desembaraçar-me. Num belo dia, estava a cuscar no meio dos meus livros pequeninos (aqueles mais maneirinhos-tamanho-coleção Vampiro), para ver o que me faltava ler e encontrei esta espécime rara que, juro pela minha saúde, nunca o tinha visto, e vivo nesta casa há 10 anos.


Outros Belos Contos de Natal é um conjunto de 13 histórias, humorísticas (umas mais que outras), de autores portugueses, sobre o Natal. Participam: Nuno Markl, Carlos Quevedo, Rui Zink, Luísa Costa Gomes, Gonçalo Crespo, Francisco Moita Flores, Carlos Tê, João Pereira Coutinho, Nilton, João Serra, Bruno Nogueira, Miguel Neto e Manuel João Vieira.

Está engraçado, mas não a nível estratosférico. Se o apanharem, é giro de ler, mas não é essencial para a vossa vida futura. É um "3 estrelas" sólido.

Contou também para o projeto #24horas1livro.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Lido: O velho que lia romances de amor, de Luis Sepúlveda

Em janeiro, durante mais uma reunião do clube de leitura a que pertenço - Regaleira de Livros - ficou decidido que o tema da leitura de fevereiro seria "amor" - no título, a palavra "amor" (ou seus derivados: ama, amar, amo...) teria de figurar.

Optei pelo livro "O velho que lia romances de amor", de Luis Sepúlveda. Era uma vontade que tinha há imenso tempo - aliás, juraria que o tinha, mas afinal não (tenho vários do autor, mas não este). Numa ida à biblioteca municipal trouxe-o.

E em boa hora, porque, para além de dar para o tema do clube, também consegui inserir na maratona Estações Literárias (de que já falei "n" vezes) e ainda no projeto da Silvéria Miranda, #24horas1livro.

O livro conta a história de Antonio José Bolívar Proaño, um homem já com alguma idade, que reside numa aldeia na floresta Amazónica. Este homem conhece profundamente a floresta, dado que, após a morte da esposa, passou algum tempo com os indígenas que o ensinaram.

A aldeia - remota, como tinha de ser - é visitada por um dentista e fornecedor de romances de amor ao nosso protagonista, que os lê avidamente.

Num dia, é encontrado o corpo de um homem que se vem a descobrir ter sido atacado por uma onça. Mas este não será o único corpo a ser encontrado, e outros se sucedem. Quando um turista é atacado, o administrador da aldeia organiza um grupo de homens para caçar a onça. Mas acaba por ser Antonio José Bolívar Proaño a cumprir a missão, não sei antes fazer uma reflexão sobre esta "luta" entre duas espécies.

Sepúlveda não falha. Os livros dele, embora pequeninos, têm o condão de contar exatamente aquela história sem faltar absolutamente nada, nem haver "enchimento de chouriços", como se vê em outros livros. Este livro fez-me lembrar um bocadinho O Velho e o Mar, que gostei muito (mas sem amar de paixão)... a reflexão dos protagonistas sobre a sua relação com o animal que, teoricamente, tem um poder/instinto superior ao do homem. 

É um livro maravilhoso, e super-recomendo a quem ainda não leu. Sepúlveda consegue em cento e poucas páginas contar uma história com princípio, meio e fim, sem errar. Conseguimos perceber porque é que Antonio lê aquele género de livro que, nem por sonhos, associaríamos aquela pessoa. Conseguimos sentir a vida da floresta. Conseguimos sentir o desespero de quem não a conhece, e não a quer entender. Conseguimos perceber cada pedaço das falas de Antonio José Bolívar Proaño, um homem - velho - que só quer ser deixado em paz, para ler os seus romances de amor, daqueles sofridos, que fazem chorar, mas que acabam bem. 

Esta foi a 9.ª leitura de 2020. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Lido: Silêncio, de Shūsaku Endō

No âmbito do #desafionijitv2020 do Fernando (o link irá redireccionar para o vídeo sobre o desafio), li o livro Silêncio, do autor japonês Shūsaku Endō.

Vi o filme há algum tempo, e, algures, no ano passado, comprei o livro (em edição de bolso). Estava parado na estante, até que o projeto do Fernando me levou até ele. E ainda bem. Que história incrível.

É conhecido que, no passado, padres jesuítas portugueses foram para o Japão, para cristianizar a população. Contudo, a determinada altura, padres e cristão começaram a sofrer autênticas perseguições, torturas indescritíveis e muitos foram mortos.

O Padre Ferreira foi um desses homens. Foi para o Japão, em missão, e as últimas notícias dele são as de que havia cometido apostasia, ou seja, havia renunciado à fé cristã.

Os padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe decidem ir até ao Japão, numa altura em que a presença de cristão estava proibida, à procura do antigo mentor, e provar que aqueles rumores eram falsos. E assim começa uma aventura, para ambos, mas, especialmente para Rodrigues, figura central deste livro, que numa primeira fase, era o narrador da história.

É um livro fenomenal. Rodrigues coloca em causa tudo o que sabe e o que conhece ao tomar conta, em primeira mão, dos horrores e das dificuldades sentidas pelos cristão japoneses. A dor do dilema, a dúvida... são tão distintamente transmitidas pelo autor, que é impossível não as sentirmos também.

A escrita de Shūsaku Endō é irrepreensível. Não é aborrecida, não há uma vírgula fora do lugar, cada página é pensada e a história está extremamente bem construída. No Japão, os cristão são uma percentagem baixíssima, e Shūsaku Endō foi educado como cristão, logo a experiência de estar "deslocado" no espaço, traz um brilho diferente que, apesar de tudo, o filme (2016, por Martin Scorcese) não conseguiu transmitir na totalidade, apesar de estar bastante fiel à obra literária.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Lido: A Mulher no Expresso do Oriente, de Lindsay Jayne Ashford

Esta foi a minha 7.ª leitura do ano. Supostamente estava na minha lista de leituras de fevereiro, mas adiantei-me no que queria ler, e "despachei" este em 3 dias.

A Mulher no Expresso do Oriente - só o nome é mais do que apetitoso. E se tomarmos atenção às letras mais pequeninas da capa, lemos "Um romance inesquecível sobre Agatha Christie e uma viagem cheia de segredos e mistérios".

Não me digam que não ficariam curiosos??

E tendo eu já lido muito de Lady Agatha, visto todas as temporadas possíveis de Poirot, Miss Marple e mesmo do casal Beresford (muitas vezes esquecido, e injustamente - na minha opinião!), tinha de ler este livro.

O livro começa com Agatha Christie a descansar no seu jardim, em 1963. É agosto e está bom tempo. E eis que um homem desconhecido a aborda. Precisa desesperadamente da sua ajuda. Mostra a Agatha umas fotografias antigas, e solicita que esta identifique as pessoas que nelas figuram. Agatha fica algo perturbada e equaciona não contar nada ao homem.

O Capítulo 1 não tem mais de sete páginas e passa-se em outubro de 1928. Temos então uma Agatha a preparar-se para embarcar no Expresso do Oriente. Sabemos que está recém-divorciada de  Archibald Christie (Archie, como é identificado neste livro) e a viagem servirá para espantar esse fantasma.
Somos apresentados também a Nancy que está prestes a embarcar no mesmo comboio, para fugir ao marido e ainda a Katherine, uma mulher cujo marido se suicidou, quando estavam casados há apenas seis meses. Katherine sente-se terrivelmente culpada.

E, claro, que estas três mulheres vão ver os seus destinos profundamente entrelaçados, mais não seja porque as fotografias que, no prólogo, o homem misterioso mostra a uma mais velha Agatha Christie, mostram precisamente essa relação entre elas.

Se, por um lado, fiquei um bocadinho decepcionada por não se tratar de um verdadeiro mistério como estamos habituados a associar a Agatha Christie, por outro lado, trata-se de um romanceamento da sua vida. A autora pegou em aspetos chave da vida da romancista e deu-lhes um "cheirinho" de ficção: Agatha realmente divorciou-se, a narrativa de Katherine também existe, apenas Nancy é ficcionada, mas inspirada na amante de Archie. Agatha realmente viajou no Expresso do Oriente (mais do que uma vez) e tornou-se amiga de Katherine, e conheceu Max que viria a tornar-se o seu 2.º marido. As circunstâncias é que podem não ter sido tal como descritas neste livro.

Gostei mesmo muito, apesar daquele ligeiro sentimento de decepção. Não é um mistério digno das célulazinhas cinzentas de Poirot, mas é uma viagem pelos segredos de três mulheres adultas, em diferentes estágios das suas vidas. No fim, obviamente, fica tudo esclarecido, com todos os arcos bem fechados.

Mas mais do que um livro sobre Agatha Christie, ou sobre crime e mistério, este livro é sobre os laços de amizade e sobre mulheres que, com as suas forças e fraquezas, continuam... sempre.

Além da narrativa que se torna fascinante à medida que o livro vai avançando, gostei igualmente das descrições. E como já li o Crime no Expresso do Oriente, e as respetivas adaptações a filmes e séries, a minha mente ia pegando em fragmentos de memórias que poderiam perfeitamente ser imagens daquilo que ia lendo.  Recomendo este livro, mas não esperem um crime de faca e alguidar, porque não tem nada a ver.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Lido: O Poço da Ascensão, de Brandon Sanderson

Livraço. A minha análise a este livro quase podia ficar por aqui, que não me arrependeria. Li o primeiro volume, ainda durante o mês de novembro (de má memória) e tinha ficado fascinada com o mundo criado por Sanderson. 

(post sobre o primeiro volume O Império final, pode ser consultado aqui)

Este começa logo a assustar pelo tamanho. É um bicho com mais de 700 páginas e... senhores da Saída de Emergência, se me ouvirem, se fazia sentido dividir um livro, era este!... 

Mas adiante.

Muito resumidamente: no 1.º livro, tínhamos Kelsier, um afamado ladrão, a reunir um grupo, com o objetivo de derrubar o Senhor Soberano, o líder do Império Final, há mais de 1000 anos, num misto de reino de terror e fé cega (sim, enquanto nós temos várias religiões, ali, clamava-se pelo Senhor Soberano). 
Neste mundo, existem pessoas com o poder de "queimar" metais (chamados "alomantes"), dando-lhes uns determinados poderes. Kelsier é um raro, é "nascido das brumas", ou seja pode "queimar" todos os metais conhecidos, sendo, assim, uma pessoa praticamente invencível. Vin é a sua aprendiz, uma miúda das ruas, maltratada por todos, que encontra no bando de Kelsier, o conforto, a segurança e a confiança que nunca teve antes. Vin também é "nascida das brumas" e Kelsier desperta-a para os poderes que possui. 

Neste 2.º livro, explora-se muito a origem da mitologia do Senhor Soberano. De onde apareceu? Quem era ele realmente? De onde vinha todo o seu poder? Como conseguiu dominar o território durante tantos anos? 
O Senhor Soberano foi derrotado, e o bando de Kelsier está encarregue de pôr ordem em Luthadel, a cidade-capital do Império. Elend, o namorado de Vin, foi o escolhido para ser o Rei nesta nova Era, mas a pressão está a dar cabo dele: tem dois exércitos às portas da cidade (um deles do próprio pai), e um terceiro a caminho, e internamente, o seu Conselho insiste em entregar a cidade a um dos exércitos. 

Religião, política e poder são as palavras-chave deste extenso volume, com tudo o que de bom e de mau possam trazer. 

Já não me recordo com quem tive esta conversa, mas sei que há pouco tempo falava da saga e em como, de forma encapotada, há imensa atualidade num "simples" livro de fantasia: a manipulação, os jogos políticos de bastidores, um grupo de privilegiados que se sente "superior" em relação a outros... 

Provavelmente, o Sanderson nunca irá vencer um prémio Nobel da Literatura, mas, a saga está muito bem construída, caramba... 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Lido: A mulher do oficial nazi, de Edith Hahn Beer (com Susan Dworkin)

Este livro foi a minha segunda leitura dos projetos da Dora e da Sara Cristina, #hol75 e #vozesdoholocausto, respetivamente, que pretendem, acima de tudo, que o tema continue em cima da mesa.

Este ano, passaram 75 anos desde a libertação de Auschwitz e, mais do que nunca, com a ascensão de movimentos extremistas, convém que não se esqueça.

É perfeitamente justo dizer que, ao longo dos anos, foram perpetuados outros genocídios, outras ações massivas de matança de povos e comunidades inteiras, e que não têm gerado tanta discussão como este em particular, mas (na minha simples e humilde opinião) creio que falar sobre o Holocausto, não é "apenas" falar do Holocasto. É, e deve ser, mais que isso.

Falar do Holocausto deve ser apenas o ponto de partida para uma discussão maior e mais complexa sobre o papel dos Estados na proteção e na defesa daqueles que os procuram e sobre Direitos Humanos.

Falar de Auschwitz, mas ignorar aqueles que morrem no Mediterrâneo ou a caravana sul-americana de refugiados, ou esquecer o que se passou no Ruanda e o que se passa na Nigéria - é limitar-se a seleccionar a parte da História que lhe dá mais jeito. Mas isto sou eu, que hoje estou com mau feitio... esqueçam...!

Sobre o livro - eventualmente conterá spoilers - depois não digam que não avisei:
Edith é uma jovem e brilhante estudante de Direito. Tem um namorado carinhoso e bonito, está prestes a graduar-se. O pormenor? Vivia em Viena. Em 1938, Hitler invade o País, e a vida perfeitamente encaminhada de Edith descamba.

Consegue documentos falsos, e esconder o seu judaísmo ao longo de toda a guerra. A determinada altura, conhece Werner, que está filiado no Partido Nazi, e, na reta final, é ainda chamado para combater (apesar de ser parcialmente cego).

Esta é a sua história. A vida de uma mulher que, durante anos, conseguiu sobreviver, fingindo ser quem não era. O que demonstra que não havia nenhum sinal exterior de fizesse dela inimiga do Estado, mas, mais uma vez, estou a começar a divagar.

Gostei muito deste livro, e esta é a prova em como ainda me consigo surpreender com livros com esta temática. É um daqueles livros que não se passando num campo de concentração, nos consegue comover e pensar para além daí. A II.ª Guerra não foi só os extermínios; foram também aqueles que, como Edith, foram praticamente escravizados por alemães, a "raça superior" que tudo podia...

Mais uma vez, trata-se de uma história verídica, escrito num tom quase coloquial, e gostei especialmente da parte final do livro, quando Edith, já liberta do segredo e da pressão de ter de fingir ser ariana, assume o seu verdadeiro "eu" e riposta contra o marido, que apesar de saber a sua identidade, não a denunciou (até porque também se incriminaria), mas que usava esse conhecimento em seu favor.

É um livro que se lê muito bem. Tem pouco mais de 250 páginas, e lê-se quase de uma assentada. Li-o em quatro dias, porque estava a partilhar o meu tempo com o segundo volume da trilogia Mistborn, do Brandon Sanderson: O Poço da Ascensão (cujo post sairá amanhã ou na 5.ª feira). 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Lido: Preciosa, de Nelson Nunes

No final de novembro, o grupo de leitura a que pertenço - Regaleira de Livros - reuniu em Rio de Mouro, na Feira do Livro que a junta de freguesia local havia organizado no Mercado Municipal. No mesmo dia, o autor sintrense Nelson Nunes apresentava lá o seu 1.º romance: Preciosa. 


Preciosa é um testemunho, em 1.ª pessoa, sobre violência doméstica e sobre sobrevivência. O pai de Nelson era abusador, a mãe de Nelson e o próprio, as vítimas. Em pouco mais de 150 páginas, o autor partilha memórias de fuga, de perseguições, de sovas, de ameaças, de armas apontadas... fala-nos da sua ausência de infância e da normalização da violência. Fala-nos de quando as autoridades não fizeram caso das denúncias. Fala-nos de quando o pai o ia buscar e tentava comprar-lhe o afeto com prendas até ao dia em que o filho lhe disse que o odiava, e que desejava que morresse.

Um testemunho muito cru, sem falinhas mansas... um testemunho de alguém que ainda hoje sente resquícios de medo ao dobrar esquinas.

Preciosa é, ao mesmo tempo, uma prova de sobrevivência, porque a protagonista - a mãe - ao contrário das 35 pessoas de 2019, sobreviveu. Fugiu do agressor. Tentou refazer a sua vida. Tentou que a violência doméstica não lhe condicionasse os passos. Tentou proteger sempre o filho. E conseguiu! 

O Nelson não é novato nestas andanças da escrita. Mas este é o seu primeiro romance. A sua primeira grande reportagem, exatamente, sobre a sua vida. 



terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Lido: A Imperatriz Viúva: Cixi. A concubina que mudou a China, de Jung Chang

Depois de "passar" umas horinhas no Japão, nada mais adequado do que dar "um pulinho" à China.

E depois de, em julho, ter lido Cisnes Selvagens, tive uma vontade imensa de ler mais livros escritos por Jung Chang; foi assim que cheguei a esta obra, disponível na Biblioteca Municipal de Sintra. Procurei-a nas várias vezes que fui à biblioteca... estranhei nunca encontrar o livro, sabendo de antemão que estava disponível. Perguntei por ele. Estava nas biografias. Ou seja, procurava eu um romance, e levo um livro de não ficção.

É um bocadinho denso, sem dúvida, mas é fascinante perceber que, em pleno século XIX, numa China medieval, houve uma mulher tão "à frente" do seu tempo. Uma pessoa inteligente o suficiente para perceber que havia mais (e melhor) que podia ser feito pelo povo.

E foi após a morte do Imperador Xianfeng, de quem era concubina, que esta mulher - aproveitando o facto de ser a mãe biológica do futuro Imperador, já que Xianfeng não tinha mais herdeiros masculinos - começou a governar a China.

E assim foi, durante quase cinco décadas. 47 anos, mais precisamente. A sua morte em 1908, praticamente, assinalou a queda da dinastia Qing, a última dinastia imperial da China.

É um livro bastante interessante, e muito bem apoiado numa extensa bibliografia. No meio do livro, em três ou quatro ocasiões, foram incluídas fotografias e pinturas de época, de Cixi... documentos visuais interessantíssimos.



Apesar de não ser - de todo - o que esperava, gostei imenso de ler A Imperatriz Viúva que, de resto, tem também uma capa fabulosa.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Lido: 47 Ronin, de Mike Richardson e Stan Sakai

A minha segunda leitura do ano foi a história dos 47 Ronin, um grupo de Samurais no Japão do século XVIII que vingam o assassinato de seu mestre. É a lenda mais famosa do código de honra Samurai.

Esta leitura foi feita no âmbito do projeto #desafionijitv2020, apresentado pelo Fernando do canal Niji TV. Em que consiste? Os participantes devem ler livros ou mangás, de acordo com uma série de desafios: mangá ou livro vencedor de prémio, mangá ou livro ambientado no Japão, mangá ou livro com histórias curtas, mangá ou livro de um autor preferido, mangá ou livro do ano ou década em que nascemos, mangá ou livro sobre música, mangá ou livro passado no Verão, mangá ou livro com número no título, mangá ou livro com letra do o teu nome mangá ou livro que tenha uma cor no título e (este é extra) mangá ou livro que tenha lido no ano passado.

Apesar do Fernando ter definido um mês para cada desafio, deu liberdade aos participantes de os realizarem como quisessem. 

Achei o projeto muito interessante, especialmente porque nunca li mangá, e obriga-me a sair do meu cantinho e a procurar outras aventuras. Dias depois de ter visto o vídeo do Fernando, reparei que num canal qualquer da cabo, estava a dar o filme 47 Ronin, com o Keanu Reeves, e pensei que poderia ser um bom ponto de partida. Encontrei então o livro de Mike Richardson e arte de Stan Sakai. Devorei-o em menos de um fósforo. Ajudou bastante ser pequenino (cerca de 150 páginas), porque estava inteiramente em inglês, que não costuma ser (de todo!) a minha língua preferencial para ler. 


O que nos conta então a história? Um grupo de samurais foi forçado a tornar-se Ronin (Samurais sem um Senhor) depois que o seu Mestre/Senhor Feudal foi condenado a cometer seppuku (um ritual suicida), após ter ferido um alto funcionário judicial, que o andava a atormentar e a sabotar há bastante tempo.
Estes Ronin elaboraram um plano bastante discreto para assassinarem este homem, num período de tempo bastante alargado, de forma a não chamarem a atenção sobre si mesmos. Após conseguirem os seus intentos, foram condenados, tal como o seu senhor, a cometer seppuku.

A história, como já tive a oportunidade de dizer, é simples e pequenina, e a arte é muito bonita. Vale muito a pena procurar lê-la. Ainda estou indecisa em usar esta leitura na categoria "ambientado no Japão" ou "com número no título"... vejamos como corre o desafio à medida que for avançando. 

domingo, 19 de janeiro de 2020

Lido: Os Bebés de Auschwitz, de Wendy Holden

Atrasada, atrasada, atrasada... é assim que estou na publicação das minhas primeiras leituras de 2020. Muitas coisas para organizar, reuniões e trabalho ocuparam grande parte do meu tempo nos últimos dias. Mas, continuei a ler.

Iniciei o ano com Os Bebés de Auschwitz, de Wendy Holden, para participar nos projetos da Dora e da Sara Cristina: #hol75 e #vozesdoholocausto, respetivamente (para saberem do que estou a falar, basta seguirem os links que vos levarão aos vídeos explicativos).

Eu sabia que este livro me ia deixar perturbada. Desde o 1.º dia em que soube que estava grávida do Henrique, qualquer filme ou livro que envolva crianças deixa-me apreensiva. Tem sido assim desde o Verão de 2012. Depois do Henrique nascer, esta "coisa" piorou exponencialmente. E ler este livro, não me deixou melhor. Não chorei baba e ranho, mas ia fazendo longos intervalos entre leituras, porque as gravidezes das três mulheres ali descritas, foram tão diferentes da minha como água e vinho o são entre si. Ao menor desconforto, eu sabia que tinha o número do médico que me seguia e podia contar com ele. Fiquei, de baixa, a repousar, desde janeiro, quando o Henrique só nasceria em março. Tive um parto, através de cesariana, o mais confortável possível. Estive num quarto de hospital só para mim, com enfermeiras à distância de um toque de campainha.

Estas mulheres não tiveram absolutamente nada disto.

Estas mulheres viviam em condições desumanas, num campo de concentração, onde estavam doentes, com fome, com sede, sem descanso, sem acompanhamento, a trabalharem horas a fio, e com a permanente sensação que cada dia podia ser o último.

É certo que, as histórias individuais de cada uma, antes de tudo descambar, às duas por três, eram muito semelhantes. O livro apenas peca nesse aspeto. No início, somos apresentados a cada uma das mulheres Priska, Rachel e Anka, individualmente. São nos apresentados os seus antecedentes: a história de família, os estudos, as relações de amor e/ou amizade de cada uma delas, os namoros, os casamentos, a ascensão de Hitler, as invasões, as tentativas de fuga... cada mulher, um capítulo. Tornava-se um bocadinho confuso, porque, no geral, eram histórias algo semelhantes. Até que, um pouco mais para a frente, a autora opta por fazer capítulos gerais (Auschwitz, Freiberg, O comboio, Mauthausen, Libertação, Casa, etc..) o que acabou por tornar a leitura mais fluída. 

Uma das coisas interessantes, foi a autora ter deixado suficientemente claro que nenhuma das grávidas sabia das outras duas, partindo do princípio que seria a única a passar por aquele inferno, deixando ao leitor, a "missão" de entender o quão solitária cada uma se sentia.

Não foi uma leitura que me desse prazer. Não foi uma leitura que me deixasse feliz, ou com uma sensação de bem-estar. Muito pelo contrário; mas continuo a participar nestes projetos e nestes desafios, porque acho que é importante perpetuar estas memórias, para que não caiam no esquecimento. 

No fim, todas sobreviveram, todas deram à luz (duas no comboio e a terceira, literalmente, às portas do campo de Mauthausen), e os bebés - Eva Clarke, Mark Olsky and Hana Berger Moran - acabaram por se conhecer já muito mais tarde, há 10 anos, sensivelmente. Este ano, cada um deles comemora o seu 75.º aniversário, e continuam a dar-se como se de verdadeiros irmãos se tratassem.

Os Bebés de Auschwitz: Eva, Mark e Hana - foto de Eva Clarke, publicada no The Times of Israel